a delicadeza do tempo

As horas são lentas. Passa mais um café.

Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo.

Borgman: Um Holandês Mal Intencionado

Naquela madrugada, um holandês bateu à minha porta e pediu polidamente para entrar. Decidi convidá-lo a uma taça de vinho. E ele me insultou. Crônica sobre a estranha experiência de assistir ao filme "Borgman", de Alex van Warmerdam.


Eu adoro a sensação de terminar de assistir a um filme e pensar: “acabei de ver um brilhante filme esquisito”.

Aconteceu recentemente. Foi com “Borgman”, do holandês Alex van Warmerdam, diretor que eu não tenho a menor ideia de quem seja. Aliás, também não sabia nada sobre o enredo. Não lhe antecipei expectativa alguma.

A situação era peculiar. Eu tinha voltado de uma festa, mas não sentia sono. Servi uma taça de vinho e percorri a programação dos canais até descobrir que, nos próximos minutos, começaria um tal de “Borgman”, cuja enigmática sinopse dizia: “a compaixão pode ter graves consequências”.

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Conforme fui sendo experimentada pela proposta do enredo, percebi que aquela sinopse apenas prejudicava seu entendimento; rompia-lhe a atmosfera. Sinopses podem ter graves consequências.

De maneira nenhuma se tratava de uma história sobre compaixão. Não sei que telefone sem fio se estabeleceu até que restasse aquela frase de um simplismo pueril associada à sinopse de um filme tão descortês. “A compaixão pode ter graves consequências” não pertencia a “Borgman”, que consistia, antes, em uma investigação da culpa que subjaz à felicidade frívola da burguesia.

A história pode ser resumida assim: Camiel Borgman nos é apresentado como um sujeito barbudo e maltrapilho que vive no subterrâneo. Algumas pessoas, que parecem estar atrás de algo muito malvado, descobrem seu esconderijo e o obrigam a fugir dali. Ele avisa apressadamente mais dois homens, que também moram nesses buracos na floresta. E, então, bate na campainha de uma bela casa da classe média alta.

Um homem aparentemente normal – chamado Richard, casado, com três filhos – atende Borgman, que lhe pede um banho. Desenvolve-se um diálogo estranho entre os dois. O articulado sem-teto diz conhecer a esposa de Richard, mas Marina – a delicada esposa - assoma à porta e afirma nunca ter visto o sujeito. Subitamente, o filme nos desestabiliza com uma sequência em que Richard é tomado por uma raiva desproporcional. Ele espanca brutalmente Borgman na frente da mulher e volta para sua casa. Simplesmente aconteceu, explicará mais tarde - essas coisas acontecem.

Algum tempo depois, Marina encontra Borgman escondido em um quartinho construído nos fundos do terreno. Sentindo-se culpada pela surra protagonizada pelo marido, oferece-lhe um banho, aplica curativos em seus ferimentos e o abriga em sua casa. Mas age de modo a esconder a existência de Borgman do próprio Richard – o que não é muito difícil, pois Borgman é um morador tão sutil e discreto que, às vezes, ele mesmo precisa anunciar sua presença com um metafórico “estou aqui”.

Cada cena do filme causa-nos desconforto; Borgman é um inquilino desconhecido, mas íntimo. Marina não se vexa em entrar no banheiro enquanto ele toma seu banho. Embora reverbere a frase bíblica que estampa a curiosa abertura do filme - “E eles desceram sobre a terra para fortalecer suas fileiras.” -, o novo morador toma a liberdade de ir ao quarto das crianças para contar-lhes histórias em que Jesus simboliza o oposto da bondade.

O casal constantemente troca juras de amor e lealdade que soam artificiais, imitadas de alguma novela ruim. Nada parece ser de verdade – a relação dos pais com seus filhos é intermediada por uma babá submissa, incorporada à rotina como um mecanismo de evidente afastamento e impessoalidade. Borgman se revela um elemento tóxico ao contexto da família tradicional e esteticamente hígida: ele é o mal intencionado. Mesmo assim, quando anuncia sua partida, Marina insiste para que permaneça, seduzida por seus encantos.

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Ele volta, barbeado e arrumado, para ocupar uma vaga de jardineiro na casa. Richard – tendo descartado de imediato todos os candidatos negros ao posto - não reconhece o homem que, dias antes, surrou. Entre reformas no paisagismo, o malvado Borgman está definitivamente entranhado no núcleo familiar.

Mas ele não é um monstro horroroso; é um demônio polido e sensual, hábil em conquistar as pessoas. Aliás, nenhuma personagem pode ser reduzida a boa ou má, em evidente rompimento com o maniqueísmo herói/vilão de Hollywood. Suas vilezas são sutis e suas razões parecem, ao mesmo tempo, injustificáveis e naturais a quem observa de fora.

E o pior: as maldades de Borgman têm o consentimento de suas vítimas. Não raramente irrompem de sequências triviais, geradas no seio da própria família. Às vezes, Borgman apenas observa, sendo incomodamente impossível jogar sobre o inquilino toda a responsabilidade pelas terríveis consequências. Ele é um demônio convidado a entrar, a sentar-se à mesa, a tomar uma boa taça de vinho. Também não demonstra qualquer satisfação com seu destrutivo empreendimento, de modo que não conseguimos odiar ativamente Camiel Borgman ou nos enfurecer com ele. Sua maldade é burocrática, algo que somos levados a aceitar.

“Borgman” é o tipo de filme brilhante que chegará ao conhecimento de poucas pessoas. Para cada espectador que terá a oportunidade de compreender sua magnitude, haverá duzentos milhões de Minions ululantes reclamando, dia e noite, sua parcela de atenção nas esquinas.

A indústria cultural alimenta um mercado consumidor global, indistinto e despersonalizado. Conforme prolifera sua “ideologia da não-ideologia” - como se seus produtos alienantes atendessem aos anseios surgidos espontaneamente na sociedade -, consegue limitar muito nossas experiências críticas.

Na verdade, a sociedade é domesticada – e constantemente reinventada em seus sôfregos e descartáveis anseios – pela indústria. O discurso que vende a globalização leva a crer que ela promove nossa liberdade de escolha, quando é ela própria quem está escolhendo por nós: uma negação evidente da mais basilar noção de liberdade. E, nesse mecanismo, ficamos à margem das provocações que um brilhante filme esquisito pode nos propor.

“Borgman” deve ser visto, ainda que represente algo que não desejamos ver, temendo a identificação de nossas mazelas em cada cena.

Nessa noite, estava cansada – tão cansada quanto as crianças do filme, que, na primeira manhã de suas férias, simplesmente não conseguem levantar da cama. Queria nadar passivamente no marasmo dos canais até que o sono decidisse me visitar. Mas quem veio foi Borgman, íncubo parasita dos sonhos. Liguei a televisão em busca de entretenimento confortável e acabei injuriada por um holandês desconhecido. Bem feito.

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Sinopse da madrugada: o cinema (ainda) pode ter graves consequências. É bom mesmo que sejamos capazes de manter uma cultura perigosa e incômoda, que saiba provocar e nos atingir com seus golpes certeiros. É mais fácil cair em letargia sob os gritos estridentes dos Minions do que sob a delicadeza delatora de Borgman. Mas não queremos adormecer para a realidade, certo? Nem permitir que nossas perversidades fixem morada no subsolo da consciência, certo? Precisamos desentranhá-las, confrontá-las, questionar nossos civilizados demônios. Certo?

Na manhã seguinte, uma amiga me ligou para saber se eu havia chegado bem em casa depois da festa. Contei-lhe que tinha terminado a madrugada assistindo a um filme holandês muito estranho. “Gostou?”, ela perguntou. Eu o achei esquisito. Mas é incrível.


Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo. .
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