a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

Finnegans Wake - James Joyce & Chico Buarque - Um Paralelo

O que há por trás de Finnegans Wake, obra máxima de James Joyce? Durante muito tempo Finnegans Wake foi considerado intraduzível e impenetrável, fazendo Ulisses parecer coisa de iniciante. O mitólogo Joseph Campbell em sua obra "A Skeleton Key to Finnegans Wake" nos da a chave para abrir algumas portas. Aqui traço um paralelo com a música Construção de Chico Buarque, fazendo uso da filosofia de Vico, além de questionar a linguagem desde o mito de Babel até a sua liquidez nos dias atuais.


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Para Marcela Melo que sempre amou Chico Buarque e que jamais lerá Finnegans Wake

I – Os Quatros Ciclos Históricos

Ao elaborar sua obra máxima, Finnegans Wake, durante 17 anos, James Joyce arquitetou não apenas o Livro das Coisas Infinitas, mas um oráculo e sua cosmogênese, cujos pilares são sustentados pelo Eterno Retorno, no dizer de Joyce o “Riverrun” (Riocorrente). E por que não um Riverrerun (Riorrecorrente)?

É o mesmo rio de Heráclito. É o mesmo rio de João Batista. É o Ganges, o Nilo, o Amazonas. São todos os rios a desaguar no Oceano Cósmico dos Sonhos.

Joyce se apoiou na doutrina do filósofo italiano Giambattista Vico, de que a história da humanidade passa por quatro fases: teocrática, aristocrática, democrática e caótica. Encontramos a mesma ideia na mitologia grega; Idade de Ouro, de Prata, de Bronze e Idade de Ferro. Temos também a sua versão hindu; os Quatro Yugas. Podemos dizer que estamos vivenciando a última fase; Caótica, Idade de Ferro ou Kali Yuga (que é a Idade do Vício), ou seja, a demolição das velhas estruturas econômicas, políticas, sociais, culturais e assim por diante, para retornar ao primeiro ciclo.

Joyce logrou a morfologia do Destino Humano.

O título Finnegans Wake partiu da canção popular irlandesa que conta a história do pedreiro Tim Finnegan, que se embriaga, acaba caindo de uma escada e morre. No seu velório, os amigos respingam um pouco de uísque sobre ele, que acaba despertando de imediato. Ressuscitado, Tim se junta aos seus amigos e familiares em uma dança frenética, celebrando a nova vida renascida.

Em Construção, música de Chico Buarque (do álbum Construção, 1971), a história fala também de um pedreiro bêbado que caiu e tornou a cair. Na letra de Chico, apesar de parecer uma única queda com versões diferentes, podemos considerar três quedas, considerando até mesmo que essa queda pode se repetir ad infinitum.

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II - A Queda e a (Re)construção da Linguagem

Houve a queda de um bêbado, pedreiro porque este constrói, edifica como os pedreiros da Torre de Babel tentando tomar ou retornar aos Céus, à Origem, mas foram interrompidos pelo castigo da Multiplicação das Línguas. Multiplicação esta, que pode ser vista como (ci)virilização; ascensão do masculino através do símbolo fálico da Torre, ou (ci)viralização; contaminação, desvirtualização, da Língua Original e da própria raça humana. Tratamos aqui então da Queda de Lúcifer, da Humanidade e do próprio Universo, ou seja, planetas, constelações, galáxias, enfim, tudo foi corrompido pelo Verbo do Demiurgo.

O Projeto do Grande Arquiteto do Universo é bem mais complexo que a mera razão humana pode alcançar. No sexto verso de Construção, Chico Buarque escreveu:

“Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico”

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As quatro paredes são as quatro fases da História Humana, as Quatro Idades, os Quatro Yugas, que o Pedreiro Arquetípico, o pedreiro maçônico, imitando o Grande Arquiteto do Universo, ergueu e continua erguendo à medida que suas estruturas vão sendo carcomidas pelo tempo e pelo egoísmo do próprio Homem. A quarta parede (fase histórica, idade ou yuga) é representada pelo arcano do Tarô chamado de “Torre” ou “Casa de Deus”, e pelo mito da Torre de Babel.

O tijolo “num desenho mágico” é a ilusão material do mundo, sua fugacidade diante da morte, do fim de tudo que existe. São com tijolos mágicos (ilusórios) que construímos e reconstruímos a nossa história. Ilusórios porque a própria materialidade não é tão material assim. Do que é feito o átomo senão de movimento em torno do vazio?

Nossos sentidos é que fazem da nossa percepção da realidade algo ilusório. Somos prisioneiros de nossa própria mente. Eis a Matrix derradeira.

O estado de embriagues, em um nível mais sutil, equivale a um entorpecimento dos sentidos para aliviar a dor da Culpa; aquele sentimento “antigo” e inconsciente, que se revela na crise existencial e, que nada mais é do que uma crise espiritual, mitológica, originada da Queda do Homem para um Mundo de corrupção material que aprisiona a humanidade em um ciclo de morte e renascimento. Em uma Roda de Ilusão e Sofrimento; é o chamado Samsara em várias tradições filosóficas da Índia.

Este mesmo estado de embriagues equivale em um nível mais denso, à dormência atual do ser humano, devido principalmente à automatização da vida. Já não se trata mais de um ser conectado à própria existência em seu sentido mais amplo, mas apenas de uma peça no intrincado mecanismo do sistema que se acelerou com o advento da industrialização e que hoje, segue como um fluxo líquido. Liquidez segundo Zygmunt Bauman, através das redes virtuais de comunicação e do comércio do absurdo.

Crescemos em tecnologias, avançamos nas Ciências, porém, à medida que nos afundamos em nosso próprio egoísmo nos afastamos mais e mais dos valores universais/humanos/espirituais. As formas de comunicação evoluíram, porém tornaram-se superficiais porque nos tornamos mais superficiais na mesma proporção. O pedreiro de Chico Buarque é o mesmo pedreiro Tim Finnegan joyceano. São todos os homens vivendo cada ciclo, cada fase, cada idade humana erguendo e reerguendo cada Parede Histórica. E pelas suas próprias mãos não fica e não ficará pedra sobre pedra.

“Seus olhos embotados de cimento e lágrima/ Sentou pra descansar como se fosse sábado/ Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”

Nestes versos Chico revela o sofrimento e o cansaço do Pedreiro, que também foi príncipe (rei, vassalo, poeta...). Ele também: “Dançou e gargalhou como se ouvisse música”, como o pedreiro Tim Finnegan, que ressuscitou em seu velório e começou a dançar e cantar junto com os convivas; ainda que na letra de Chico Buarque a história do Pedreiro não vá além da Queda.

Em um mundo de ilusão nos é dado o direito de dançar e gargalhar. E se somos enganados pelos nossos sentidos, mesmo não havendo música, é como se houvesse.

A História reaparece na segunda e terceira estrofe como versões inseridas cada vez mais na Embriagues da Vida. O Pedreiro continuou erguendo as quatro paredes, não importando se eram sólidas (industriais, cartesianas), mágicas (utópicas ou ilusórias) ou flácidas (frouxas ou líquidas). Ele continuou se embriagando para aliviar a Culpa da própria Queda ou para se misturar junto às massas de manobra do Sistema; o que Joyce chamou de “agenbite of inwit” (remordimérito da consciência). É a mesma culpa de Adão, é a mesma culpa de toda a humanidade; Culpa ainda não transformada em Responsabilidade. É o mesmo Remordimento de Consciência.

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III – Do Falatório Á Castração da Liberdade

Em Construção, Chico Buarque usa a terceira pessoa. Então temos os três primeiros narradores da história. Cada narrador tem a sua própria versão que, toda vez que é transmitida para outros ouvintes, é remodelada, reinventada de forma cada vez mais inexata, também ad infinitum. Tudo viraliza.

Os três primeiros narradores conhecem o Pedreiro e sabem que:

“Amou daquela vez como se fosse a última (último/máquina)/ Beijou sua mulher como se fosse a última (única/lógico)/ E cada filho seu como se fosse o único/pródigo”

O terceiro narrador não fala dos filhos. No entanto todos sabem da vida do Pedreiro. Não há privacidade. A invasão de privacidade começa pela linguagem, pelo falatório. Hoje também nos impuseram as “Câmeras de Segurança” e logo será a vez do chip de rastreamento e do Olho que Tudo Vê. Tudo pela segurança da sociedade; a Segurança levada ao extremo torna-se Castração.

Tanto em Finnegans Wake como em Construção há o comentário, a mensagem transmitida, depois a fofoca que termina em maledicência, depois o julgamento e a condenação pela culpa da Queda, da Morte, e por atrapalhar (atravancar), desmoralizar a Obra; o que está sendo ou já foi edificado.

O Tráfego; fluxo da Vida, o Público; tudo que já foi criado, e o Sábado; último dia da Criação, a finalização de todas as metas, de todos os objetivos humanos.

“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego/o público/o sábado”.

Em Finnegans Wake o Pedreiro Tim morre e renasce como HCE, o Taverneiro, seu novo avatar (corpo material, nova experiência de reencarnação). E a Culpa está por toda parte e dentro do personagem que representa o homem comum, o indivíduo e também o Homem Arquetípico; o Coletivo. E revela que todos nós temos posse e ciúmes dessa Culpa; é o nosso bichinho de estimação que vive dentro de nós, em um interminável “remordimento”.

O falatório em Finnegans Wake tem início em Phoênix Park (Parque da Fênix) que representa o Éden intocável. O motivo do falatório é porque três soldados bêbados (os três narradores de a Construção de Chico) testemunharam uma cena indecorosa envolvendo o Taverneiro HCE, que é também um homem público, de família. Mas os próprios soldados não sabem ao certo o que viram; se foi o Taverneiro espiando duas garotas no Parque da Fênix, se despindo diante delas, ou se houve uma relação incestuosa; uma vez que alguém disse que uma das garotas era a própria filha do Taverneiro, a outra, a esposa. Já não importa, pois a essa altura, a notícia propagada pelos três soldados bêbados (narradores), já se viralizou e tomou conta do mundo. Notícia sempre imprecisa e em constante mutação. Daí a nossa Imprensa; golpista, fascista, terrorista.

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Tanto os Três Narradores de Chico Buarque como os Três Soldados Bêbados, podem ser representados pelos Três “W”, ou seja, WWW; World Wide Web. A Grande Teia que nos liberta e nos aprisiona. No centro da trama está a Grande Aranha. Mas quem é a Grande Aranha que tece essa teia? A linguagem em seu estádio mais líquido é apenas uma de suas faces.

Então o que faz o Mundo ser o que é, estar como está é a Corrupção da Linguagem através da maledicência, da tagarelice e da sua multiplicidade. A Culpa, o Desespero e a ambição materialista pelo poder geraram essa Corrupção. Isso aconteceu porque a Linguagem oral/escrita se multiplicou. A diversidade das línguas é o resultado da Doença da Queda, Doença do Homem Moderno também representada pelo Décimo Sexto Arcano do Tarô, que dividiu a humanidade, nos separando primeiro da nossa Origem, depois de nós mesmos.

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IV - Felix Culpa

Joyce foi um destruidor (reconstrutor) da Linguagem através da moderna literatura, tendo em vida uma luta hercúlea, talvez na tentativa de fundir todas as línguas em uma única.Consta que em Finnegans Wake há, segundo os estudiosos da obra, 75 línguas diferentes, além das (re)criações do Joyce pedreiro-poeta. É de conhecimento que Chico Buarque sempre buscou por um rigoroso processo poético na criação de suas letras-poemas. A eterna busca pela perfeição expressada em linguagem escrita.

Chico Buarque, ateu duvidoso, que nos últimos anos tem se tornado alvo de severas críticas, agora também vítima do falatório, pela sua posição política de apoio ao PT, é só mais uma prova de que, em sua grande maioria, o povo brasileiro não sabe separar, ainda que essas duas faces estejam entranhadas, o homem-artista do homem-político; não podendo dessa forma ter seu direito de escolha política. E a isso, pasmem, chamam “Democracia”. Agora, se Chico Buarque é ou já foi leitor de James Joyce isso é certo. Não sei dizer se ele chegou a ler Finnegans Wake. Talvez, Ulisses. Mas no álbum Paratodos (1993) há uma pista de leitura e influência na música A Foto da Capa, cujo primeiro verso é referência ao O Retrato do Artista Quando Jovem, primeiro romance do irlandês.

Enfim, nos debatemos em nossa luta vã com a palavra, que os ingênuos, senão tolos, chamam de “brincar com as palavras”, sem levar em conta que é a Palavra que brinca conosco, como um gato que brinca com um camundongo ou um inseto antes de devorá-lo. E hoje, a multiplicação das línguas, sua decadência, é somente mais um dos sintomas do vírus da linguagem que se apossou do virtual.

E o que nos resta além da tagarelice, do falatório que se resume em uma época de egoísmo? Morremos e renascemos pela boca. Pela palavra que mata, confunde, divide, acalenta, conforta, maldizendo o outro e a própria vida. Como já alertou o poeta Arthur Rimbaud em sua obra Temporada no Inferno “Escravos, não amaldiçoemos a vida”. Isso, para que a maldição de nossa boca e pelo veneno de nossa língua, não venha a se replicar infinitamente.

Mas no final das contas, se aprendermos com os nossos erros, a nossa Queda nos torna superiores aos anjos, cheios de experiências únicas. Seremos deuses enfim. Diante disso, sem culpa, podemos viver a nossa Felix Culpa.

Construir e Reconstruir, ainda que bêbados, tropeçando na própria palavra, para seguir o fluxo do Rio da Vida, para viver em um mundo de ilusão sem se apegar as ilusões do mundo. Quem está morto (dormindo) ainda não aprendeu a nadar e continuará sempre se afundando, se afogando nas águas ilusórias criadas pelo Verbo Decaído. Os Despertos terão a chance de nadar, sem o perigo de se afogar nesse rio misterioso. Esse Rio (Re)corrente.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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