SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas.

Porquê você não se encaixa mais aqui

Estou saindo de mim e sendo você, vendo através dos seus olhos.


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Estou saindo de mim e sendo você, vendo através dos seus olhos.

Estive doente. Quebrado, vazio... Mas volto no tempo e lembro que nem sempre fui assim; tive relações que me roubaram a vida. Aos poucos, parei de rir até me tornar uma casca pálida e sem vida. Um autômato acostumado e submisso. Escapei, às vezes, mas voltei sempre. Evoluí, mas me amarrei onde não devia e, sem forças pra desatar, preferi a segurança da morte às incertezas da vida.

Conhecer você foi um alívio. Deveria ser uma aventura, mas o toque foi bom e me lembrou, por instantes, como era estar vivo. Como era sentir a excitação de ser alguém capaz de excitar o outro. Vi a chance de abandonar aquela vida gasta que já não me servia. Você me deu, se não coragem, o estímulo pra escapar. Você me fez rir e fez com que me sentisse bem, e enquanto estive quebrado, mostrou interesse em me consertar. Nunca antes havia sentido isso; alguém que me valorizasse e me tratasse como sempre soube que merecia, então deixei que o fizesse. Isso assusta, confesso. E se for mentira? Afinal, já me expus tanto, já me enganei tanto, já sofri tanto...

Percebi, depois, a mea culpa por ter deixado fazerem pouco de mim. O controle era meu, mas permiti o roubo.

Isso me fez pensar como é ótimo estar com você, mas como também é a desculpa pra não me tornar a pessoa que devo ser. Não posso aceitar que eu não me baste. Minha vida, minhas regras, minhas rédeas. Nosso primeiro erro foi não entender a tempo, que nossos tempos eram outros, então seu cuidado me sufocou. Não que eu não quisesse ou desgostasse, mas queria me sentir capaz e quando você fez tudo por mim, tirou das minhas mãos a liberdade que tanto preciso. Não posso mais tolerar a amortização dos meus sentimentos e é por isso que você não se encaixa mais aqui. Do dia pra noite? Nunca. Ouvi palavras que me mostraram a urgência de minha necessidade.

Talvez um dia recomecemos de algum lugar novo, mas duvido. Você é a lembrança de que vivi em cativeiro e de que já estive morto. Talvez eu me aquiete, mas é certo que vou procurar alívio em outras pessoas até que, finalmente, encontre a paz que busco e sei que mereço.

Não sei não parecer egoísta. É uma escolha arriscada, mas não há nada mais arriscado do que viver para si mesmo.

Estou saindo de você e voltando a ser eu, vendo através dos meus olhos.


SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas..
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