a catarse da escrita

Palavras libertárias: ensaiando pensamentos e atuando idéias

Marianne Abt

A escravidão da busca pela perfeição:um paralelo entre Cisne Negro e Whiplash

"Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons".

Sigmund Freud

Em nome da obsessão, da busca por uma causa, anula-se o sujeito ou o engrandece a um estado de gênio? Esse artigo visa discutir e estabelecer uma comparação psicológica entre narrativas cinematográficas que convergem na questão da busca obsessiva pela perfeição: a comparação entre a bailarina Nina, de Cisne Negro e o músico Andrew, de Whiplash.


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"Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons".

Sigmund Freud

O mestre e o aprendiz. O tutor e o aluno. O líder e o seguidor. As identificações patologizantes. E duas histórias cinematográficas: Cisne Negro (2012) e Whiplash (2014).

Ambas se apoiam em narrativas alicerçadas na obsessão pela perfeição. Em Cisne Negro, o telespectador é transportado para o interior da mente atormentada de Nina, uma bailarina jovem que é escolhida para interpretar a rainha cisne. Ela sofre pressão do coreógrafo Thomas e da mãe, uma ex-bailarina frustrada. Em Whiplash, Andrew é um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração. Após chamar a atenção do professor e mestre do jazz Terence Fletcher, consegue uma vaga (de início de suplente) na orquestra do conservatório Shaffer, uma das mais conceituadas dos EUA.

Em comum, dois jovens que levam a aptidão e o talento a níveis extremos de obsessão. O preço que se paga pelo sucesso e reconhecimento é caro. Os pés de Nina sangram. As mãos de Andrew são recobertas por um novo curativo encharcado de sangue a cada nova tentativa da busca pela melodia perfeita. A obsessão é infinita, nunca cessa. No balé, os passos são precisos. Na música, a contagem é perfeita. Não há espaço para erros. Aí estão dois jovens que lutam por uma causa, buscando a própria identidade na arte. A valorização e o olhar do outro dependem da exatidão. Disso, resulta-se um paradoxo interessante. Quanto mais aparecem, brilham e são valorizados, maior é o estado de despersonalização.

Despersonalização aqui, refiro- me a um estado de êxtase, próximo a um delírio, a “possessão”, a “folie a deux”, os estados de transe que, para além do olhar cinematográfico, encontramos tal dinâmica entre o que provoca a coerção e o coagido, nos homens bombas, em determinadas religiões e em regimes ditatoriais. Uma relação perturbada. Varvin e Volkan (2008) problematizam o terrorismo na contemporaneidade. “Os atos de violência envolvem uma relação perturbada com outros seres humanos – em níveis moral, ético e emocional – mesmo que a violência seja justificada por fins mais elevados.

Freud formula uma tese interessante que pode lançar luz sobre a questão da obsessão pela busca de uma causa. A palavra chave resume-se a identificações. Em Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921) há uma ênfase no papel dos grupos, que se caracterizam por colocarem um só e mesmo objeto no lugar de seu ideal do ego e, consequentemente, se identificaram(em) uns com os outros em seu ego . Deste modo, temos configurados dois tipos de laço emocional: o investimento no objeto e a identificação entre os pares que compartilham este investimento. Esta identificação apresenta uma característica pontual, que pode ser encontrada na figura do líder que encarna esse ideal. Este “modos operandi” é típicamente encontrado em grupos humanos coesos, remetendo-nos por sua vez, às características encontradas no sintoma por contágio, na hipnose e no estado amoroso, ou seja: certo grau de influência recíproca, especial condição de sugestionabilidade, inibição do funcionamento intelectual, elevação da afetividade.

Nina e Andrew tornam-se quase um objeto fetiche nas mãos de seus instrutores. Fletcher e Thomas encarnam o ideal em questão. A identificação com este ideal passa a ser perseguida a qualquer preço. Levada as últimas consequencias. Nina entra num estado confusional, desestruturada, ela sucumbe e perde sua essência entregando-se simbolicamente, a morte. Andrew parece ter um final mais promissor (ou pelo menos, compra-se esta ilusão). Reencontra seu eixo depois de um periodo de “surto obsessivo”. O filme recompensa o telespectador após o período de massacre e sadismo por parte do grande mestre. A aniquilação e o período sabático se justificam pelo ganho do reconhecimento e a promessa do vir a ser. Vir a ser o gênio. Mesmo que para isso se passe por humilhação e terrorismo psicológico.

“ A humilhação sentida por uma pessoa ,grupo ou por uma comunidade pode preparar terreno para uma regressão tanto dos indivíduos no grupo quanto do funcionamento grupal, o que, em última instância, pode ter consequencias sérias e extremamente destrutivas (...) obviamente, certas condições sociais devem estar presentes, bem como certos tipos de liderança, quase sempre determinados por personalidades extremamente patológicas (2008).

Esta é a questão que aqui é imposta. Em nome da obsessão, da busca por uma causa, anula-se o sujeito ou o engrandece a um estado de gênio? Em um ponto crucial de Whiplash, Andrew e Fletcher estão conversando num bar, depois de um período distante um do outro. Fletcher lhe diz: “Não existem duas palavras mais nocivas do que ‘bom trabalho”. A questão chave é: a genialidade é regida somente ante a perfeição? Um terreno perigoso, assim poderia se enfatizar. O baterista e a bailarina estão numa linha tênue entre a genialidade e o delírio compartilhado pelos seus ideais egóicos. O nível de exigência é tao elevado, que conduz os personagens a auto – destruição, a auto agressividade (treinar até sangrar). É o limite entre a sanidade e a loucura. Os desfechos dos personagens nos filmes, são supostos por seus estados mentais: Nina compõe uma estrutura frágil de personalidade, a obsessão pela dança é o alicerce que a segura e mantém sua sanidade. Ela não aguenta a pressão psicológica e o surto paranóico eclode. Andrew possui uma estrutura de personalidade mais estável e neurótica, quando é acometido por um surto transitório, aparentemente, consegue reestruturar-se. Tanto num caso, como em outro, há um caminho para a destruição do indivíduo, perde-se o seu eu. Ele é o desejo do outro, enfim, deixa de ser.

Bibliografia

FREUD, S., Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969.

Psicologia de Grupo e Análise do ego (1921), vol. XVIII. Mal-estar na civilização (1930), vol. XXI. Volkan, Vamik. Varvin, Sverre. Violencia ou diálogo? Reflexoes Psicanalíticas sobre terror e terrorismo. Ed Perspectiva, 2008.


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