a contrario sensu

O verdadeiro sentido está no seu contrário

Vanessa Schnitzer

Rochas, o Sabor do Vinho


O chamado terroir “ o sabor do lugar”, é o que transmite à vinha a sua tipicidade, a sua identidade, a força do seu carácter. A geologia contribui de forma decisiva para o factor "ambiente natural", dado que influencia fortemente todos os componentes do terroir. De tal forma, que sem geologia não há a compreensão do vinho que temos na garrafa. Mais concretamente, sem geologia não existe terroir, e sem terroir não há vinho. A grande geodiversidade, característica do nosso território, explica naturalmente a ampla variedade de vinhos que existe de norte a sul do País, que opõe o fresco, aromático e efervescente vinho do Minho com o vinho robusto e encorpado dos vinhos do Alentejo.


Não é por acaso que a ligação entre a implantação das vinhas das diferentes castas produtoras de vinhos em regiões demarcadas e o contexto geológico e geográfico tem merecido a atenção de um número cada vez maior de autores.

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Na verdade não é possível separar a viticultura do contexto geológico que a originou, como em tudo no território. São variáveis que estão indissociavelmente ligadas e que não podem ser analisadas isoladamente. O que nos convida, ou até mesmo obriga a falar em “enogeodiversidade”.

Como sabemos a geologia de uma determinada região exerce uma profunda influencia sobre topografia e os solos que se exprimem à superfície terrestre. A geodiversidade é pois um factor indissociável do sucesso de todos os sistemas agrícolas, e que assim influencia a adaptação de uma casta a uma determinada região e ao mesmo tempo permite controlar a respectiva produção e qualidade.

A enorme variabilidade geológica de Portugal associada às condições naturais como o clima e o desenvolvimento de determinadas espécies naturais, concretamente as diversas variedades de videiras, são as características necessárias para o desenvolvimento de uma agricultura destinada à produção de vinhos de qualidade. São estes parâmetros que estão na base das “artes do vinho”, que constituem uma prática ancestral em França e que originou o terroir. Falar de terroir é falar de topografia, orografia, pedologia, drenagem, clima e microclima, condução da vinha, castas, porta-enxerto, intervenção humana, cultura, história, tradição etc., mas antes de tudo de geologia. O que significa que qualquer alteração num destes parâmetros terá um impacto enorme no perfil sensorial do vinho.

Alguns enólogos defendem que a geologia da vinha é responsável pelo carácter do vinho a partir de uma área em particular, por exemplo, "o solo dá a um vinho a sua tipicidade" (M. Rolland, em Alegria). Como é possível fazer a descrição de uma vinha, sem atender à sua geologia? Como é que se transmitem as notas aromáticas de mineral (xisto, barro, calcário, talco…) se não for através da sua base geológica? Como se expressa a força do terroir?

A geologia contribui de forma decisiva para o factor "ambiente natural", dado que influencia fortemente todos os componentes do terroir. De tal forma, que sem geologia não há a compreensão do vinho que temos na garrafa. Mais concretamente, sem geologia não existe terroir, e sem terroir não há vinho. Segundo Hugget (2006), são os factores derivados da geologia, e não as próprias rochas das unidades litológicas onde as vinhas estão implantadas, que determinam a qualidade das vinhas e do vinho produzido. "Infundido no vinho está um certo goût de terroir, uma amostra do solo" (Kramer 2008). O terroir consegue transferir para o vinho um gosto único e próprio, com carácter vincado e uma forte individualidade; transmite à videira e por consequência ao vinho produzido numa região características únicas, naturais que expressam a personalidade de cada variedade de uva de uma determinada forma. É o que explica o seguinte fenómeno: uma mesma uva plantada em terroirs diferentes, origina vinhos completamente diferentes. No limite enraíza um jogo intuitivo entre história, cultura e ciência. Comprova-se uma relação muito estreita entre o vinho e as rochas através do solo; é esta umbilical relação que leva a que alguém tenha dito um dia que o terroir é o sabor do lugar. A influência da rocha sobre a cultura da vinha também se faz sentir de outras formas, que terá servido de inspiração para a famosa citação de Dick Erath, um terroarista convicto:”80% da qualidade do vinho deriva da vinha, enquanto apenas 20% advém da adega.

António Correia na Universidade de Évora, vai ainda mais longe, procura determinar a correlação entre a resistividade eléctrica do substrato e a qualidade da uva, com resultados bastantes conclusivos; quanto maior é a resistividade menor é a qualidade da vinha. De forma simplista, talvez seja por esta razão que Scott Burns, nos diz que uma boa vinha exige alguma pobreza pedológica.

A grande geodiversidade, característica do nosso território, explica naturalmente a ampla variedade de vinhos que existe de norte a sul do País, que opõe o fresco, aromático e efervescente vinho do Minho com o vinho robusto e encorpado dos vinhos do Alentejo. É por esta mesma razão que um território tão pequeno “suporta” a enorme variedade de castas que todos conhecemos e ainda a boa receção de castas importadas. Importa realçar o caso particular da enogeodiversidade do Alentejo, uma região que se singulariza pelas múltiplas personalidades e pelas diferenças notáveis entre as sub-regiões, que assentam num rico e variado substrato geológico, que inclui uma diversidade de manchas pedológicas nas quais as vinhas estão instaladas. O que justifica o extraordinário e rico património vínico desta região, que se deixa representar, não só pelas inúmeras variedades clássicas alentejanas, como pelas castas portuguesas vindas de outras regiões e variedades estrangeiras que mostram aqui uma perfeita adaptação.

O professor Galopim de Carvalho, brinda-nos com vários exemplos: Vinhos da Bairrada em solos areno argilosos; vinhos de Borba em solos evoluídos derivados de rochas-mãe calcárias (terra rossa), de cores avermelhadas vinhos de Bucelas em solos derivados de margas e calcários; vinhos de Carcavelos em solo esquelético sobre calcário; vinhos do Cartaxo em solos aluviais; vinhos de Colares em solos de areia; vinhos do Dão em solos não evoluídos ou esqueléticos, praticamente reduzidos à capa de alteração do granito; vinhos de Estremoz em solos evoluídos derivados de rochas-mãe calcárias (terra rossa), de cores avermelhadas; vinhos de Évora em solos não evoluídos ou esqueléticos praticamente reduzidos à capa de alteração do granito, etc. Um bom desafio, por exemplo em Estremoz, será compreender e associar, os diferentes tipos de vinhos às subtis variedades de substrato carbonatado, com mais ou menos magnésio. A enogeodiversidade é pois, mais um capital natural que urge estudar e que se apresenta como excelente “candidato” à promoção do território, através da criação de itinerários temáticos envolvendo a geologia e a cultura e economia ligadas ao vinho.

Um longo, mas promissor, caminho a percorrer.


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