a complexa simplicidade

Nem tão óbvio assim

Luiz Iasbeck

Jornalista, publicitário, semioticista, passo a vida buscando outros sentidos para os sentidos. Sinto muito: trabalho, leciono e adoro uma acalorada polêmica. Filosofia, antropologia, psicologia, semiótica e comunicação são meus pratos preferidos.

Fundamentalismo Gourmet

O fundamentalismo é um exagero. Não está apenas nas hipérboles da fé religiosa, como é comumente conhecido. Está também nas exclusividades ideológicas presentes nas preferências do paladar e nos rituais gastronômicos. A liturgia da gula moderada e sutil tem o poder avassalador de assumir o comando de uma série de outros comportamentos afins e derivados, sequestrando o prazer para um cativeiro de exclusividades compartilhadas por poucos e bons.


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O fundamentalismo não é outra coisa senão essa obsessão de justificar tudo o que acontece e de explicar todos os fenômenos a nossa volta com uma única ideia fixa, uma única e inflexível ideologia.

São fundamentalistas os torcedores fanáticos de times de futebol, os partidaristas políticos que não conseguem se desgarrar dos slogans do partido, os religiosos fanáticos, os que se dedicam com obsessão incomum às causas das minorias e ao combate aos crimes da moda, os excessivamente corretos e os demasiadamente transgressivos.

Por que não o seriam também os vegetarianos, veganos, crudívoros, frugívoros e, nos casos mais extremos, os freeganos, aqueles que só comem o que se encontra no lixo?

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Nessa conta entram também os vini-fundamentalistas, aqueles que se acreditam enólogos e não poupam as ridículas metáforas para antromorfizar o vinho: jovem, agressivo, instigante, agregador, inusitado, afinado, amável, denso, elegante, flácido, nervoso, velho, novo, sujeito a oscilações de humor.

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E os risíveis risofundamentalistas, que se reúnem em confrarias nas quais trocam receitas de risotos e levam uma vida arbórea entre salsas picadas e folhinhas de alecrim?

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Agora, se seu amigo chama macarrão de “pasta”, é bem possível que ele esteja entre os fundamentalistas da mama, que não dispensam um clima de Toscana no almoço ou no jantar, esbaldando-se al dente entre molhos aveludados de champignon e lascas de queijo de Parma.

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Entre a intelligentsia dominam os francamente francos. Facilmente reconhecíveis, não dispensam croissante brioches, vol-au-vent, degustados em aguçados biquinhos e reaquecidos em gargantas protegidas por delicados cachecóis, lançados assim informalmente sur les epáules. Uma vida P&B inspirada nos retratos de Doisneau.

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Em todos os casos, a questão não é tanto o gosto.

O paladar, o mais íntimo dos sentidos - e talvez o último a ser cogitado para adentrar o mundo digital -, continuará sendo por muito tempo o principal sentido da intimidade, o mais intenso e interno drive da percepção. Dessa forma, preservado no interior da boca, abunda em metáforas e poéticas palatais, quase sempre paliativas.

Daí para transbordar-se em ideologia e revestir-se de etiquetas e conveniências civilizatórias, o corpo guloso não precisa mais do que um gesto de admiração.

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O fundamentalismo é e sempre será uma hipérbole ... servida entre hipotálamos e imbróglios. Por que não?


Luiz Iasbeck

Jornalista, publicitário, semioticista, passo a vida buscando outros sentidos para os sentidos. Sinto muito: trabalho, leciono e adoro uma acalorada polêmica. Filosofia, antropologia, psicologia, semiótica e comunicação são meus pratos preferidos. .
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