a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

Música Para Ouvir – Porque Gosto se Discute

O gosto musical é também uma questão biológica? Que tipo de música as massas estão consumindo hoje e quais suas consequências? Ouvimos boa música? O que é boa música afinal?


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“Porque ainda é de noite no dia claro desta noite” – Raul Seixas

Minha Vida Meus Mortos

Por trás de um sistema político que se pretende democrático, há o Terrorismo do Permissível, em que o senso crítico é nublado pela ideia de que permitindo tudo, aceitando tudo sem reflexão, se faz democracia. Sim, a Arte se expressa através de muitas formas culturais, porém, hoje nos acostumamos ao erro grotesco, uma tendência que se tornou vício, de se considerar Arte toda expressão cultural. Sim, isso é um erro. Nem toda expressão cultural tem valor artístico.

Vou usar neste artigo a música como exemplo de expressão artística. Então vale a pergunta:

O que a Indústria Fonográfica, com total apoio da Indústria da Mídia, tem oferecido hoje á sociedade e vendido como arte ou entretenimento?

Vamos voltar um pouco no tempo.

Em se tratando de música, podemos dizer que o Brasil ao menos teve um passado glorioso, partindo da década de 60 com os grandes festivais de música, como por exemplo, o Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela Tv Record. Tivemos também o programa Jovem Guarda, liderado por Roberto e Erasmo Carlos. E pela Tv Tupi, o programa Hora da Bossa. Foi uma década fecunda em que vários ritmos e sons se encontravam. Nomes como Chico Buarque, Elis Regina, Jorge Ben, Simonal, Caetano e Gil. Havia a bossa, o samba, o rock, os experimentalismos com Tom Zé, Os Mutantes. Havia músicas com engajamento político, crônicas do cotidiano, questões existencialistas e temas universais.

Na década de 70, tivemos álbuns grandiosos; o primeiro do grupo Secos e Molhados, Gita do Raul Seixas, A Tábua de Esmeralda de Jorge Ben e tantos outros. E na década de 80 o rock se firmou no Brasil com bandas jovens; Legião Urbana, Titãs, Ira, Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii. Tivemos os poetas do rock; Renato Russo, Cazuza. E ótimos letristas. Por que? Porque eram pessoas lidas, que buscavam instruir-se, não aceitando qualquer modismo irrefletidamente; Havia uma forte influência da literatura em geral, da poesia inclusive. Eram pessoas antenadas, interessadas com os acontecimentos do país e do mundo em uma época sem internet. Havia senso crítico, percepção. E sim, havia rebeldia. E era o tipo de música que o brasileiro ouvia.

E o que temos hoje? A cultura da balada e do chifre e uma repetição enfadonha de clichês. O que se ouve hoje é o reflexo de um hedonismo exacerbado, um culto à ostentação gratuita, apologias ao crime, além é claro, da pornografização gratuita, já quase institucionalizada. É o entretenimento acima de tudo. Esse é o tipo de música que as massas estão consumindo hoje.

E se hoje temos a internet e todo acesso a informação nem por isso nos tornamos mais inteligentes, engajados politicamente (mais iludidos que esclarecidos, isso sim), ou com melhor percepção crítica dos problemas atuais. Pior, caímos no besteirol e na tagarelice das redes sociais como um inseto preso em uma teia de aranha.

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Os Alquimistas Estão Chegando

Em 1973 o grupo Secos & Molhados, liderado por João Ricardo e Ney Matogrosso no vocal, lança o seu primeiro álbum com o mesmo título. Misturando danças e canções folclóricas portuguesas, a poesia de Vinícius de Morais, Fernando Pessoa entre outros poetas. O álbum alcança mais de 700 mil cópias vendidas, tornando-se um dos maiores fenômenos musicais da época no Brasil, além de ser muito aclamado pela crítica. Secos & Molhados foi da bossa nova à efervescente tropicália e depois ao rock. Nos dois primeiros álbuns da banda encontramos novos elementos somados a MPB que vai da poesia ao glam rock, do folk ao rock progressivo.

Faixas como Sangue Latino, Rosa de Hiroshima, O Patrão Nosso de Cada Dia e Amor já mostram a qualidade das letras e da estrutura musical sofisticada para a época. Abaixo segue um trecho de Sangue Latino:

Rompi tratados Traí os ritos Quebrei a lança Lancei no espaço Um grito, um desabafo E o que me importa É não estar vencido Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos Meu sangue latino Minh’alma cativa

No ano de 1974, Jorge Bem lança o seu 11° álbum, a famosa A Tábua de Esmeralda, evocando a obra hermética de Hermes Trismegisto, pai da alquimia. Esse álbum foi considerado pela Rolling Stones como o 6° melhor álbum brasileiro de todos os tempos e que, segundo o crítico e escritor André Barcinski, no livro Pavões Misteriosos, diz “…uma ópera mística, espiritual e cósmica”.

Os Alquimistas Estão Chegando é talvez o maior sucesso do álbum. A faixa O Homem da Gravata Florida é uma alusão ao alquimista e precursor da medicina holística Paracelso (1493-1541). O Namorado da Viúva faz alusão a outro alquimista, Nicolas Flamel (1330-1418). Na faixa Errare Humanum est há o trecho, muito em voga nos dias atuais, que diz:

Vieram os deuses de outras galáxias-xias-xias Ou de um planeta de possibilidades impossíveis E de pensar que não somos os primeiros seres terrestres Pois nós herdamos uma herança cósmica

É outro exemplo de que não apenas as letras, mas a estrutura musical rica em ritmos; encontramos samba, rock, jazz e funk (o verdadeiro, não o que se toca hoje em dia aqui no Brasil e se da o nome de funk).

Também em 1974 é lançado outro clássico, Gita, terceiro álbum de Raul Seixas, em parceria com Paulo Coelho em algumas composições, e seu maior sucesso de vendas. A faixa Gita é inspirada no Bhagavad Gita; livro sagrado hindu. Já Sociedade Alternativa é inspirada na obra do mago Aleister Crowley. E ainda temos O Trem das Sete com sua lírica messiânica entre outros sucessos. A ideia de uma Sociedade Alternativa à luz do Século XXI, em plena Era de Aquário, traz um novo alento, uma nova perspectiva, diante das grandes mudanças globais em todos os setores. O tema permanece atual. É sem dúvida um álbum inspirado em que Raul, mais amadurecido, se fortalece no cenário musical. Em Gita podemos vislumbrar a força das letras deste álbum.

Você me tem todo dia Mas não sabe se é bom ou ruim Mas saiba que eu estou em você Mas você não está em mim (…) mas eu sou o amargo da língua A mãe, o pai e o avô O filho que ainda não veio O início, o fim e o meio

O que álbuns tão díspares como estes tem em comum? São álbuns fundamentais na história da musica brasileira, com mensagens profundas, sem exagero, nos trazendo à reflexão. Notem a influência direta dos clássicos da Literatura nas letras. E era o tipo de música que o “povo” ouvia e gostava. Dos três, o maior exemplo de popularidade é Raul Seixas. Infelizmente este breve artigo me limita e muito, mas poderia citar inúmeros álbuns da mesma década, todos com excelente conteúdo musical e textual. Da mesma forma a década de 80, época em que o rock se firmou aqui no Brasil, e que surgiram bandas excelentes em um período de transição política no país. Mesmo outros seguimentos musicais, dava para se ouvir e ver sinais de inteligência; nem tudo era tão enlatado, plastificado, idiotizado.

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Bad Vibrations

Não, isso não é nostalgia. Menos ainda uma apologia à moral tacanha pregada pelas religiões ou pela política (mente) “correta”. É apenas a constatação de um fato. Claro que nas décadas anteriores havia muita “coisa” de má qualidade, mas havia muita música boa. Há boa música hoje? Sim, claro, elas só não tem espaço na grande mídia e não são favorecidas pela Indústria Fonográfica, independente das tecnologias atuais e das novas mídias que favorecem o acesso. Na realidade os processos se tornaram mais fragmentados com a internet; não se produzem mais álbuns como antigamente, há tempos o cd está ultrapassado. Hoje temos outras tecnologias.

Mas independente das tecnologias atuais, o problema é que as pessoas, em geral, estão perdendo o hábito de ouvir música com conteúdo textual de qualidade, ao menos relevante.

O Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, usava a seguinte fórmula: “Uma Mentira contada mil vezes, se torna uma verdade”. A fórmula é similar à repetição exaustiva dessas músicas pelos meios de comunicação e vendidas como entretenimento e, muitas vezes, vendidas como expressão artística. Ou seja, somos doutrinados a ouvir o que a mídia e a Indústria Fonográfica nos impõem. É uma doutrinação à estupidez. Uma catequização, pela música de má qualidade, para a imbecilização coletiva que nos mantém adormecidos àquilo que realmente importa e que está à nossa volta, nos condenando a uma vida automática, sem reflexão crítica e discernimento para enxergar os interesses ocultos, egoístas, por detrás da fachada teatralizada pelo governo através das mídias de comunicação.

No filme Os Piratas do Rock (2009) há uma fala do “capitão” Quentin (interpretado por Bill Nighy) que diz “Governos odeiam pessoas que são livres

Baseado nas idéias de Noam Chomsky, linguista, filósofo, cientista cognitivo e ativista norte americano, o francês Sylvain Timsit elaborou um lista com estratégias usadas para manipular as massas através dos meios de comunicação. Creio que não há outra motivação no caso da mudança de freqüência de 432 Hz para 440 Hz. Esse decreto, criado em 1939 para mudar o padrão vibratório das gravações musicais consta que foi idealizado por Joseph Goebbels. Desestabilizar e controlar; são estas as motivações da pequena elite que detém o poder. Uma dessas estratégias é a da Distração; tirar o foco das massas dos problemas reais. Tal estratégia também é indispensável para impedir que a população se interesse por conhecimentos essenciais. Em resumo é manter a população ocupada o maior tempo possível. Sem tempo para pensar, refletir. Outra estratégia é manter a população na ignorância e na mediocridade. Outro ponto é fazer com que a população seja complacente com a mediocridade, isso faz com que a população seja levada a ter uma vida superficial, sem questionamentos, sem novas idéias.

Uma sociedade onde as pessoas vivem na ignorância, sem o mínimo de senso crítico, é uma sociedade ideal para ser controlada, manipulada segundo o desejo dos seus governantes. Penso que é fundamental, como parte da grade escolar, o Estudo da Música, da Filosofia, da Mitologia (no lugar de uma suposta disciplina da religião), além de um sistema avançado para se ensinar Literatura; integrar essas disciplinas pode ajudar no desenvolvimento intelectual, emocional e espiritual.

A pasteurização da música é global, mas em países em que a educação é nivelada por baixo esse fenômeno acontece de forma mais fácil, a pasteurização se torna mais palatável, isso porque o indivíduo vive uma vida automática; se já não estamos mortos, estamos dormindo em um sono profundo. Onde não há Consciência não há vida.

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Música+Biologia+Gosto

A Biomusicologia, termo usado pela primeira vez em 1991 por Nils L. Walin é uma Disciplina nova que estuda os efeitos biológicos e evolutivos da música. Um dos pilares dessa disciplina é o conceito de que existe uma base biológica para a criação e apreciação da música; ou seja, somos programados biologicamente para gostar e criar determinados padrões sonoros.

A música é uma linguagem poderosa encontrada em todas as épocas e culturas. Outro ponto interessante é que a música não é algo restrito ao ser humano, já existia muito antes de surgir o Homem; há 60 milhões de anos com o surgimento das primeiras baleias já havia música. O canto das baleias é algo impressionante. Há estudos em que provam que o canto das baleias é muito mais complexo, havendo inclusive estrofes, rimas e refrão, produzindo assim ritmo e harmonia.

Então, até que ponto o “gosto musical” é escolha nossa? Claro que há outras influências, socioculturais, por exemplo, que nos molda musicalmente. Penso que, quanto maior é o conhecimento e esclarecimento daquilo que se ouve, maior é a chance de nos refinarmos musicalmente; refinar o nosso gosto musical é educar os nossos “ouvidos”. Já falava o filósofo Sri Ram que a evolução é a depuração do gosto.

O maior prejuízo é a falta de boas referências, e isso levará a fenômenos sociais extremamente negativos. Por que muitas crianças e jovens de hoje tem como modelo, traficantes e outros criminosos? A necessidade doentia do consumo e a cultura da ostentação levam esses jovens a fazerem qualquer coisa para, por exemplo, ter um celular de última geração, que um mês depois se tornará obsoleto. A primeira e mais importante referência para uma criança, para um adolescente, é a figura dos pais. Como é que um pai ou uma mãe fumante poderá educar seus filhos a não fumarem? Como um pai ou uma mãe que ouve música de péssima qualidade (de baixa vibração) vai educar seus filhos a ouvirem música de boa qualidade? Da mesma forma, pais que não tem o hábito da leitura não vão estimular seus filhos a serem bons leitores. O exemplo não é a melhor maneira, é a única.

A Indústria da Música e a Indústria da Mídia moldam o gosto das massas. Não há incentivos para a música de boa qualidade. Aliados a isso há a falta de interesse da população em se auto-educar; as pessoas simplesmente aceitam o que lhes é oferecido, sem passar por nenhum tipo de critério. Isso sem contar o total desinteresse de grande parte da população em fazer da leitura um hábito.

Uma boa música educa, instrui, faz o indivíduo pensar, liberta. É como ler um bom livro ou mesmo assistir a um bom filme que possa trazer novas perspectivas, um novo olhar para uma nova interpretação do ser humano e do mundo em que vivemos. Em uma sociedade em que a música é de má qualidade, em que não há estímulo à leitura, em que a Arte é reduzida ao simples entretenimento, em geral de mau gosto, a educação se deteriora, os valores se tornam decadentes, e o ego passa a ser ultravalorizado; em conseqüência disso, a sociedade se torna passiva de ser manipulada e agressiva para defender seus interesses pessoais sem levar em conta os direitos do outro. Veja o que aconteceu no Estado do Espírito Santo no início do mês de Fevereiro desse ano. O mais impactante não foi assistir a criminosos roubando a viatura da polícia, mas foi ver pessoas comuns, cometendo saques nas lojas. E isso poderia ter acontecido em qualquer parte do país. Somos um povo mal educado.

A população também ajuda a patrocinar a disseminação desse tipo de música, dando Ibope aos programas de TV e outras mídias que ajudam a moldar o gosto musical, bem como todo o perfil da sociedade. Como marionetes, nós não conseguimos ver os fios que nos movimentam, segundo a Vontade dos que governam a nossa vontade, nos fazendo acreditar que somos livres e podemos escolher.

E dançamos como marionetes presas por fios invisíveis.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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