a catarse da escrita

Palavras libertárias: ensaiando pensamentos e atuando idéias

Marianne Abt

Vivian Maier e o selfie contextualizado: a beleza da fotografia no quase anonimato

Na sociedade pós moderna, o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente, mas que denotam algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de sua essência. O sucesso da fotografia de Maier revela-se justamente na sua antítese: a fixação da auto imagem, o self tão produzido com jogo de espelhos, luz e sombra poderiam levar o observador a crer que estamos diante de uma artista um tanto quanto performática e que guarda em sua essência algo tipicamente peculiar numa personalidade narcísica. É aí que aparentemente nos equivocamos, e que torna seu material tão interessante e intrigante.


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Não foi á toa que ela ganhou uma exposição póstuma que tem rodado nas principais capitais internacionais (“O Mundo Revelado de Vivian Maier”) e que sua trajetória de vida rendeu um documentário que concorreu ao Oscar neste ano de 2015. O mais interessante, belo e ao mesmo tempo trágico, foi o fato de sua obra vir a ter reconhecimento mundial depois de sua morte. Maier fotografou a beleza do cotidiano nas cidades de Chicago e Nova York, rodava estes lugares “congelando”momentos que chegam a se assemelhar a uma pintura modernista ou revelam algo de misterioso e intrigante a “La Hitchcock”. Quase como um clima “noir”, suas fotos estão carregadas do preto e do branco. O tudo e o nada são motivos inspiradores: a beleza do cotidiano, crianças brincando e fazendo traquinagens na rua, pessoas posando para sua câmera. Tudo isso com o mais puro e leve toque de simplicidade. Nada parece ser ensaiado, a beleza do retrato está na espontaneidade e na simplicidade da vida cotidiana. O sucesso da fotografia de Maier revela-se justamente na sua antítese: a fixação da auto imagem, o self tão produzido com jogo de espelhos, luz e sombra poderiam levar o observador a crer que estamos diante de uma artista um tanto quanto performática e que guarda em sua essência algo tipicamente peculiar numa personalidade narcísica. É aí que aparentemente nos equivocamos, e que torna seu material tão interessante e intrigante. Explicando: Maier passou quarenta anos sendo babá, ninguém nunca soube detalhes de seu passado e de sua vida. Extremamente reservada, jamais revelava seu material a pessoas, sejam elas próximas ou distantes. A “revelação” de todo o material coletado era realizada num quarto escuro de onde residia. Suas fotos eram quase que como uma produção catártica, ali a espontaneidade e a sensibilidade apareciam e revelavam algo de obscuro que seu discurso não podia revelar. Interessante fazer um paralelo com a era selfie tão cultuada por uns, repudiada por outros.

Na sociedade pós moderna, o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente, mas que denotam algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de sua essência. Milhares de poses, corpos, mas que nada tem a dizer, é o culto a imagem destituído de significação, o prazer do exibicionismo. Maier exibia uma sensibilidade apurada em um senso estético que somente os verdadeiros artistas têm. Uma das precursoras do conceito de selfie, tinha muito a retratar. A galera de hoje, que posa com caras e bocas, deveria tomar uma aula de estilo, simplicidade e humildade com a babá tímida e misteriosa, que guardou um tesouro da arca perdida em seus aposentos. Conselho: antes de pensar em repostar mais um auto retrato, vá conferir a exposição de fotos desta grande fotógrafa. Aposto que pensaríamos duas vezes antes de sucumbir ao prazer imediatista e exibicionista da era pós moderna. Uma aula de arte, humildade e simplicidade.


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