a bela e ela mesma

Escrever é fascinante, sabia? Porque posso falar comigo mesma, com você e com uma multidão.

Gabrielly Rezende

Podemos comprar uma vida?

Tempo é Dinheiro, publicado aqui no Brasil em 2012, pela autora Lionel Shriver, é um romance revelador, construtivo e indispensável. Com sua linguagem no estilo "curta e grossa", a autora nos leva aos mais diferentes debates e questionamentos, desde casamento até o sistema de saúde americano. Com personagens bem trabalhados, através de cada acontecimento e diálogo, Lionel disseca as camadas, personalidades, intimidades deles. De forma arrebatadora, Lionel nos presenteia com um livro digno de reconhecimento não apenas entre os leitores, mas em todo o mundo. Tempo é Dinheiro incomoda, machuca, mas é necessário nos dias de hoje.


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Lionel Shriver é uma autora americana e já possui alguns prêmios como, por exemplo, o Prêmio Orange, em 2005 com a publicação de Precisamos Falar Sobre Kevin. Apesar de ser um livro muito famoso e que fora adaptado para o cinema, Lionel coleciona outras obras primorosas e repletas de questionamentos. Aqui no Brasil, em 2012, o livro Tempo é Dinheiro foi publicado e é sobre ele que será o foco do texto. O título do livro nos leva a crer que seja algo relacionado a autoajuda, algo do tipo "siga os passos para uma vida próspera", porém a narrativa que Lionel propõe é muito arrebatadora. Em mais de 400 páginas, podemos acompanhar a vida de dois casais e suas famílias imersas nas mais diversas questões: dívidas, doenças, decepções, angústias, sistema de saúde, suicídio, consumismo, etc. E a autora, como poucos, consegue expor assuntos tão cotidianos de forma crítica, e nos mostra que um bom romance não precisa ter situações felizes, e sim tocantes.

Somos apresentados, a princípio, a um casal que estão juntos há muitos anos: Glynis e Shep. De maneira inteligente, Lionel usa uma metáfora (uma fonte de água que ficava numa mesinha, ambos a construíram) que aparecerá em todo livro para explicar esse casal, esses dois personagens. Os dois fluxos de água serviam para nutrir um lago comum, e além disso a estrutura de metal representava Glynis: rígida, firme, dura, determinada, que só pode ser maleável sob agressivo manuseio. Enquanto Shep era colocado como a água: adaptável, simples, dócil, sem formato próprio, fluído, porém em certas ocasiões penetrava aquela única vedação mal feita causando estragos, reformas.

Inclusive, a primeira cena do livro começa com Shep arrumando as malas para uma ilha remota chamada Pemba. Lá, ele pretende viver sossegadamente e usufruir de todo dinheiro que conseguiu guardar durante toda sua vida, ou seja, uma vida sem trabalho. Ele viveu toda sua jornada almejando e construindo aquilo que nomeou como Outra Vida: um outro lugar melhor, com mais paz, sem ocupações, sem desgaste emocional, sem trânsito, sem impostos, um Paraíso. É importante lembrar que para planejar a Outra Vida, Shep teve que experimentar uma vida de privações. Durante anos, substituíra a dieta da família por hamburguer de peru por ser mais barato, trocara papel higiênico de qualidade por uma outra marca qualquer em promoção, vendeu a própria empresa que levara anos de intenso trabalho para se consolidar, e etc. Tudo isso com o único propósito de arrecadar o que fosse necessário para fazer o sonho da Outra Vida se tornar real. Shep sabia usar seus ganhos de forma medida, e pagava tudo que pudesse para qualquer um que solicitasse uma ajuda. O que Shep não contava era a doença gravíssima que acometera sua esposa, Glynis, um câncer (mesotelioma) considerado raro por muitos médicos.

O grande embate é que nos Estados Unidos não existe um sistema público de saúde como nós, brasileiros, temos. Mesmo que saibamos que o nosso governo é desleixado com a saúde da população e os investimentos na área são escassos (apesar da arrecadação de impostos), ainda podemos considerar que é uma "rede pública" de saúde. Resumidamente, as pessoas que recebem salários mais baixos podem adquirir plano de saúde com preço relativamente pequeno, no entanto se houver a necessidade de um atendimento mais especializado, o paciente deve arcar com todo o custo. Vale ressaltar que lá os gastos com saúde são caros demais, altíssimos.

Aliás, até hoje o sistema de saúde americano é tema de discussões nas instâncias políticas e em debates presidenciais. No caso dos nossos personagens, após a venda de seu próprio negócio, Shep voltou a condição de funcionário e recebia um salário. Glynis, sua esposa, era uma espécie de artesã e tampouco lucrava bastante. O que fazer: viajar deixando a esposa exposta e desamparada ou bancar todas as despesas com os tratamentos médicos? A segunda opção, obviamente, foi tomada e a família entra na luta diária para conseguir pagar as consultas, exames, cirurgias usando todo dinheiro da Outra Vida, ademais as expensas do dia a dia como alimentação, luz, água, combustível, etc.

Falando em Glynis, precisamos destaca-la. Apesar de todo sofrimento de quimioterapias, cirurgias tão evasivas, de toda dor que sente, em momento algum vemos uma Glynis resignada, conformada. Ela não lamenta sua condição. Ela não faz de sua doença um ponto de estagnação. Pelo contrário, a personagem é consciente de todas as etapas violentas do tratamento, e luta diariamente pela sua vida. Ela não suporta a visita de parentes hipócritas que viajam horas e horas apenas para massagearem seus egos, para dizerem a si mesmos "olha, como sou generoso, viajei tudo isso para vê-la e mostrar apoio". Alguns leitores podem a considerar mesquinha, inflexível, impiedosa, rabugenta, mas é exatamente assim que Glynis mostra todas as suas camadas. Não é o tipo de personagem que te agrada, que cativa o leitor, ela incomoda e é nisso que está seu triunfo.

Provavelmente, essa é o primeiro grande ponto que Lionel nos traz: quanto vale uma vida? Quanto custa salvar uma vida? Quanto gastar ou poupar para curar alguém? Quais são as políticas publicas relevantes para a saúde de um país? Quanto pode se pagar para comprar uma vida? Porque era, basicamente, isso...eles iriam comprar uma vida.

Em um dado momento, também observamos um dos filho deles, um jovem chamado Zach. Sobre ele, possivelmente, conseguimos perceber o Hikikomori: um problema que prejudica milhões de adolescentes e os impedem de sair de seus quartos (literalmente), de se desligarem do mundo virtual, de interagir até mesmo com a própria família. Isso gera sérias complicações como depressão, ansiedade, pensamentos angustiantes, uma vida isolada de tudo e todos.

É introduzido, no livro, também outro casal: Jackson e Carol. Eles são pais de suas meninas bem diferentes uma da outra, Heather e Flicka. Fickla é portadora de uma doença do sistema nervoso conhecida como Disautonomia Familiar, muito rara e com sintomas dolorosos como vômitos constantes, ausência de lágrimas e sensibilidade a dor, convulsões, etc. Enquanto isso, Heather vendo o cuidado tão especial dado a irmã mais velha, os pais começam a dar, sem motivo médico algum, placebos feito de açúcar e outra substâncias para que não haja desigualdades entre elas. E, para mima-la, a deixam comer tudo o que quer gerando, assim, um debate sobre obesidade infantil (talvez). Para mais, o próprio casal vive um obstáculo no casamento devido a uma "masculinidade" tóxica e a questão das inúmeras dívidas em relação a uma cirurgia mal pensada, a saúde da filha.

Através seu humor ácido, Lionel nos envolve nesses tópicos e nos faz pensar muito sobre nossas vidas, nosso dinheiro, nosso sistema de saúde, se podemos ou não comprar uma vida, um sonho, um desejo. Com uma escrita visceral, honesta e muito profunda, ela consegue nos transportar para dentro da intimidade de cada personagem e, desse modo, nos faz sentir uma empatia importantíssima. Assim como Glynis, Lionel não é do tipo que escreve bonito para encantar, ao meu ver, ela nos amofina a cada página para nos desconstruir e construir. Tempo é Dinheiro merece ser lido vagarosamente, e acredito seja quase impossível terminarmos a leitura da mesma forma quando começamos.

"As decisões levam uma fração de segundo. Não decidir é que consome o tempo todo"

"...A verdade é que existe toda uma gorda camada de empresas de seguros com fins lucrativos entre a Glynis e os médicos,um bando de parasitas sacanas e gananciosos ganhando dinheiro com a doença dela."


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