a delicadeza do tempo

As horas são lentas. Passa mais um café.

Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo.

Elena: a memória de que tudo nasce e dança

Em "Elena", Petra Costa recompõe os passos da irmã, recusando-se a transformar a ausência em esquecimento.


Elena era atriz. Suicidou-se aos vinte anos, em Nova Iorque.

Esqueceu-se um pouco no mundo – em impressões, lembranças, filmes, fotografias, cartas, diários. Mesmo nos desenhos do rosto e dos rumos da irmã, Petra, há algo de Elena. Esse acúmulo de existência, essa confusa mistura dos corpos, essas delicadas descobertas (inspiradas em fatos e sonhos) compõem a gênese de “Elena”, o documentário de Petra Costa.

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Uma história sobre três mulheres: as duas irmãs – Elena e Petra - e a mãe. A primeira falta ao mundo; as outras duas, um pouco menos. É que se confundem. Interpenetram-se, dissociam-se. Têm inclinações que se parecem. São três enredos a partilhar uma linguagem única, articulada pelo enleio das vozes que narram e confessam Elena.

É um filme de fronteiras borradas. Na primeira cena, Petra confunde-se com a irmã. Essa impressão vai permanecendo. No sonho de Petra, as duas se alternam; Elena está sobre um muro, emaranhada aos fios elétricos. Petra percebe que é ela que está ali. Sofre o choque. E morre.

Os fios são vínculos que as misturam e cordas que as amarram à dor. O choque é a tomada de consciência da melancolia que as perpassa. A eletricidade é o matiz de líquido azul sobre o qual se costuram as cenas.

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Onde todas as margens estão borradas, Petra confronta o suicídio da irmã mais velha. Recompõe os passos da atriz mineira à medida que a desenterra de si. O documentário recria Elena, mas também desentranha a Elena que subjaz à irmã e à mãe.

Elena é como um rio onde não se dará pé jamais - uma dor que não seca. Algo que deve passar, mas permanecer contido em si. Nosso corpo é como um endereço a que sempre podemos retornar. Na confusão dessas águas, a hipótese do afogamento assombra. Petra aprende a mergulhar; desce às profundezas, volta à superfície. Torna-se Elena. Descobre a irmã. Reafirma-se Petra.

Inútil querer ancorar em uma verdade sólida. É um documentário baseado nos fatos, o que não lhe desnatura a franqueza. Para contar uma história, precisa-se eleger um discurso – e esse discurso não exaure uma pessoa. Aqui, Elena é o desdobramento de sua tristeza.

Verter palavras e imagens sobre o suicídio, na nossa cultura, significa dialogar com o absurdo. Documentar a vontade de morrer e dar forma a uma ausência exige insculpir a delicadeza naquilo que é de todo brutal. Muito pouco se diz sobre o indizível; raras vezes se alcança o esplendor de “Elena”.

Os noticiários mais corajosos nada dizem sobre a vontade de morrer. Falam muito de homicídio, porque o medo que sentimos diante do assassinato faz reverberar nosso mais carnal apego à vida.

A vida humana é um totem inviolável; a estatística dos homicídios, vendida pelas grandes mídias como um monstro a crescer e ganhar terreno sobre nós, instiga o pavor. Tememos a desconstrução do totem sagrado que foi concebido à nossa imagem e semelhança (inegável que a estatística do assassínio tem uma estética bastante definida).

Matar é notícia; matar-se não é. Não pode ser. É um longo e absoluto silêncio.

Mas, em “Elena”, encontra na poesia um modo de delatar-se.

Se a vida humana é o totem, o suicídio é o tabu. Desejar morrer é um silêncio sepulcral que envenena o tempo. Dessa atmosfera tóxica emerge a pureza de “Elena”.

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Somente algo que doa aos rebordos da dor suportável faz-nos atravessar os temidos limites para que confrontemos o elemento perigoso. Petra precisou desentranhar de si o que a amedrontava na irmã. Recusou-se a esquecê-la, a soterrar o inevitável da lembrança. Uma das maiores violências que podemos fazer a alguém é o esquecimento.

No processo, Petra e a mãe se confundem com Elena, e o documentário se torna uma confissão. Ela é o magnetismo para o qual as três mulheres – no limiar do desespero – convergem. É uma fronteira cruzada: quando Petra completa vinte e um anos, a mãe compreende que a filha sobreviveu à irmã.

São três mulheres a confessar, em uníssono, a perplexidade diante da morte. Morte que presenciam, experimentam e sentem.

“Elena é assim”, desconversa Petra, ainda criança, à amiga que lhe estranhou o olhar; eram olhos machucados, vermelhos. Elena estava na cama, deitada, apenas o rosto de fora. Ela era assim, triste.

O filme não se demora sobre as razões. “Razões? Tantas, que seria ridículo mencioná-las”, escreve Elena. Não questiona por que Elena quis morrer, por que Elena era triste. Não culpa a sensibilidade artística da dançarina, atriz, lírica Elena. Não tenta forjar um mártir incompreendido sobre o rosto ferido, prostrado – e, às vezes, sorriso – da menina ausente, mas que tão fortemente permanece nas outras. Não se trata de um documentário a higienizar o ato, a desconstruir os motivos da morte, a solidificar em moralismos o indizível. Sua beleza funda-se na ausência - de razões, inclusive.

Em um poema muito bonito, a escritora estadunidense Anne Sexton sintetiza em metáforas a vontade de morrer:

“But suicides have a special language. Like carpenters they want to know which tools. They never ask why build”.

Algo como:

“Mas os suicidas têm uma linguagem especial. Como os carpinteiros, eles querem saber quais as ferramentas. Eles nunca se perguntam por que construir”.

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Elena é a irmã mais velha de Petra. Entre duas irmãs, naturaliza-se esse jogo de espelhos: na mais velha, projeta-se o futuro. São os desenhos do rosto, os contornos do corpo, a cor dos cabelos. O modo de olhar. As expectativas. Os sonhos. Os medos. Os medos.

Petra, ainda criança, prometeu que nunca mais se olharia no espelho. Violou sua promessa: concebeu um documentário no qual precisou ver-se refletida inúmeras vezes.

Elena não gosta de sua caligrafia. Elena não gosta de seu corpo. Elena repete à exaustão uma cena que, aos demais atores, parece completa. Não se sente perfeccionista, mas defeituosa. Critica-se o tempo todo. Explica que, dentro de si, mora um ser que a odeia.

Talvez esse ser que odeia viva dentro das outras duas mulheres também. Talvez esse ser odeie todas as mulheres, e todas as mulheres precisem derrotá-lo todos os dias - em solidão, em silêncio. Aí o particular de Elena transborda o documentário e se estende sobre a condição de ser – tornar-se, fazer-se, performar-se – mulher. A cultura dominante coloca a mulher como objeto de conflito, mas a silencia enquanto sujeito, um íntimo cerzido sobre seus próprios conflitos e complexidades.

Conforme Petra recompõe a irmã, traz à luz a verve comum a habitar os corpos das três. Se ela e a mãe permitem que Elena germine, precisam morrer junto a ela.

Sabe-se que o coração de Elena – que pesava 300 gramas à hora da morte – não suportou a gramatura imponderável da existência. Sufocou no processo de afirmar-se. Mas e o da menina Petra, aos sete anos, quanto passou a pesar?

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A avaliação psicológica informa que Petra evitava falar sobre a irmã. Começou a dizer que queria morrer. Uma criança que quer morrer é excessivamente errado. Ela usa estratégias de enfrentamento para escapar à dor que lhe dilacera – estratégias de enfrentamento que, mais tarde, usaria para compor o documentário a que assistimos.

O tempo passa; Elena não passa.

Ao transgredir o tabu de morrer, Elena - perigosa e transmissível - transformou-se no próprio tabu. Como o objeto inviolável de Freud, Elena se apresenta às mulheres com sentidos dicotômicos: sagrada e proibida, amada e temida. Contagiosa e magnética.

Petra pode morar em qualquer lugar do mundo, menos em Nova Iorque. Pode escolher qualquer profissão, menos ser atriz. Pode ser tudo na vida, menos Elena. São as singelas exigências da mãe, machucada pela perda da filha; mas é um pedido impossível.

Na hora do vestibular, Petra escolhe ser atriz. “Queriam que eu te esquecesse, Elena”.

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À superfície da liquidez imagética de “Elena”, sobrenadam alguns fragmentos em que as três mulheres se agarram. Pois em três elementos revelam a coragem de encenar a existência: na paixão, no amor e na arte. Esses três elementos – que dialogam - as conectam indissociavelmente à vida. A gravidez salva a mãe de morrer durante a ditadura militar; o amor por Petra, mais tarde, permite que ela suporte a perda de Elena. É na arte que a própria atriz sublima a dor de existir - “se eu não consigo fazer arte, melhor morrer”. É a insustentável decomposição dos sonhos e ideais artísticos que a conduz ao seu desfecho trágico.

O substrato sobre o qual o documentário assenta sua beleza tem uma feição clandestina. O suicídio é um assunto clandestino. Nas transições do tempo, as mulheres inventam-se clandestinamente. Elena foi uma garota clandestina. Durante a infância, precisou se mudar de Minas Gerais e fingir que não existia, porque seus pais se opunham à ditadura militar. Na juventude, experimentou o desejo clandestino de não existir. Tornou-se um silêncio, uma dor constrangida, algo que ameaçava repetir-se na mãe e na irmã.

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Em um filme caseiro, Elena conduz o luar pelo céu de carvão. “Estou dançando com a lua”, ela diz. Fica dançando com a lua, fazendo-a percorrer o escuro. Ali, parece vibrar o magnetismo que chama a dançarina - que gira em torno de si – à lua - que gira em torno do planeta.

Lembra a história da Ismália, a mulher que se suicida no poema de Alphonsus de Guimaraens. Talvez a Elena de Petra, no sonho em que se perdeu, tenha apenas desejado banhar-se em luar.

* Todas as imagens do texto pertencem ao documentário.


Gabriela Richinitti

Gosto dos riscos daquilo que é de verdade. Escrevo cotidianamente para reter os dias, mas acabo reinventando tudo. .
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