a biblioteca de babel

Todas as Palavras são Palavras de Amor

Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar.

Uma Poética da Psicologia Imaterial e Seus Retratos Efêmeros

Jean Narciso Bispo é uma voz que se destaca na poesia contemporânea com sua poesia inusitada, muitas vezes pautada na metalinguagem com um viés filosófico.


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O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor” - Antoine de Saint-Exupéry

A poética singular de Jean Narciso Bispo vem sendo urdida com a trama do encadeamento das palavras, da busca do sentido pessoal na representação do universo e da construção da metáfora no cotidiano. Tudo dentro de uma lógica imprecisa, esquadrinhando assim um tecido de estranhamento imagético.

A professora e filosofa Lúcia Helena costuma dizer que na verdadeira Poesia nós encontramos a Filosofia. A lógica de Jean Narciso Bispo é apresentada por um viés filosófico que vai contra o próprio Logos (do grego, vem do verbo Légo; pensar, raciocinar), tradicionalmente usado na filosofia para argumentar, fundamentar, qualquer conceito ou pensamento de maneira lógica. Tenho a impressão que o poeta tenta unir Mythos (narrativa subjetiva) e sua antítese Logos (discurso objetivo, racional), levando a leitura de um extremo ao outro.

Se a relação do poeta com a Filosofia e a razão extrapola as próprias leis da lógica, com a Poesia e a mente imaginativa não parece ser menos conflituosa. Jean sabe que é vaidade das vaidades quando o poeta quer ser maior que a Poesia, restando apenas o desprezo das Musas.

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Indo além, o poema “Contramão” (de Retratos Imateriais), sinaliza o conflito entre as gerações de poetas e o próprio cânone. Em “Correio Eletrônico” há uma sutil negação ao cânone (Drummond e Bandeira), mas o poema finaliza com certa ironia: “brincamos de verso/ quando às cinco da tarde/ as nossas mães interrompem a brincadeira”. As mães são as Musas, aqui o poeta confessa total dependência, se colocando, ao lado de outros poetas, como criança, declarando a sua falta de maturidade, pois ele mesmo sabe que em se tratando de Poesia somos todos imaturos, aprendizes, faça parte do cânone ou não.

O poema “Metacápsula” que inaugura o livro “Psicologia do Efêmero”, diz: “Põe nos meus tristes espetáculos/ de fórceps ao parir a palavra”, nos revelando que o poeta tem consciência que o fazer poético dói. Parir o verbo é muitas vezes e de muitas maneiras, dolorido. Parir a palavra exige responsabilidade. É também trabalho artesanal, trabalho pesado, “Trabalho de Mineiro”, e mesmo o poeta trabalhando o verso, a palavra, com afinco, por mais fundo que ele cave, não será suficiente, posto que a Linguagem é traiçoeira.

No poema “Desespero Temporal”, que abre o livro “Retratos Imateriais”, temos um exemplo de inversão do senso comum no verso; característica que se repete na obra de Jean:

o tempo envelhece na pele da humanidade

Dentro do senso comum o verso poderia ser escrito da seguinte forma:

a humanidade envelhece na pele do tempo

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E meio a tudo isso resta ao poeta perverter ainda mais o senso comum, materialista; daí a estranheza. Também penso que a primeira chave para adentrar na poética de Jean Narciso Bispo, como bem afirmou o poeta e crítico literário Fabiano Fernandes Garcez, é a metalinguagem. É entender que a metalinguagem é a tentativa de organizar a linguagem dentro da alma.

O belíssimo poema “Saldo Incógnito” (Psicologia do Efêmero) é sobremaneira revelador:

Basta-nos o decréscimo de dias de um saldo incógnito para que passar metade de uma vida pensando noutra vida

O resultado do saldo será revelado no final, mas para o sustento da vida é exigido o exercício da fé, para isso é necessário viver o presente com a esperança no futuro.

alimentando-se como um glutão na confeitaria da palavra. Conclamo botar o sobrenatural nas forças dos braços ir avante

Viver apenas da letra é viver uma vida estéril, abrindo um paralelo com 2 Coríntios 3:6 “...porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. A letra é o “ministério da morte”, isso vale tanto para a Lei Mosaica como para o aprisionamento da Poesia em regras ou formas rígidas (as tábuas da Lei do Cânone) e muitas vezes, vazias de inspiração; pois houve um desgaste ao longo do tempo; é quando as velhas roupas já não servem mais; a linguagem é caprichosa. Por isso foi necessário uma Nova Aliança. A palavra precisa de sopro para receber a vida, quando isso acontece o poeta se torna instrumento de cura; a cura acontece pela linguagem. Vale lembrar a poeta mexicana Maria Sabina. Tal sopro é a inspiração, fruto do espírito. Por isso o sobrenatural é alimento necessário para “ir avante”, ir além dos tolos questionamentos e das filosofias inúteis.

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ciente de que não estamos distante da magnitude da flor e do cacto

Se a “magnitude da flor” é a representação do Belo e da Verdade, a magnitude do cacto se manifesta como representação da fonte de alimento capaz de matar a nossa sede quando experimentamos o deserto (da alma, do mundo, das sociedades), e ele também nos da a visão para enxergar além da matéria, pois ele armazena em seu interior água pura. Quando bebemos dessa água alcançamos o sobrenatural, aí percebemos que pelo espírito a distância é só mais uma ilusão. A Física Quântica nos fala sobre o emaranhamento quântico, o entrelaçamento de partículas à distância.

O elemento água é usado pelo poeta como metáfora e símbolo aparecendo explicitamente nos poemas “Fiat Lux” e “Rio Heraclitiano” (Psicologia do Efêmero); como já aparecera antes em “Memórias Secas de um Aqualouco”. Tal elemento é mantido no livro seguinte (Retratos Imateriais), os poemas “Águas e Remos” e “Os Peixes” são dois exemplos. Mostrando que, em um mundo ultra-materialista, o poeta luta com a tímida crença no sagrado; ainda assim professa o milagre da vida. Em “Galáxia” ele novamente reafirma sua fé; tudo foi feito pelo Verbo.

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No poema “O Verbo”, o processo de criação poética é sexual, por isso mesmo espiritual. Não importa; ambos os processos, biológico e sobrenatural, são criativos, são atos sagrados; isso resulta em Metanoia; o ato profano acontece quando a linguagem deturpa o que há de mais belo no humano.

O poema “Admoestação” fala da sedução verbal – “as palavras são iscas”. No relacionamento romântico, diante da sedução verbal, se não há inspiração, resta apenas sofrer calado. Porém, o poeta se coloca na pele de Jacó, o escolhido de Deus. Mesmo assim ele corre o risco de perder a voz diante de uma Raquel que seduz pela palavra.

Os livros “Psicologia do Efêmero” e “Retratos Imateriais” se inter-relacionam, se completam, se justificam e se afirmam entre si. O poema “Fogo Inadequado”, que fecha o último livro, é conclusivo:

às vezes escrever poesias é como ter nas mãos um fogo inadequado”.

Poesia é fogo inadequado porque é um fogo roubado dos céus (dos deuses ou dos anjos), não pertence ao humano; poetas apenas dão forma ao barro como faz o artesão, a essência está além do tempo e espaço.

O poeta italiano Eugênio Montale escreveu: “Diziam os antigos que a poesia nos eleva a Deus”, logo abaixo ele completa: “talvez não seja assim quando me leias”, revelando a falta de fé, ou mesmo a ausência ou o distanciamento do sagrado, a carência de uma nova aliança. Isso porque o poeta se contaminou com o materialismo mundano e com os ideais ilusórios do próprio Homem; toda crise existencial é uma crise espiritual, e como escreveu Henry Miller em “A Hora dos Assassinos”:

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Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil...ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão”.

Jean Narciso Bispo tem revelado, a sua maneira, o impasse dessa crise. E como o equilibrista, o poeta caminha na corda bamba da Linguagem, vivencia os extremos com ousadia, porque ele sabe que aqui não há rede de proteção.


Mateus Machado

Teve Simioto na infância. Publicou livros de Poesia. É a favor do caos criativo. Detesta propagandas de cerveja. Não vê esperanças na política e nos demais centros de poder. Não tem ideologias. Fã do John Coltrane, Lou Reed, Cartola e São Francisco de Assis. Apaixonado por música, literatura, cinema & gatos. Mora em qualquer lugar..
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