SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas.

PAPEL DE CARTA

Quando éramos crianças, colecionávamos papéis de carta. Hoje não nos lembramos mais da textura, nem do seu papel. Sua assinatura, as letras trêmulas que denunciavam quando o sorriso era máscara e não condição.


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Querida amiga, há quanto tempo não nos vemos!

Talvez possamos culpar essa estranha época de inquietação tecnológica que, ironicamente, só nos afasta mais um do outro. Penso não ser boa ideia compactar nosso carinho, iguais a tantos que se entendem apenas nas mensagens abreviadas pelos celulares. Ou talvez a culpa seja nossa e de nossos momentos de solidão, que também precisam de igual respeito.

Eu sei que você tem lido as coisas que escrevo e que, quase sempre, elas são tristes. Você me pediu palavras leves, capazes de trazer calma e felicidade para nossos dias e eu aceitei. Achei que seria capaz de escrevê-las e isso talvez tenha alimentado em seu íntimo, a falsa esperança de encontrá-las aqui. Peço-lhe desculpas; estou quebrando minha promessa.

Não posso escrever sobre as coisas lindas ou sobre os dias melhores que você tanto procura, pois ainda não os encontrei. Tampouco posso falar sobre a esperança que te faz assim, forte. E como poderia, quando, na realidade, tudo que faço é remendar os trapos que, uma vez mais, permiti fazerem de mim?

Há dias que nos enganamos, tomando a vida por mais colorida. Arriscamo-nos mais e caímos na cilada que é ceder, mostrando, para quem julgamos dignos de receber, nossos quinhões mais sombrios, impossíveis de orgulho, enquanto esperamos com os olhos atentos e cheios de fé, um abraço e um beijo livre de julgamento.

Querida amiga, se me permite dividir com você um conselho que me foi dado, é este: guarde tuas palavras. Não as diga de maneira nenhuma. Roa as próprias unhas se necessário, assim como tuas tristezas. Não as deixe soltas, na esperança de achar consolo em outras pessoas. É provável que ele já esteja escondido dentro em você, nos recônditos das coisas mais cotidianas, igual um café entre amigos. Espero que os encontre e faça deles teu porto seguro, serviço este que já foi prestado a você, um dia, pelo meu peito.

Eu sei que estas palavras lhe trouxeram melancolia, mas a vida é assim mesmo, não é? Vinicius de Moraes quem disse que a vida é triste e eu não ousaria desmenti-lo. Você sim?

Despeço desejando que todo bem invisível lhe alcance, mas, carente, peço também que envie de volta ao remetente, um pouco dessa plenitude.

Com carinho,


SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas..
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