a contrario sensu

O verdadeiro sentido está no seu contrário

Vanessa Schnitzer

A capitalização do supérfulo

A sociedade hoje em dia encontra-se povoada por seres desprovidos de alma e consciência, que se esvaziaram de si mesmos, da sua verdadeira personalidade, para responder a solicitações externas. Ao individuo, que lhe é prometido um conjunto de ideais inalcançáveis, acaba desprovido da sua saúde, auto-estima, sentimentos, para se tornar objecto de exploração, anónimo e sem alma. O homem de hoje, substituiu o pensamento pelo preconceito, a razão pelo mito, a tolerância pelo fanatismo.



"O eu integralmente capturado pela civilização se reduz a um elemento dessa inumanidade á qual a civilização desde o inicio procurou escapar" ( Fábio Goulart)

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A sociedade hoje em dia encontra-se povoada por seres desprovidos de alma e consciência, que se esvaziaram da sua verdadeira essência para se revestirem de preconceitos, mitos e tabus.

Aquilo que é natural e autêntico, passou a ser encarado como mera ilusão. A verdade aparece reconvertida num simples manto para servir o espectáculo teatral. A " teatralização" e "espectacularização" das sociedades, veio transformar as pessoas em meros actores, e suas respectivas vidas em cenas e actos, que procuram se mover no palco teatral da vida, cuja relação que se estabelece entre eles é feita em função da imagem.

O homem na peça, passou a ser encarado como ser-objecto, cujo valor é medido em função da sua capacidade de entreter os outros, ou no sentido mais lato, de servir interesses alheios. A desumanização do ser, daquele que é desprovido da sua simples condição humana, dos valores inerentes à sua personalidade para se transformar num simples objecto-mercadoria, passa a ter uma função é simplesmente utilitária-, como aquele que morre, é encarado como objecto de entretenimento televisivo; aquele que fica desempregado passa a ser objecto de estatística e aquele que se voluntariza passa a ser cobaia de um estudo.

A mercantilização das relações humanas, a par do processo de "coisificação" do homem, veio alterar a nossa percepção do mundo; veio reduzir a realidade social ao quantificável", em que as pessoas são simples coisas que se movimentam no palco teatral da vida, sob o jugo do domínio impiedoso do poder abstracto do capital.

O homem que passou a ser encarado como um numero, é avaliado em função da quantidade daquilo que produz, com o intuito de alimentar os interesses do capitalista burguês, que fica com os lucros. O empregado é pago para produzir mais, mais e mais, para assim, servir os interesses de uma sociedade de consumo, em que o individuo se transforma naquilo que usa e o seu valor naquilo que compra. " o feitichismo da mercadoria".

Esta realidade, ajuda de certa forma à compreensão do processo de banalização dos valores fundamentais, que são o cimento de uma civilização, os pilares da cultura social. De tal modo, que a sociedade, desprovida dos seus valores, está doente; debilmente sustentada pelo espectáculo alienante de um mundo, dominado pela cultura do supérfluo.

Há cerca de 200 anos, o visionário filósofo Klinger, lançou uma profecia:" a ruína da humanidade residirá na criação das necessidades". Esta espécie de "milagre económico", capaz de converter o supérfluo em necessidade, é o motor que faz girar a nossa economia, ou seja, a criação das pseudonecessidades, animada pelo espírito de lucro, transformou-se no valor mais elevado da sociedade.

O novo paradigma da economia, que veio controlar as sociedades, através do programa da obsolescência programada, em que as coisas não são feitas para durar-, vem explicar o processo de transição de valor durável para valor instantâneo, submetendo as pessoas a um consumo desenfreado, para responder à lógica do "quanto mais melhor".

A materialização das consciências vem justificar a banalização de uma época, muy fielmente e retratada na célebre " civilização do espectáculo" de Mario Vargas Llosa.

" Quando o supérfluo é visto como necessário, deixa de ser necessário falar em supérfluo".


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