a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

Caberê e o Espírito da Cidade

Claudinei Vieira é poeta, contista e editor (Desconcertos Editora). Poeta e herói da cidade, do seu tempo, além do ofício da escrita, está publicando novos autores para uma nova geração.


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“Quanto sacrifício, e a que preço nasce uma cidade” - Jim Morrison - Do livro Os Mestres.

Durante o período pré-islâmico, os poetas eram considerados muitas vezes superiores aos príncipes; o poeta não era uma criatura comum, pois ele foi tocado pelo djinn; gênio ou espírito do deserto, proporcionando a ele a inspiração poética. Alberto Mussa, na belíssima coletânea de poesia pré-islâmica, Os Poemas Suspensos, a respeito do poeta, comenta: “Eram eles homens magníficos, heróis dos seus poemas, a despeito de quem fosse o destinatário formal. Não bastava recitar versos: era necessário ter vivido o que se recitava”

Caberê, o poeta urbano, persona de Claudinei Vieira, testifica o Yurei; o espírito da cidade, por vezes, seu próprio duplo, por vezes o seu contraponto, mas sem dúvida o seu gênio de inspiração poética.

Se no deserto a mera existência é um desafio, quando não um milagre, nas grandes metrópoles, nos labirínticos centros urbanos dos dias atuais, o desafio não é menor, pode ser diferente, mas não menor. Viver na cidade é sobrevier, para muitos, quase um milagre. E é com esse grito, muitas vezes contido, que o poeta Claudinei vem dialogar com o mundo, nos alertando que o poeta deveria se doar mais; ser um agente humanitário, não apenas da palavra, da exortação ou da profecia. Cabe também ao poeta, vestir não só de palavras quem está nu, levar pão para quem tem fome. Somente assim as ruas podem ser descongeladas do abandono, da indiferença social.

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A poesia por si só não pode mudar nada. Caberê sofre com o coração dos outros.

E uma poesia humanitária permite-se a dúvida e o medo. Em dois poemas: No dia em que todas as crianças palestinas estiverem mortas e Uma fábula de passarinho, temos o poeta dentro dos conflitos de guerra; no caso aqui se trata do eixo Palestina/Israel, conflito cuja semente da causa, não reconhecida e quando levada em conta, muito mal interpretada, é a primogenitura, que já remonta milênios. Intolerância é apenas uma das meras conseqüências.

A justiça dos homens é complicada e tem seus próprios interesses. A paz dos homens é traiçoeira e contraditória como o coração dos homens. Seja nos campos de guerra ou nos grandes centros urbanos, o poeta se mostra impotente diante da morte.

Caberê sofre no coração dos outros.

Há também os conflitos no plano dos afetos. O amor urbano não é fácil; ele se perde no emaranhado dos becos, das vielas – o amor se perde nas voltas de umas vielinhas do centro de São Paulo – declara o poema Amores Centrais. Manter o amor aquecido nas calçadas, nos faróis, nos viadutos é um exercício diário, dificilmente cumprido. A solidão concreta os afetos.

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Caberê, o poeta em sua inquietude sabe que os escombros na cidade são os desvalidos. A nudez da cidade são os esquecidos, os rejeitados. É o escombro humano e não há como cobrir as suas vergonhas.

No erotismo encontramos a urbanidade do corpo; o corpo também é uma cidade a ser explorada; um labirinto para se perder. Pode ser frio e duro, mas também abrigo e aconchego; uma habitação, uma casa, um lar.

O poeta transita entre o concreto e o sutil. As paredes falam, as paredes ouvem, nos protege e nos aprisiona. Assim declara o poeta que seu mundo é essa caixinha de vidro notável, inoxidável. Assim também é a parede da linguagem, que nos aproxima e nos afasta das pessoas.

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No poema A moça e a cidade há uma questão impertinente: Quem é o observador? É o poeta que observa a moça que observa a cidade ou o oposto? As perguntas são constantes. A dúvida está dentro da ordem. O talvez é necessário.

O vento é constante, é o Yurei sussurrando nos becos, entre os grandes edifícios, passeando por entre a multidão nas praças e nas estações do metrô, ecoando no ônibus lotado. O vento é o movimento da vida na cidade, essa prisão, esse parque de diversões cheio de monstros e heróis. O vento frio e cortante dos homens sem coração; é a palavra que machuca e que condena o próprio irmão.

Há também as nuvens de dentro e de fora, e elas se confundem, se mesclam. A nuvem cai não só em forma de chuva, mas também em forma de palavra. Enquanto nuvem o poeta se depara com a existência além da realidade cotidiana, é o reflexo do seu interior que paira, viaja, e se desfaz acima dos telhados, dos pontilhões e das marginais, sobre toda a cidade o poeta se desfaz como nuvem, incenso perfumado.

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Assim como o djinn sai da lâmpada mágica em forma de fumaça, Yurei também é a fumaça do próprio cachimbo do poeta.

Do concreto à nuvem suspensa o poeta passeia entre os fenômenos, entre os estados físicos. Enquanto concreto, cimento, parede, o poeta vivencia a dor, a ausência, o abandono, mas também a paixão e a necessidade e o valor das amizades, dos afetos.

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Diante do mundo, diante do espírito da cidade, o único desatino de Caberê, é ser poeta.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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