SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas.

Redescobrindo-se pagão

Quando Colombo chegou ao pedaço de terra que chamariam América, em 12 de outubro de 1492, provavelmente não imaginou em que se transformaria o enorme continente, com os passar dos séculos. Tampouco pensou no ribombar das conspirações, sobre tal façanha ser mesmo obra de puro acaso ou cuidado minucioso de mentes capitalistas. Mas tais pensamentos não convêm ao momento. O que nos fica é o equivalente que podemos pintar a partir desse quadro.


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Tal como a descoberta estapafúrdia, uma relação amorosa inicia-se com os mesmos vícios das conquistas marítimas: Nós, incautos, lançamo-nos destemidos ao mar bravio, providos de belas caravelas, lustrosos mastros e estonteantes velas, cheios apenas da esperança de chegarmos sãos e salvos às terras ermas.

Nesta travessia – que segundo Guimarães Rosa, vale mais do que o destino em si – deparamo-nos com novos mundos a serem colonizados.

Nós, missionários, introduzimos aos poucos nossas verdades, enquanto os nativos, que na falta de melhores objetos para nos comparar ao quê do quê, cedem de bom grado seus próprios corpos como escambo.

Os missionários, porém, também levam ao fim da ilíada, excertos da selvageria nativa para dentro de si, provando por A mais B que a convivência é sim uma via de mão dupla. Nesses casos, cada um segue seu próprio caminho, esperando por algo novo capaz de suprir o recente vazio, talhado pela ausência do outro.

Há ainda os infelizes – porém gastronômicos – casos, onde os missionários são feitos em picadinho, cozidos à moda da casa e devorados, mas via de regra é o extermínio da aldeia, se não a tiros de bacamarte, devorados todos pela sífilis. As possibilidades são imensas e acabam todas em reality shows.

Descobrimento e colonização de terras selvagens foi e sempre será um negócio tão rentável quanto arriscado. Mudam-se os jogadores, mas no fim, todos se redescobrem pagãos.


SAMUEL ANTUNES

Igual a você, vivo por aí a duras penas..
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