a delicadeza do tempo

As horas são lentas. Passa mais um café.

Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo.

Nostalgia da Luz: a Memória do Cálcio

Em uma tarde chuvosa, assisti ao belíssimo documentário “Nostalgia da Luz”, de Patricio Guzmán, que mistura as estrelas do deserto à brutalidade do passado. E me encantei.


No deserto do Atacama, Chile, as estrelas parecem se oferecer às mãos como frutas maduras. A aridez da terra lava o céu da impureza das nuvens. É de lá que os astrônomos escavam o universo em busca das raízes da existência.

Entre os modernos telescópios que revolvem o céu, algumas pás domésticas reviram obstinadamente a areia há quase três décadas. Ao contrário dos cientistas, as mulheres do Atacama não estão em busca de corpos celestes. Estão em busca de corpos humanos.

Querem encontrar os corpos soterrados por um passado muito menos longínquo do que o passado dos astrônomos ou arqueólogos, que também convivem nesse território seco. As senhoras do Atacama consomem o que lhes resta de tempo e saúde à procura de seus mortos. Sabem que a brutal ditadura chilena, encabeçada pelo general Augusto Pinochet, enterrou maridos, filhos e irmãos. Mas onde?

No pacto de esquecimento do Chile, elas são a lepra a expor feridas que muitos preferem cobrir de silêncio. Varrem a vastidão áspera do deserto com suas frágeis mãos para enfrentar a dor que jamais poderiam extirpar do subterrâneo das próprias memórias.

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É esse o sumo e o cenário do belíssimo documentário “Nostalgia da Luz”, do diretor chileno Patricio Guzmán. Quando, às cinco horas da tarde de uma quarta-feira chuvosa, escapei mais cedo do trabalho e entrei na sala de cinema com outras cinco ou seis pessoas, não estava preparada para nadar na poesia interestelar de um tema tão pungente e sanguíneo.

A película nos conduz por suas dimensões como se estivéssemos a viajar pelo universo; por noventa minutos, não pensei sobre onde estava fisicamente ou em quem eu sou, acidental na existência. De tanto ler poetas tristes, compreendi que a dor nada tem de antipoética, mas poucas vezes vi um enlace tão mágico de elementos que apenas aparentemente são inconciliáveis: esquecimento, estrelas, busca, tecnologia, obstinação, passado, ditadura, deserto.

O documentário nos mostra que o presente é intangível – e essa é uma verdade da ciência. Os astrônomos sabem que só podem compreender luzes que já ocorreram. O sol que sentimos na pele é o sol do passado, com oito minutos de atraso. Algumas estrelas que os telescópios nos permitem enxergar já estão mortas, consumidas pela escuridão. Nem mais existem. Os físicos do Atacama, como os arqueólogos e historiadores, estudam o passado.

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Em dado momento do filme, um cientista confessa que a verdade mais presente que temos é aquela que acontece dentro da nossa própria consciência, cujo alimento é a memória; quem a soterra perde a lembrança que nos distingue enquanto seres culturais, historizados, experimentados nos ensinamentos do tempo.

O documentarista – um contador de história, pois toda história é uma versão da história – remonta à pureza de sua infância no Chile, quando as galáxias cabiam em bolas de gude dentro de um bolso de criança. Uma inocência desterrada pela ditadura militar, que rasgou inúmeros laços e quis (e, ao que parece, ainda quer) descosturar tantas pessoas, como se jamais tivessem existido nesse planeta.

As ossadas escondidas sob a areia do Atacama estão também sob a translucidez de seu céu e sob a lucidez das mulheres que nunca esquecem. Elas sabem que o desaparecimento não é uma solução, mas um problema. Como os físicos, têm fome de respostas, embora compreendam que suas perguntas se sucedem sem que jamais sejam plenamente satisfeitas.

Conhecidas como “a lepra do Chile”, as murchas mulheres que nunca esquecem foram instruídas na dor, não na ciência. É isso o que aparta seus métodos rudes – pás e músculos – das tecnologias empregadas pelos astrônomos. A obstinação pelas lacunas, no entanto, se parece muito; uma das senhoras afirma que gostaria de poder varrer o subterrâneo do deserto através dos aparelhos dos observatórios em busca do cálcio de seus amores sepultos.

Trata-se, no núcleo, de uma busca pelo cálcio. Pois o cálcio que compõe nossos ossos é o mesmo que esculpe as estrelas. A busca pelos corpos – celestes ou humanos - é uma investigação das raízes cálcicas da vida, estejam elas sob ou sobre a areia.

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Saí às lágrimas do cinema – não muitas, não de tristeza, embora a história da ditadura seja uma história imensamente triste. É que ainda não aprendi a reagir de outra forma àquilo que me enleva profundamente. Não são frequentes as coisas que me comovem dessa forma, mas eu gosto que existam. Lembram-me de ser sensível na aridez dos dias. Afinal, não quero ser tragada pela garganta seca da inconsciência e não quero compor a fisiopatologia de uma sociedade que engole em seco suas dores.

Somos a delicadeza da vida ao passo que nos fizemos da grandeza das estrelas. O que temos de imediatamente nosso é a consciência. Sepultá-la é desaprender, arriscar-se a adoecer novamente das verdadeiras lepras que já nos fustigaram. A memória, por mais intragável que seja, é nosso único remédio.

A uma sociedade em que o andamento da história valseie sem tropeços com o progresso da técnica, não pode nunca faltar a nostalgia da memória. Os passos percorridos, mesmo aqueles tintos de sangue, não devem nunca ser apagados. Há sempre o perigo de que repisemos nossas feridas; para isso, devemos verter luz sobre os caminhos galgados, pois são os únicos que podemos acessar.

Como quem precisa digerir algo, quis voltar andando para casa. Protegida no abraço frágil do guarda-chuva, qualquer coisa disforme assomava à minha cabeça. Enquanto, na dobradura movimentada de uma avenida do centro, aguardava para atravessar, percebi que eram versos de Fernando Pessoa que emergiam do subterrâneo da minha memória:

"Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes. Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu".

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Chovia torrencialmente e havia muitas nuvens a sujar o céu, mas eu sentia as calçadas encharcadas como se fossem o solo desértico e as luzes da cidade como estrelas a desnudar-me o caminho. “Nostalgia da Luz” fez exatamente isso – conciliou coisas estranhas que convivem tão perto.

“Nostalgia da Luz” me encantou.


Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo. .
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