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Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

The Velvet Underground and Nico – 50 anos de Conspiração

Como é visto hoje, cinquenta anos depois do seu lançamento (12 de março de 1967), o álbum The Velvet Underground and Nico?


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O que é um Clássico?

Neste ano de 2017, um dos principais álbuns de rock dos últimos tempos faz 50 anos de existência. Fracasso total de vendas no ano de lançamento, se comparado a outros álbuns clássicos como o primeiro do The Doors, The Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd, Sargent Peppers dos Beatles entre outros. Reza a lenda que o agora “famoso” disco da banana vendeu na época apenas 06 cópias, aos amigos da banda. Lou Reed, quando o conheci, de cara me pareceu um daqueles sujeitos sombrios e de poucos amigos.

Reed já vinha trabalhando em algumas músicas do álbum desde 1965, Heroin e I'm Waiting for the Man servem de exemplos. John Cale nessa época tocava com o minimalista LaMonte Young. A Banda se estruturou dessa forma; Lou Reed; guitarra e vocal, John Cale; baixo, viola de arco, piano, backing vocal, Sterling Morrison; guitarra, baixo, backing vocal e Maureen (Moe) Tucker na percussão; sim! Uma mulher na percussão, outro diferencial para a época. E por último, trazida por Wandy Warhol, Nico, com sua voz gutural, participou do álbum fazendo vocal em algumas canções. Warhol, pai da Pop Art, foi uma espécie de padrinho da banda em sua primeira fase e é de sua autoria a arte de capa que virou um ícone com o passar dos anos; na primeira versão da capa a banana podia ser descascada; o símbolo fálico é evidente.

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O álbum The Velvet Underground And Nico foi decisivo. Um verdadeiro marco histórico na música moderna. Capaz de influenciar nomes como David Bowie e Iggy Pop, além de bandas e gêneros tão diferentes quanto improváveis.

O Velvet foi responsável pelo surgimento de inúmeras bandas nas décadas seguintes, mostrando o alcance que eles tiveram ao longo do tempo, indicando não apenas uma influência direta no som, nas letras, mas nos caminhos que foram abertos que vai do experimentalismo, passando pelo punk, o pop dos anos 80, bandas de rock alternativo como Sonic Youth e Galaxy 500 e bandas grunges como Nirvana.

O que torna um álbum clássico? Creio que vale a mesma resposta cunhada por Jorge Luis Borges sobre os clássicos da Literatura:

Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações de homens, motivadas por razões diversas, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade”.

Transcrevo aqui a mesma idéia trocando apenas “livro” e “lêem” por “álbum musical” e “ouvem”.

O clássico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles pode ter sido o álbum mais vendido, o mais elogiado pelo público e pela crítica; gravado com todo aparato tecnológico da época e com técnicas inovadoras de gravação, abrindo caminho para o que viria depois. No entanto, é um álbum que só funcionou em estúdio, sendo descartado das apresentações ao vivo. Porém, o álbum mais importante daquele ano, levando em consideração o primeiro álbum do The Doors e do Pink Floyd, The Velvet Underground and Nico foi o mais impactante, ousado, inventivo e influente álbum de rock dos últimos 50 anos. E há um consenso para explicar o seu fracasso comercial e crítico; ele estava muito a frente de seu tempo.

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Poesia Versus Rock

Por falar em Literatura, a banda foi calcada em cima dela; a maior influência de Lou Reed na juventude não foi nenhum ídolo do rock, foi o poeta Delmore Schwarts, que foi seu professor de inglês, amigo e mestre. A faixa European Son foi dedicada ao poeta.

A riqueza do álbum não está apenas nos temas abordados, mas como eles foram abordados; sempre de forma visceral e poética, de um lirismo agressivo escoando pelo surreal. Se na literatura temas como drogas pesadas, criminalidade, amores doentios, ocultismo, marginalidade e “perversões” sexuais já haviam sido exploradas por vários escritores, entre eles o beatnik William Burroughs, Raymond Chandler e Nelson Algren, que mais tarde inspirou a canção Walk on the Wilde Side do segundo álbum solo de Lou Reed; Transformer.

Na década de 60, no meio musical, tais temas eram tabus e ninguém, nenhuma banda, teve colhões para encarar essa empreitada antes do The Velvet Underground.

O próprio nome da banda veio de um livro sadomasoquista.

E isso enriqueceu o rock, não apenas pela sonoridade, temática, mas pela abordagem literária; não é à toa que Lou Reed é considerado um dos grandes poetas do rock.

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Breve Sinopse Sobre as Canções

Sunday Morning O álbum abre com Sunday Morning, se parece com uma canção de ninar devido o seu arranjo; John Cale usou um xilofone, além de sua melodia calma e sonolenta. Mas ao verificar a letra descobrimos que sua essência é a paranoia de ser observado e perseguido o tempo todo, revelado no verso “Watch out, the world’s behind you” (Cuidado, o mundo está atrás de você). Já não se trata mais da paranoia dos viciados que se sentem perseguidos. Hoje a canção alcançou uma abrangência maior em um mundo no qual todos nós somos vigiados o tempo todo, seja pelas câmeras de segurança, pelo facebook e outras mídias sociais. A paranoia ganhou outras tonalidades e está mais presente em nossas vidas do que nunca.

I’m Waiting for the Man É uma das canções mais antigas da banda, sua primeira versão é de 1965. Reed conta, em um formato jornalístico, sua experiência com os opiáceos, em uma viagem para os subúrbios para encontrar o seu fornecedor – “I’m waiting for the man/ Twentysix dollars in my hand” (Estou esperando o cara/ Vinte e seis dólares na mão – tradução de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo). Os versos “Hey boy, what you doin’uptown/ Hey White boy, you chasin’our women around” foram usados e consagrados por Renato Russo, da Legião Urbana, na música Mais do Mesmo – “Ei, menino branco, o que é que você faz aqui / Subindo o morro pra tentar se divertir”.

Femme Fatale Essa balada ganhou inúmeros covers ao longo do tempo. Originalmente cantada por Nico, dando à canção um sotaque europeu. Reed escreveu essa canção a pedido de Andy Warhol, sobre uma Factory Girl; uma modelo de Andy de 1966. Para Joe Harvard, músico e produtor musical, Femme Fatale soa como a Garota de Ipanema (no caso aqui se trata de Manhattan) e que a diferença está no voyeurismo presente na “Garota” de Tom Jobim enquanto que na “Femme” de Lou Reed nós encontramos a história de um narcisismo decadente.

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Vênus in Furs Esta canção é o auge da sonoridade que os integrantes do Velvet buscavam como identidade para a banda; o gemido hipnótico da viola de arco tocada por J. Cale dialogando com a guitarra de Reed, ao fundo a batida monótona de Moe Tucker. Vênus in Furs também foi responsável por moldar negativamente a imagem pública da banda. A letra é baseada no romance autobiográfico de Leopold Von Sacher-Masoch (é daí que vem o termo sadomasoquismo), do século XIX. Entre as personagens principais temos o escravo Severino e a Amante das Peles, Wanda. Nas apresentações ao vivo dançarinos, o principal deles foi Gerard Malanga, faziam suas performances com roupas de couro e chicote.

Run Run Run A letra foi escrita no caminho de um show no Café Bizarre. É a canção mais rock and roll do álbum com um solo de guitarra serpentino; o destaque aqui é para o guitarrista Sterling Morrison. Sua temática também é sobre drogas pesadas, já no título é revelada a urgência de correr em busca de dinheiro para as drogas ou em busca dos fornecedores. Joe Harvard comenta que a expressão “on a run” indica aquele tipo de viciado que tem dinheiro o suficiente para se entorpecer continuamente. O título tem várias alusões na linguagem das drogas.

All Tomorrow’s Parties Essa é uma das favoritas de Andy Warhol. Há uma versão single com vocais double track, criando uma sensação de eco, mas a versão integral, que faz parte do álbum, me parece mais sombria. A letra é um retrato fiel do cotidiano das pessoas ligadas a Factory e a Warhol na época. Com J. Cale puxando a música com sua batida forte ao piano e a voz gutural de Nico; alguns consideram a melhor gravação de Nico com o Velvet.

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Heroin Ela foi escrita em 1965, mesmo que alguns cantores de blues já adentrassem nesse território da dependência química através de suas composições muito antes dessa época, nada se compara a essa canção e ao efeito que ela produz através da sua sonoridade, na experiência em tempo real dos efeitos causados pela heroína. Ela vai da calmaria, beirando o torpor, até a uma crescente sonoridade cheia de distorções, microfonia e o gemido frenético da viola de arco, oscilando as mudanças de tempo e ritmo. Heroin é a primeira e a melhor canção a retratar diretamente o assunto no cânone do rock. Ela demoliu as prisões que encarceravam os músicos de rock, trazendo para o gênero a liberdade para se escrever sobre a vida como ela é; sem as máscaras do mercado da música. Heroin é talvez o maior exemplo de que o Velvet Underground dinamitou aqueles roquinhos inocentes das baladas adolescentes, das canções melosas de amor ingênuo e da hipocrisia enlatada que a indústria musical, influenciado pela burguesia, tentou enquadrar o rock. E fez isso usando apenas dois acordes Ré e Sol, influenciando drasticamente a rebeldia musical do Punk nas décadas seguintes.

Infelizmente, mas já era de se esperar que não só a música como a banda fossem acusadas de apologia às drogas. A crítica foi negativamente implacável. Para o guitarrista Sterling Morrison Heroin fala de uma “morte espiritual” e que somente alguém que deseja morrer é que acaba buscando o seu vício. Reed estava ciente do risco de ser mal interpretado e condenou a crítica, mas Reed e a banda foram fiéis ao seu trabalho com as canções, não se venderam; não se renderam ao mercado. Isso é atitude. Lou Reed já tinha bacharelado em inglês na época, formado em Jornalismo ele via os fatos, porém o seu lado poeta muitas vezes pregava os fatos evocando imagens interpostas, sobrepostas que vão da delicadeza à dureza. O que ele fez foi levar o realismo literário para o rock.

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There She Goes Again Esta canção mostra a precisão da banda, a interação dos integrantes de forma harmoniosa. Pode até não causar nenhuma surpresa, trata-se de um rock bem tocado com vocais de apoio harmônicos, pode lembrar uma canção dos Rolling Stones ou do The Kinks. A letra não é tão objetiva, pode se tratar de uma prostituta, ou de uma garota com uma postura feminista desafiando o machismo do companheiro.

I’ll Be Your Mirror Reed escreveu esta canção para que Nico cantasse e, pelo menos em parte, I’ll Be Your Mirror foi inspirada na época em que eles viveram um breve romance. Tornou-se uma das baladas preferidas de Reed. E sou testemunha disso; foi em 2010, no Sesc Pinheiros, que Lou Reed apresentou o seu projeto Metal Machine Trio, cujo repertório se tratava de improvisações livres baseadas no álbum eletrônico-experimental Metal Machine Music de 1975; certamente o trabalho mais radical de Lou Reed em sua carreira solo. Os primeiros 15 minutos de apresentação sacudiu o Sesc Pinheiros e fez muita gente se levantar xingando, entre murmúrios indignados um incontido “Fuck you” foi dirigido ao palco. Todo aquele “barulho” infernal destilado de distorções de guitarra e de gemidos de sax, microfonias e todo o tipo de ruído incômodo durou, se não me falhe a memória, por volta de uma hora e meia. No final da apresentação, Reed retorna ao palco sozinho, pega sua guitarra e toca a versão mais dramática, delicada e brutal, que tenho conhecimento, de I’ll Be Your Mirror. De toda a discografia de Reed, ele escolheu justamente essa canção para encerrar aquela noite. Canção que, aliás, não tinha nada a ver com o projeto musical Metal Machine Trio.

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The Black Angel’s Death Song De temática ocultista e obscura, ela contém elementos da poesia Beat. O destaque também vai para John Cale e sua viola. O próprio Cale dizia que essa canção era “um tapa na cara”. Durante um show no Café Bizarre, depois de tocar essa música, o proprietário ameaçou dizendo que eles seriam expulsos se voltassem a tocá-la. Na noite seguinte eles abriram o show com ela e, claro, foram expulsos.

European Song Ela foi dedicada ao poeta Delmore Schwartz. Com uma letra breve, restou quase oito minutos de experimentações sonoras. Influenciando claramente bandas como Sonic Youth e Yo La tengo.

A banda nasceu e se consolidou através de um grupo de amigos tocando um rock barulhento e experimental, com letras que falavam de tabus em meio ao submundo nova-iorquino, usando roupas pretas e óculos escuros que inspiraram, até mesmo no modo de se vestir, as gerações futuras. Isso tudo aconteceu em 1967, com o lançamento do primeiro álbum The Velvet Underground & Nico, em pleno “Verão do Amor” hippie.

Sim. The Velvet Underground estava muito à frente de seu tempo.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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