a delicadeza do tempo

As horas são lentas. Passa mais um café.

Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo.

E se desconsumíssemos o mundo?

Estabelecemos um contato muito superficial com tudo o que nos cerca. Obedecemos ao imediatismo do mundo sem que seja lícito se demorar sobre a verdade das coisas. Quais os efeitos dessa ânsia pelo consumo em nossas vidas?


Experimentamos uma ânsia por otimizar. Tornar o mundo acessível. Prático. Funcional. Instantâneo. Econômico.

Através desse pacote nervoso de palavras, medimos o valor daquilo que compõe nossa existência. Da informação à comida. Da produtividade ao contato com os outros.

Parece que, quando o ser humano percebeu que não podia ser eterno, quis fazer caber na sua finitude o conteúdo da eternidade.

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Suprimimos a tese (o parto das ideias) e a antítese (a instigação e a dúvida) e nos limitamos aos resultados sintéticos. Concebemos fórmulas para aromatizar frutos vazios, que não cultivamos, mas consumimos massivamente.

Ganhamos em extensão o que perdemos em profundidade. Estabelecemos uma relação horizontal com o que nos cerca. Deslizamos sobre os dias e as ocorrências sem que seja lícito se demorar.

Temos rasa informação sobre muita coisa. Sabemos pouco a respeito de tudo. Alimentamo-nos de conceitos e manchetes e não nos interessamos muito pelo processo de fabricação das ideias. Curtimos e compartilhamos, mas já não criamos nosso pensamento autônomo, porque pensar é uma atividade improdutiva.

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As crianças não podem questionar. Medicamos as crianças para que não questionam, pensem ou sonhem. Administramos ritalina, a droga da obediência, para potencializar a submissão dos cérebros.

É mais conveniente à máquina formar zumbis pacificados e atentos, devoradores de sínteses pré-fabricadas. Afinal, a nova concepção de sociedade não precisa de nada além de burocratas e operadores de engrenagem. E de muitos consumidores para seus frutos vazios.

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Imprescindível que haja muitos consumidores dispostos a financiar a ridícula obsolescência planejada dos aparelhos e famintos por engolir os alimentos ultraprocessados. Engordamos nossos corpos e cabeças à míngua dos nutrientes mais elementares – sobrevivemos, apesar da fome oculta que nos atrofia até desumanizar.

Podemos falar de qualquer coisa, pois todas as coisas têm a mesma fórmula. São frutos vazios da mesma árvore, apenas aromatizados e tingidos para que pareçam variados e suculentos. Podemos falar da alimentação e podemos falar do amor.

A consequência das comidas ultra – ultraprocessadas, ultrarrápidas e ultrapalatáveis – é a disseminação de doenças crônicas não transmissíveis. Nos últimos anos, inventamos as crianças obesas, hipertensas e diabéticas. Crianças que não têm instrução nem dinheiro para comprar na feira orgânica. Crianças esfomeadas pelo consumo desde muito cedo, vítimas de uma publicidade brutal que marginaliza ao mesmo tempo em que incita.

Crianças que adoecem e entristecem massivamente na sociedade de massas - há uma coerência. Crianças sem nenhuma liberdade de escolha na Era da Liberdade - há uma incoerência.

Porque esse planeta que inventamos é ambíguo em suas misérias e gozos.

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De tudo temos um bocado, mas andamos na contramão da transdisciplinaridade – nossos conhecimentos não se tocam. São visões míopes e metidas em caixinhas.

Há muitos doutores de causas minúsculas. O botânico que esmiúça em artigos científicos o bater de asas da borboleta no dia seguinte lê com assombro a manchete sobre um tufão do outro lado do mundo. Não conecta causa e efeito, pois tudo é efeito. Tudo se exaure no instante, é descartável. Nada mais se constrói desde o fundamento.

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Há aplicativos de celular que promovem a otimização do amor, na tentativa de adequá-lo à dinâmica econômica dos nossos dias. O amor é subversivo porque nos fornece sentidos maiores do que produção e consumo.

O amor é, por essência, bastante inútil e inconveniente; demanda a construção da empatia e uma dedicação retrógrada, que já não podemos dar a ninguém em especial. É um fenômeno bonito, apesar de imperfeito; e a imperfeição rompe com a metódica eficiente com que gerimos nossas vidas. Estamos massivos e economicamente apressados.

O ser humano desenvolve um mundo que o torna obsoleto. Um mundo cujo fim último é tornar o próprio ser humano supérfluo e desprezível. O ser humano comporta-se como um ser autofágico.

Nas redes sociais, somos também produtos embalados e expostos. Falta-nos coragem para abordar a verdade crua das pessoas e explorar a nossa própria. Estamos vexados por sermos tão falíveis, miúdos e carnais. Sentimo-nos feios e ridículos – humanos em demasia.

Esquecemos que a perfeição é uma exigência que só deveríamos fazer às máquinas e aos cálculos matemáticos, que precisam responder com alguma previsibilidade aos nossos estímulos e questões.

As colunas e matérias dos jornais e revistas emagrecem para se adequar à dinâmica do conhecimento anoréxico. Valorizamos cada vez mais as opiniões Twitter, que rolam diante dos nossos olhos metidas em 140 caracteres.

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Instruídos que estamos a combater aquilo que ousa questionar os enunciados, ficamos impacientes com o que escava perigosamente a superfície das sentenças em busca de sua seiva.

Pois, para o cidadão de sucesso, para o concurseiro aprovado, para o bom burocrata, basta a síntese: um apanhado de verdades inquestionáveis. Um resumo metódico do funcionamento do mundo.

O quão devastador seria para essa lógica se, às vezes, nos lembrássemos da existência dos livros? Se nos demorássemos um pouco sobre seus vários caracteres e ideias complexas? Se acolhêssemos a beleza singular do feio? Se construíssemos nossos frágeis monumentos à desordem?

Se rasgássemos as redes que nos aprisionam e libertássemos as pessoas que se encontram nelas emaranhadas?

E se desconsumíssemos o mundo?


Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo. .
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