a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

O Que Você Aprendeu Com as Pequenas Coisas da Vida, Charlie Brown?

O que podemos encontrar em Peanuts, obra de Charles Schulz? Charlie Brown e sua turma vai além da infância, nos colocando diante de questões existenciais e nos fazendo refletir sobre o nosso papel e nossa interação com um mundo onde o mais raro é encontrar gente adulta.


happiness_warm_blanket_background1.jpg (Uma breve introdução ao mundo de Peanuts)

A vida tem dias de sol e de chuva, Senhor…dias e noites…picos e vales…

– Marcie

Fracassos Não Existem Charlie Brown

O cartunista Charles M. Schulz presenteou o mundo com as lições de vida, singelas e bem humoradas, segundo Peanuts, a Turma do Charlie Brown, nos dando a sua visão sobre a condição humana através dos seus personagens. Enganam-se aqueles que acreditam que se trate apenas de quadrinhos ou de desenho animado; as primeiras histórias em tirinhas surgiram entre 1947 a 1950. Foi na década de 80 que a versão em desenho animado ganhou maior destaque aqui no Brasil. A primeira versão animada saiu nos Estados Unidos em 1965. Charlie Brown e sua Turma mostram o quão complexo é cada indivíduo e suas interações sociais no cotidiano, desde a infância. Peanuts continua atual em pleno século XXI, tocando nossos corações e nos levando à reflexão.

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Charlie Brown é um apaixonado, seja pelo baseball, pelo seu cão Snoopy ou pela garotinha ruiva. Na realidade há várias garotinhas ruivas, todas inacessíveis, com exceção de Peggy Jean, que se tornou sua namorada. Além das ruivas, há outras garotas na vida de Charlie; Patty Pimentinha é apaixonada por ele, embora não admita. Sua amiga Marcie, também é apaixonada pelo “Minduim”, mas uma paixão sem apego ou ciúmes. Há episódios em que ela mesma ajuda Patty a se aproximar do Charlie, em outro episódio as duas tinham um encontro com ele em um baile do dia dos namorados. Há um triangulo amoroso que se desenvolve de forma sutil.

Ao contrário do que se acredita, Charlie Brown não é apenas um menino tímido, azarado, melancólico e sonhador. Ele é dotado uma fé implacável e uma coragem capaz de enfrentar todas as adversidades da vida. Não é a figura de um fracassado, longe disso. Ele pode ser o pior jogador de baseball ou de futebol americano, pode não conseguir empinar uma pipa como os outros meninos e mesmo ser chamado de tapado, além de ser desastrado nos momentos decisivos de sua vida; pode, por exemplo, estar liderando uma corrida e, de olhos fechados, tomado por um excesso de autoconfiança, acaba saindo da pista e do próprio ginásio de esportes. Ou quando perde o encontro com a garotinha ruiva porque acabou cochilando do lado de fora do clube com um livro nas mãos. Exemplos é que não faltam. Apesar do que é mostrado, Charlie Brown é batalhador, reconhece a derrota e torna-se mais forte (e mais sábio) não porque ele caiu mais vezes, mas porque soube se levantar de todas as quedas, com dignidade. Em suma, ele é um bom aprendiz no que concerne aos aprendizados da vida.

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Meninos & Meninas (cachorro, gato & passarinho)

Muitos dos personagens são baseados em pessoas reais que fizeram parte da vida de Schulz; Charlie Brown é seu alter ego. É curiosa a visão que o autor tem sobre as personagens, principalmente as femininas.

Charlie Brown pode até se dar mal nos esportes; é como se ele não tivesse nascido pra isso. No entanto ele venceu um duelo de bolinhas de gude, ganhou uma corrida de MotoCross, chegou a tirar nota máxima e com menção honrosa em uma redação (mesmo sendo um aluno Tipo C) e foi finalista, ficando em segundo lugar, em um torneio nacional de soletração, isso não é pouco.

Aliás, em se tratando de esportes, nenhum dos meninos é destaque. Esporte, segundo Peanuts, é coisa de menina; principalmente quando se trata da competição entre meninos e meninas.

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Linus é um erudito, orador, teólogo, o filósofo da turma. Cita trechos bíblicos e outros livros, de pensadores em geral. Sua fé inabalável na Grande Abóbora, uma espécie de entidade que faz parte de sua mitologia pessoal, faz com que ele passe a noite toda de Halloween em um canteiro de abóboras à sua espera. Sua fraqueza é seu inseparável cobertor azul. Na realidade sua dependência por esse cobertor pode ser comparado à dependência química. Isso é mostrado em mais de um episódio, quando ele é separado do seu cobertor por algum motivo, pouco tempo depois ele começa a sofrer os mesmos sintomas de abstinência de um viciado; ansiedade, irritação, agressividade, depressão, pânico, tremedeira, tontura, febre e suores. Ele é o melhor amigo de Charlie Brown, nem por isso deixou de traí-lo mais de uma vez, se apaixonando pela mesma garota (conquistando-a logo em seguida) ou aproveitando da oportunidade de se dar bem com uma das garotinhas ruivas, ou mesmo quando vai consolar a Patty Pimentinha com um beijo.

Schroeder é o virtuose do piano, especialista em Beethoven. Em muitos episódios do desenho animado ele se destaca tocando clássicos ao piano. É o único, com exceção do Snoopy, capaz de enfrentar e humilhar a temida Lucy.

Franklin é um personagem secundário, muitas vezes ele aparece junto da Patty Pimentinha. É o único personagem negro. E Chiqueirinho, como o nome diz, não é nenhum exemplo de boa higiene, chegando a levantar poeira por onde passa, inclusive sobre a neve, fugindo das regras sociais, no entanto ele sempre está de bem com a vida, bem humorado e otimista.

Rerun, um garotinho esperto com respostas inteligentes, é irmão caçula de Lucy e Linus, aparece em alguns episódios, na maioria das vezes na garupa da bicicleta da sua mãe.

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Diferente dos meninos, as meninas são mais ousadas, decididas, com personalidades fortes. Lucy, irmã mais velha de Linus, é mandona, em geral mal humorada, materialista, sarcástica e egoísta. Quando há oportunidade faz maldades com o Charlie Brown; a mais clássica delas é quando Lucy segura uma bola de futebol americano e pede para que ele a chute, tirando-a logo em seguida e fazendo com que Charlie Brown chute o ar e caia de costas no chão. Linus e Rerun também sofrem nas mãos dela. Porém, tudo tem volta. Na mesma medida Lucy sofre com um amor obsessivo e não correspondido que ela sente por Schroeder. Ela tem o seu próprio negócio; uma bancada onde atende seus clientes como Psicóloga, Advogada e até mesmo Juíza. Ironicamente Charlie Brown é seu cliente mais assíduo.

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Sally Brown, irmã caçula de Charlie, é outra com personalidade marcante; muito crítica, com autoestima elevada, egocêntrica, teimosa e, embora odeie a escola, ela é muito esforçada e disciplinada, sempre com boas notas. É apaixonada por Linus e sempre toma iniciativa para cortejá-lo, sem dar chance para ele falar ou sequer ouvi-lo.

Aliás, as meninas tem dificuldade em saber ouvir, principalmente Sally e Patty Pimentinha, além de Lucy “Se todo mundo concordasse comigo, todos teriam razão!”, suas palavras.

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Patrícia, mais conhecida como Patty Pimentinha é campeã nos esportes, não importa qual modalidade, ela sempre vence, é uma líder nata e tem o seu próprio time. Por isso também ela é vista como uma menina masculinizada, sempre usando bermuda, camiseta e chinelos; alguns acreditam que ela tenha um relacionamento lésbico com a Marcie. Mas não é tão simples assim. No episódio “Que Patinadora” (She’s a good skate, Charlie Brown) ela se destaca em um campeonato de patinação no gelo só para meninas, não apenas por ter vencido a competição patinando ao som de Mio Babbino Caro de Puccini (assobiado pelo Woodstock), mas é um raro momento em que ela está usando um vestido, confeccionado pelo Snoopy, que também é o seu treinador. Toda a sua feminilidade é mostrada nesse episódio; talvez não levando em consideração a cena em que ela enfrenta e derruba um grupo de meninos com tacos de hoquei.

Apesar de sua autoconfiança nos esportes e sua alta competitividade, ela se mostra frustrada e com baixa estima quando se trata de sua aparência. Sente uma paixão obsessiva, porém contraditória e não admitida, pelo Charlie Brown, que ela considera um chato, tapado e aguado, no entanto morre de ciúmes dele, seja com a garotinha ruiva ou com a própria Marcie. Para contrabalancear seu sucesso nos esportes, ela acaba sendo uma péssima aluna; desatenta, sem interesse pelas matérias e com dificuldades de aprendizado; não raro dorme na classe durante as aulas. Ela foi inspirada em uma prima de Schulz.

Marcie, de todas as meninas, parece a mais sensata, equilibrada e prática. É estudiosa, meticulosa, inteligente, um pouco inocente às vezes, usando óculos enormes. Assim como Patty Pimentinha, ela também nutre uma paixão por Charlie Brown, mas sem apego ou ciúme. Ela ama o Charlie Brown pelo o que ele é, nada além disso. É um sentimento descomplicado, simples como deveria ser. Marcie faz parte do time da Patty Pimentinha e, de longe, é a pior do time.

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Snoopy, é o cãozinho do Charlie Brown. No início Snoopy se comportava mais como um cachorro, inclusive andando sobre quatro patas, mas com o tempo seu comportamento foi ficando mais humanizado; além de andar sobre duas patas, sua personalidade foi ficando mais complexa. É o personagem que mais quebra paradigmas.

Ele é independente, abusado, folgado, rebelde, às vezes egoísta, embora não sejam raros os atos de generosidade. Ele tem várias personalidades; é o Ás Mascarado, o Piloto da Primeira Guerra Mundial, o galanteador Joe Cool, o Escritor, entre outros; podemos considerar a ideia de que Snoopy se esconde atrás dessas personalidades para fugir da sua realidade canina. Da inocente fantasia à esquizofrenia de cada dia.

Snoopy tem uma relação de amizade muito intensa e complexa com Linus, sempre tentando roubar seu cobertor, mas sempre o defendendo nos piores momentos. A sua relação com Lucy é também muito intensa, de amor e ódio. Mimado pelo seu dono, Snoopy se aproveita até as últimas conseqüências; desde dormir na cama do Charlie Brown, tomar posse da TV, ou confrontá-lo em muitas situações. Alguns o vêem como um Menino com nariz esquisito; Patty Pimentinha durante muito tempo acreditou piamente que Snoopy era apenas um garoto, amigo do Charlie Brown. Seu comportamento transita entre o humano e o cão. Ele tem atitudes excêntricas, como por exemplo, dormir sobre o teto da sua casinha de cachorro. Ele tem um amigo especial e sente-se responsável por ele, Woodstock; um passarinho amarelo, seu fiel companheiro. E seu pior inimigo é o Gato do Vizinho, que nunca aparece em cena, apenas suas garras ameaçadoras capaz de destruir sua casinha de cachorro.

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O Livro da Vida

Peanuts é cheio de ambigüidades. As personagens são crianças com almas de adultos; suas crises e conflitos não se limitam apenas à esfera da fase infantil, são crises existenciais. Os adultos raramente aparecem e quando aparecem são personagens sem importância, salvo em casos específicos como no episódio A História da América. O mais incrível é que os pais das crianças não aparecem, nem as professoras; sabemos que o pai do Charlie Brown é barbeiro, que a mãe do Linus sempre anda de bicicleta (levando o Rerun na garupa) e mesmo assim nunca aparece.

No episódio Não há Tempo para o Amor, Charlie Brown, em uma conversa com Charlie depois da aula, Linus diz "...eu acho que o propósito de ir para a escola é tirar boas notas. Aí você vai para o Segundo Grau onde o propósito é estudar mais ainda para tirar boas notas e poder ir para a faculdade. E o propósito de ir para a faculdade é tirar boas notas para poder fazer pós-graduação e o propósito disso é estudar mais e tirar boas notas para ter um emprego e ser bem sucedido, casar e ter filhos para poder mandá-los para a escola para tirarem boas notas..." - O que há de novo debaixo do sol?

A turma toda tem que enfrentar os desafios, as frustrações e os conflitos, sozinhos, sem a intervenção dos adultos, responsáveis ou não. Manter a “cabeça erguida” é um dos “segredos da vida”, segundo o próprio Snoopy.

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Um dos episódios mais contundentes é intitulado Why Charlie Brown, Why? – que mostra a amizade entre Linus e uma colega de classe. Certo dia ela passa mal durante a aula, febril, deixa a escola. Dias depois Linus fica sabendo que ela foi internada. Ele e Charlie Brown vão visitá-la no hospital. Ela tem leucemia e passará por um tratamento quimioterápico. Quando retorna à escola está careca e é vítima de bullying, Linus a defende. A história tem um final feliz com a garotinha recuperada, o cabelo já crescido, mas isso não diminui o drama das primeiras cenas.

Não da para saber ao certo se são crianças com almas adultas, ou se adultos em corpos de crianças. Talvez nem um nem outro. O que nos leva a acreditar é que o mundo carece de pessoas adultas, maduras. A Turma é como uma família de amigos unida por laços e propósitos cármicos. Mas como diria Charlie Brown, com uma boa dose de ceticismo, “O Livro da Vida não tem respostas no final!”.

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Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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