a delicadeza do tempo

As horas são lentas. Passa mais um café.

Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo.

Artistas da Própria Felicidade

A normalidade é apenas a repetição de qualquer coisa ao longo de muito tempo. Precisamos dar licença artística à criação da nossa própria história para que sejamos felizes em uma sociedade que nos impõe tantos padrões.


Nascemos ridículos e artistas. A sociedade é que nos interrompe.

Os rigores sociais exigem que sejamos seres circulares, de gestos calculados e ideias parecidas: quanto mais previsíveis e obedientes, melhor aceitos. Esse modo de ser rebanho nos torna realmente livres e felizes ou apenas nos empurra ao longo de uma linearidade tediosa? Os membros dessa última teoria – a vertente dos entediados – chamam-se artistas.

Andy.jpg Cow (Andy Warhol, 1966)

As crianças, como os artistas, estão sempre imaginando enredos para viver. É assim que mais facilmente acessam a beleza dos instantes.

Depois, os familiares, os professores e as pessoas todas começam a insistir na observância do padrão. O padrão é algo muito chato que, provavelmente, originou-se da urgência histórica de organizar o mundo. Com o tempo, perdeu qualquer sentido em uma obsessão tediosa pela normalidade.

O padrão também é um instrumento utilizado para machucar e segregar as pessoas que estão à sua margem.

Apesar de bastante estimada, a normalidade é a repetição de qualquer coisa ao longo de muito tempo. É apenas este seu fundamento de validade: a repetição. Ser uma cópia circular de si mesma.

Transformados em adultos sérios, precisamos recorrer a artifícios como o álcool para revisitar a alegria espontânea que nos foi constrangida no processo de amadurecer. Procuramos boas desculpas para o ridículo, mas jamais sentimos necessidade de questionar nossos comportamentos monótonos.

Adultos são pessoas que têm vergonha de existir. Estão sempre desconfortáveis, deformando-se para caber em moldes pré-fabricados. Se nem todas as pessoas do mundo podem ser consideradas infelizes, é porque nem todas as pessoas do mundo são plenamente adultas sempre.

Um dos grandes meios que a psicologia encontrou para obter a verdade das crianças é através de brincadeiras e propostas lúdicas. Pela criatividade, expressamos quem somos. Do contrário, reproduzimos um mundo pronto e alheio; marchamos os percursos ensinados.

Nas rédeas de um planeta triste, a criatividade é desmerecida pelo nome de “ridículo”.

A arte exposta nos museus e estudada nos livros não é nada mais do que o ridículo reconhecido pelos museus e pelos livros. É o ridículo permitido.

Pessoas extremamente inteligentes não necessariamente são ridículas; inteligência pode estar mais associada à capacidade de deduzir coisas a partir dos padrões do que de experimentá-los do avesso. As ideias geniais, no entanto, ironizam os padrões e têm a força de reinventá-los; sabem que o padrão é um impostor e propõem sua desconstrução. A arte é um golpe de estado: no caso, um golpe ao estado vulgar das coisas.

Não que a arte deixe de ter significado. Longe disso. Ela ocorre pelo exercício da metáfora. A atribuição de um significado através de metáforas é uma fuga da realidade concreta. Escapar ao óbvio define o ridículo.

Só podemos explicar o mundo por analogia. Até mesmo quando pretendemos gravar um acontecimento exatamente como ocorreu, estamos inventando nosso ponto de vista, nosso ângulo, nosso enquadramento, nossa iluminação. Focamos naquilo que nos é pessoalmente importante, imprimindo nossos valores e ideias.

Comunicar a verdade não é nada mais do que aproximar-se dela através dos meios de que dispomos, incluindo-nos fatalmente no processo. Comunicar a verdade exige sempre alguma dose de criatividade, pois somos incapazes de empacotá-la, guardá-la nos bolsos e distribuí-la por aí como algo colhido sem contaminação, alheia a nós. Podemos apenas contá-la com nossa linguagem, memória e visão.

Talvez os livros de autoajuda mintam quando dizem que você pode ser o que você quiser, basta querer. O mundo é violento com aquilo que escapa da sua linearidade cultural. Detesta o que escapa ao normal porque é imprevisível e pode perturbar alguns interesses. Talvez essa liberdade de ser o que se quer garantida pela Constituição Federal e pelos livros de autoajuda se aplique apenas a alguns poucos. Se é que se aplica.

Talvez você não possa amar livremente quem você quiser sem sofrer as retaliações de uma sociedade homofóbica. Se você for mulher, talvez as pessoas simplesmente não queiram ouvir suas ideias. Se você for uma mulher ou um homem transexual, talvez as pessoas rejeitem até mesmo sua existência.

Talvez você encontre obstáculos intransponíveis por causa da sua cor. Afinal, vivemos a ilusão de que o racismo, à exceção de manifestações pontuais, não existe mais, o que é um modo de sustentar indefinidamente uma sociedade racista. O racismo atua impunemente sob as leis e a publicidade oportunista a prometer que “somos todos iguais”, quando a questão justamente é: não somos. Fática e historicamente, não podemos ser. Não passamos pelas mesmas coisas.

Talvez a uniformidade não seja sequer nossa intenção. Ou não deva ser. E se formos todos diferentes mesmo? E daí?

O direito de sermos respeitados em nossas diferenças é que deveria estampar camisetas. O direito de sermos – cada um a seu modo – artistas da própria história.

Portanto, para uma sociedade defeituosa e excludente, você talvez não esteja entre aqueles que podem realizar livremente sua própria personalidade pelos meios convencionais. Talvez você acabe vivendo apenas dentro de si mesmo, escondido.

Mas você pode ser artista. Você sempre pode ser artista. A liberdade artística é sempre uma liberdade possível.

Magritte The Lovers.jpg Os Amantes (René Magritte, 1928)

A arte, em essência, não marginaliza ninguém, justamente porque toma forma pelas mãos do próprio artista, com a anarquia de seus moldes. É imaginada através das desconformidades com o mundo que lhe prescreveram e se manifesta por meio de sua linguagem própria. Não necessariamente letras, pincéis ou acordes: qualquer meio que afronte e reinvente o fluxo óbvio das coisas.

O reconhecimento desta ou daquela arte em prejuízo das outras, isso sim pode ser muito excludente. É o modo pelo qual o mecanismo social defeituoso tenta impor novamente seus padrões daquilo que é bom e presta. Não é culpa da arte em si – é o reacionarismo do padrão.

A arte é uma tela vazia onde o artista inventa as regras, o que é uma forma de livrar-se delas. Você pode, inclusive, descartar a tela e assinar um mictório, como fez Duchamp, apenas para explicar a falta total de perspectiva durante a guerra.

Na arte, é sempre lícito criar coisas de modo a aplicar-se nelas, protegendo-se da brutalidade do mundo através da metáfora. Consciente de que não conseguimos dizer exatamente a verdade, a arte nos liberta ao propor que, afinal, não digamos necessariamente a verdade. Artista e intérprete têm culpa concorrente no resultado da obra. Por isso, a arte é a mentira mais franca e verdadeira que existe. E é também uma maneira de comunicar a vontade de mudança.

Precisamos dar voz aos artistas, deixá-los contar suas verdades e desconformidades, o que sentem, o que imaginam. Necessitamos da arte para desestabilizar as coisas tristes e feias. Através dela, reinventaremos o mundo antes que nossos dias pareçam uma eterna reunião de negócios – com o perdão da metáfora.


Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Gabriela Richinitti