a catarse da escrita

Palavras libertárias: ensaiando pensamentos e atuando idéias

Marianne Abt

Humor nas redes sociais: sublimação da contemporaneidade

O humor nas redes sociais é tão bem sucedido e torna-se especial, pois, comparado a uma obra de arte e as produções culturais, ele desmistifica e torna leve assuntos polêmicos, tabus sociais, por exemplo. As redes sociais promovem um engajamento e uma sublimação coletiva aos olhos tanto de quem as produz, como quem as recebe.


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Se você é um frequentador assíduo das redes sociais, possivelmente já se deparou com uma frase ou outra de algum personagem humorístico virtual, algum “meme” ironizando fatos atuais, ou mesmo páginas que satirizam o feminismo. É fácil cair na gargalhada com as tiradas inteligentes e criativas dessas páginas. Pois bem, o humor contemporâneo apropriou-se da linguagem dinâmica das redes sociais, espalhando curtidas e compartilhamentos. Diversas páginas surgiram e surgem a cada dia. “Gina Indelicada”, “Olha só Kiridinha”, “Clarice não disse”, “Ironias do Whatsapp”, “Dilma Bolada” são alguns dos exemplos de sucesso espalhados pelo Facebook, Instagram. A rede virtual e a modernidade acompanhada por ela, impôs um discurso próprio, dinâmico, mutável e que se renova com grande velocidade. Estamos na era da troca de mensagens via whatsapp, trocamos palavras por símbolos (emoticons), nos relacionamos via aplicativos. O humor acompanhou tal revolução virtual e tornou-se também ele próprio dinâmico, com forte impacto visual.

Por que o humor provoca tamanha comoção? Primeiramente deveremos discorrer sobre o processo humorístico. O humor é definido no dicionário Aurélio como “Mordacidade chistosa, ironia delicada”. Freud no texto “O Humor” (1927) encontra argumentos para explicar a origem do humor e do prazer que este causa; tanto ao autor, quanto ao interlocutor são afetados. Ele atribui ao humor, um estatuto muito fino e rebuscado. O humor engrandece o ego e é um excelente mecanismo para enfrentamento de situações, conflitos emocionais, tanto pessoais, quanto sociais. É uma saída estratégica que, nós, psicanalistas, denominamos de mecanismo sublimatório. Pois bem, vamos contextualizar o sentido de sublimação.

A sublimação de uma pulsão implica que esta possa se satisfazer com os objetos de substituição e também que uma satisfação imaginária ou simbólica possa se igualar com uma satisfação real. O resultado da sublimação é o desvio da energia libidinal de suas metas originais e investida em realizações culturais, ou em realizações individuais úteis ao grupo social. A sublimação é um meio de reconciliar as exigências sexuais com as da cultura, por conseguinte, reconciliá-las com a sociedade, ou reconciliar a sociedade com elas. O humor, estaria na mesma categoria da arte, criando realidade, uma “rebeldia criativa”, optando desenvolver objetos de satisfação pulsional – a sublimação.

A sublimação, segundo Freud, é um mecanismo de defesa eminentemente positivo para a sociedade, constituindo um bem social. “ Há, de fato, importantes pontos de convergência entre sublimação e humor: ambos implicam processos que se situam na fronteira entre a defesa frente à angústia promovida pelos excessos pulsionais e o movimento criador; encontram suas fontes originárias no brincar infantil; indicam uma afirmação do sujeito e de suas experiências de prazer e de alegria apesar do reconhecimento dos limites impostos a qualquer triunfo onipotente; e, finalmente, produzem uma modalidade de laço social baseado não na repressão pulsional, mas no compartilhamento afetivo (Kupermann, 1999).

O humor nas redes sociais é tão bem sucedido e torna-se especial, pois, comparado a uma obra de arte e as produções culturais, ele desmistifica e torna leve assuntos polêmicos, tabus sociais, por exemplo. As redes sociais promovem um engajamento e uma sublimação coletiva aos olhos tanto de quem as produz, como quem as recebe. Pode ser uma denúncia social, por exemplo. Neste aspecto, volta e meia a política se torna alvo fácil de chacotas, uma espécie de denúncia que faz uso de uma linguagem própria e que ainda eleva de uma maneira extremamente criativa aquilo que está em dissonância e em desagrado social. Por que não, uma forma de protesto? O universo feminino e suas adversidades, as dificuldades de relacionamento amorosos, incluindo o medo do vínculo, tão presente em nossa sociedade, também facilmente se tornam esquetes postadas. Clarice Linspector, Audrey Hepburn emprestam suas imagens que logo serão transformadas em caricaturas acompanhadas de frases de impacto e que nos fazem gargalhar.

O humor nas redes sociais provoca um acesso de descarga criativa e coletiva; rimos daquilo que nos faria chorar, nos identificamos com personagens e nos divertimos com aquilo que há de mais exagerado em nossa essência. Nos tornamos crianças brincalhonas novamente, nos permitimos usufruir de uma liberdade, dizer coisas e fazer piada do politicamente incorreto, incensuramos o censurável e baixamos a guarda, muitas das vezes, com toque de agressividade. Freud considerava o humor também como uma forma de liberar a agressividade e um modo consciente de explorar os mecanismos inconscientes. O humor, também pode proceder de uma economia na despesa com o sofrimento, na medida em que possibilita uma liberação de afeto, há uma economia na compaixão, na raiva, no desprezo e da indignação, como também uma liberação de prazer atrelada a uma dimensão estética. O humor, além de poupar afetos penosos, também produz grandeza e elevação, resultando assim, num triunfo narcísico do ego. A atitude dos humoristas frente aos outros torna se próxima a atitude paternal, quase como que rindo da trivialidade do universo infantil. Talvez a evolução da espécie esteja no humor. Mais humor, por favor!!

Bibliografia

- FREUD, S. (1905/1980). Os chistes e sua relação com o inconsciente. Obras completas, ESB, v. VIII. Rio de Janeiro: Imago.

- FREUD, S. (1907/1980). Escritores criativos e devaneio. Obras completas, ESB, v. IX. Rio de Janeiro: Imago.

- FREUD, S. (1914/1980). Sobre o narcisismo: uma introdução. Obras completas, ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

- FREUD, S. (1927a/1980). O humor. Obras completas, ESB, v. XXI. Rio de Janeiro:

- KUPERMANN, D. (2003). Ousar rir. Humor, criação e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

      - KUPERMANN, D. & Slavutsky, A. (orgs.). (2005). Seria trágico... se não fosse cômico: humor e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.           - KUPERMANN, D. (2010). Humor, desidealização e sublimação na psicanálise. Psicologia Clínica, 22(1), 193-207 


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