a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

Morrer sozinho abraçado a Um Sapato

Como medir a saúde mental de uma sociedade? De que lado do muro estamos? Da normalidade ao terrorismo o limiar é apenas um paradigma.


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“És um daqueles que vive no manicômio, mas, do outro lado do muro?” – Khalil Gibran

“…o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis.” (…) “Porque não é o homem, mas o mundo que se tornou um anormal.” – Antonin Artaud

I – A Nudez do Rei

Na Idade Média qualquer pessoa que tinha alguma “deficiência mental” era considerada “castigada por Deus” e por isso vivia “possuída pelo demônio”. Em alguns casos eram abrigados pela igreja, ou acabavam internados em conventos. Entre os mais afortunados, havia aqueles com Síndrome de Down (alteração genética causada pela presença de um cromossomo a mais), geralmente se tornavam “Bobos da Corte”; vale lembrar que o Bobo da Corte, o Bufão, era o único capaz de ver e mostrar ao mundo a nudez do Rei.

Aproveitando-se da pecha de “louco”, o “bobo” poderia falar abertamente contra o rei tornando-se assim um perigo em potencial para a realeza, mas sem correr o risco de perder a cabeça na guilhotina, além de apontar os vícios de toda a sociedade. Seu papel era entreter e divertir a realeza. Para isso se utilizava da música, da dança, da mímica e das imitações, do chiste, da poesia e das histórias “sem sentido”, mas que guardavam uma Sabedoria Oculta. É o Curinga do Baralho escondendo cartas no caroço da manga.

É a figura esotérica do Louco que caminha pelo Mundo desapegado das ilusões do Mundo. Podemos compará-lo, como uma versão ocidentalizada, ao Poeta Zen.

Mas foi principalmente no início da Idade Moderna que o tratamento às pessoas com problemas mentais se radicalizou e se desumanizou ainda mais. Não bastava ser condenado como possesso, precisava ser surrado brutalmente, ser torturado das formas mais cruéis, privado de comer e dormir. O indivíduo ficava isolado, preso com os demais “doentes sociais”; mendigos, inválidos, criminosos e libertinos, em celas e hospitais precários.

Se nas mãos da Igreja o indivíduo era o “Possesso”, o “Fruto do Pecado” castigado por Deus, nas mãos da Ciência ele se tornou a Anomalia Social por excelência.

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II – Bicho de 77 Cabeças

Foi no Século XVIII com Phillippe Pinel, para muitos o pai da Psiquiatria, que houve o processo de libertação dos internos das prisões dos asilos para os manicômios; lugares destinados somente aos doentes mentais. Já no Século XIX, passou a se buscar a “Cura”, ou seja, a “Normatização” do Louco para integrá-lo à sociedade. As medidas para trazer o “Louco” para a “normalidade” eram: chicotadas, choques elétricos, banhos frios entre outros.

Para a Jornalista Marcela Melo “todos estes transtornos considerados como mentais, emocionais ou de dependência química, surgem na pessoa por algum ponto fatal em sua vida e que podem na maior parte das vezes serem recuperados, mas com sabedoria, carinho, amor e muita misericórdia e perdão, mas tudo isso é o que jamais estas pessoas encontrarão numa clínica de “repouso” ou numa clínica psiquiátrica”. A triste realidade é que; uma vez que a pessoa é internada nesses manicômios é quase impossível a sua saída do local. E ao sair torna-se muito complicada a sua reabilitação e reinserção na sociedade, isso porque ela geralmente sai pior do que entrou.

Em se tratando de clínicas públicas o problema se agrava; uma vez que os responsáveis dependem da quantia que o Governo paga, por cada indivíduo, para assim terem seu lucro e cumprirem uma rotina de domínio e manipulação sobre os internos.

Para Michel Foucault “a doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal”.

Utilizando-se do Mito de Édipo, Freud nos trouxe à baila a problemática sexual desencadeada na infância. A metáfora edipiana se tornou tão comum que hoje parece ser uma norma; você é considerado “normal” se você passa pelo Complexo de Édipo (ou de Electra, para as meninas). Caso contrário, se você é um Anti-Édipo (ou Anti-Electra) então você cai na anormalidade.

O poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud escreveu: “Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião”.

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Van Gogh pode ser considerado como o símbolo do “Suicidado pela Sociedade” (termo cunhado por Artaud), há outros “Suicidados” ilustres como Oscar Wilde, preso por ser homossexual; ainda hoje a homossexualidade é considerada, para muitos, doença, distúrbio. Wilde também deu tesouros preciosos à humanidade e dele foi tirado tudo. O próprio Antonin Artaud se tornou o parafuso solto da Civilização Moderna.

Sabemos que há aqueles indivíduos que se tornam violentos e incapazes de conviver em segurança (para ele e para o seu meio) e são separados do convívio social. Mas esses não me preocupam. Eles não são a metástase da sociedade.

Os realmente perigosos são os Sociopatas, não necessariamente aqueles conhecidos pelo comportamento anti-social, mas os Ultrassociáveis; aqueles indivíduos que convivem em sociedade e desfrutam dos seus direitos e, muitos deles, têm a vantagem do sucesso social devido ao prestígio de certas posições de poder, ou ao status adquiridos através do dinheiro ou de outros meios. E esse grupo se aproxima do grupo dos Psicopatas.

No entanto, o próprio Psicopata tem sofrido uma transmutação; além da predisposição aos crimes premeditados e aos cálculos exatos em cada passo do seu intento. Agora o Psicopata está praticando a simulação política como exercício à cidadania diante de causas sociais, o improviso e, para os mais requintados, a facilidade de lidar com o imprevisível.

A mutação é congênita tanto para um quanto para outro. Ambas as espécies são encontradas nas redes sociais, além do convívio físico, e se homogeneizam com os ideais “politicamente corretos” erguendo bandeiras, defendendo causas e julgando aqueles que vão contra a sua lógica.

Sociopatia, psicopatia, esquizofrenia, neurose e estupidez se emaranham no dia a dia das “pessoas comuns”, seja nas brigas de trânsito, na competição acirrada, levada às últimas conseqüências, nas filas das lojas em dias de Black Friday, na discussão embasada pelo ódio e pela hipocrisia ao se lutar pelos seus “direitos”, nos protestos em praça pública, na alienação de suas escolhas duvidosas, no pastar conformado junto ao rebanho, na pornografização alimentada pelas mídias, nas crianças chapadas de Ritalina e outras drogas pró-normalidade, nos atentados terroristas, na masturbação verbal dos discursos políticos e nas campanhas eleitorais do permissível.

Não se trata apenas do Red Tape. Burocracia é apenas uma maneira de oficializar e esconder o terrorismo por trás dos bastidores dos Governos. Muitos Governos criam problemas para terem o apelo popular para que assim certas medidas políticas, antes recusadas, possam ser aceitas democraticamente. Isso faz parte de sistemas de manipulação de massas, o que a Engenharia Social pode explicar e provar. Já foi dito que muito do que acontece em nosso Mundo não é nem Teoria nem Conspiração, é algo bem pior.

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III – Quando o Terrorismo é Normalidade

Sabemos que a atual política é o Cancro Duro da Civilização. Não há interesse, não há estruturas, objetivas ou subjetivas, nem propostas, ou seja, ainda não temos uma política capaz de tratar de questões dessa envergadura. O “Politicamente Correto” em si já é uma Psicopatia. Seguindo certa linha de pensamento podemos considerar a Ignorância como um estado mental desequilibrado que pode ser tratado mediante a instrução, ao conhecimento.

Nenhum ato terrorista é considerado um comportamento próprio de doentes mentais. A Civilização nasceu de atos terroristas e extremos, tais paradigmas fazem parte do nosso perfil Histórico, gravado na memória de nossas células, e que herdamos através do DNA ancestral. Há o peso do Inconsciente Coletivo, não explorado devidamente por uma sociedade que ainda busca apenas respostas cartesianas.

Penso que a sociedade precisa redefinir seus paradigmas em relação à saúde mental. Nós ocidentais, infelizmente, temos uma mente muito cartesiana, separamos tudo, diferente da mentalidade oriental, onde o corpo, a mente e o espírito estão interligados e um depende do outro para uma vida mais equilibrada e harmoniosa. Então primeiro precisamos entender o problema tanto do lado fisiológico e psíquico; dos processos químico-mentais, quanto das questões que envolvem traumas existenciais. Difícil observar caso a caso porque, dito antes, não temos infra-estrutura para realizar isso. Pior, estamos presos aos antigos paradigmas e carregamos o pesado fardo do preconceito.

Ainda assim, há tratamentos alternativos que vão desde; Filosofia, Psicologia, Terapias Holísticas além dos tratamentos mais tradicionais, quando não ocorrem os abusos. Essas pessoas possuem ou deveriam possuir os mesmos direitos que qualquer outra; validados pela Constituição e pelos Direitos Humanos. Quem está isento de transtornos mentais e emocionais?

Se considerarmos uma “Política da Normalidade” então devemos em contrapartida levar em conta a Insanidade como Virtude. Há uma técnica para se combater incêndios não usando água, mas fogo. Combate-se o fogo com fogo. Buscar uma “normalidade” em um Mundo plural como o nosso é dar um tiro no próprio pé. A normalidade é a psicopatia. A normalidade é a mão que acusa, que aperta o gatilho. O que fazer então?

Livrarmos dos nossos antigos paradigmas é anular a nossa herança nociva enraizada na sociedade. Quando olharmos para a vida como um elemento sagrado, como uma experiência cósmica, estaremos mais próximos de resolver essas questões que criam divisões, separatismo entre as pessoas. Talvez o único estilo de vida, que pode carregar os valores da própria vida, esteja interligado com nossa Liberdade, nossa Tolerância e nossa Igualdade perante o outro, que nada mais é que nosso reflexo, ainda que em outro espelho.

Necessitamos de ações proativas, benéficas. Há aquelas pessoas que se comunicam com o Mundo através das artes; em geral as artes plásticas, visuais, mas também através da escrita e outras formas de expressão que deveriam ser exploradas e trabalhadas em prol de todos.

Podemos e devemos avaliar o estado mental de maneira mais holística, mais humana, em contraposição ao cartesianismo. E isso tem a ver sim, seja com vidas passadas, seja com “dons” espirituais, artísticos, enfim, essa abordagem precisa ser considerada mais seriamente por todos se quisermos ao menos ter uma noção mais lúcida de como resolver tais problemas. E isso abrange tudo, inclusive a homossexualidade. O mundo precisa aprender a ver o Ser Humano como algo mais integral, complexo e maravilhoso, porque é fruto da própria Vida, e como disse o poeta William Blake; Tudo o que vive é Sagrado.

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IV – Do outro lado do Muro

A humanidade continuará, por mais um tempo, com o seu caminhar incansável na busca da normalidade, e não mais como o Louco transmitindo sua Sabedoria oculta nas frases, poemas ou histórias “sem sentido”, mas como ratos de laboratório da Indústria Farmacêutica, como cobaias militarizadas do sistema de descarte, como subservientes do esquema “Problema-Reação-Solução”, em que o governo cria as próprias dificuldades sociais para depois vender facilidades na resolução desses problemas.

Enquanto o Louco continuará sendo “suicidado” pela sociedade, seja como anônimo sendo rechaçado pela família e pela religião por ser considerado um bicho de Sete Cabeças, seja se automutilando ao cortar a própria orelha (Van Gogh), seja conversando com o papel de parede descascado do quarto de um velho hotel (Wilde), ou morrendo sozinho em um hospício, aos pés da cama e abraçado a um sapato.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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