a equilibrista

A felicidade está no equilíbrio

Brenda Freitas

Mulher com jeito de menina, determinada e inconstante, forte e frágil... Como dizia Raul Seixas “Prefiro ser essa metamorfose ambulante”. Vivo em busca de encontrar o equilíbrio pois para mim, é lá que se encontra a felicidade.

Amor, as asas que nos fazem voar para dentro de nós mesmos

No conto “ A menina e o pássaro encantado” Rubem Alves aborda em texto infantil, reflexões filosóficas sobre temas relacionados ao universo do adulto. Ensinando uma lição de como viver um amor pleno, livre e verdadeiro. Enxergando em cada linha uma oportunidade de avaliação e melhoria de nossas relações.


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Ao me entregar ao delicioso prazer de ler Rubem Alves, dedico-me a esmiuçar o conto A menina e o pássaro encantado que com sua simplicidade traz um manual sobre o amor genuíno. A literatura tem o poder de trazer à tona meditações densas de uma forma leve provocando uma simbiose entre o real e o fictício. O início do conto já nos faz atentar a delicadeza e riqueza de significado dos textos de Rubem Alves. Ao descrever o pássaro ele diz: Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Só quem já amou consegue entender a profundidade desta afirmação. Ao amar alguém, esse alguém se torna único, com um poder quase sobrenatural sobre nós, como disse Vinicius de Moraes: De tudo, ao meu amor serei atento, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto que mesmo em face do maior encanto dele se encante mais meu pensamento. O objeto de nosso amor faz com que estejamos sob um manto de encantamento.

O pássaro amado pela menina, a mantinha nessa redoma, pois sabia que o alimento do amor é a admiração. Desta forma, aparecia em seu quarto e contava-lhe sobre as histórias de suas viagens, impressionava-a com suas belas cores. Usava com a menina o segredo que Sherazade usou com o Sultão: Palavras encantadas. O pássaro detinha uma sabedoria imensurável e tentava repassar à menina os segredos sobre o amor e dizia: “Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade”. Sabia ele, que todo o encantamento da menina advinha da saudade, da ausência. E disse-lhe ainda: “É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.”

O pássaro também amava a menina, a ponto de ensina-la o caminho para o amor, para que pudessem juntos, viver e gozar o prazer do reencontro. Mas a menina, tão cega de paixão e envolvida em sua nuvem de egoísmo teve uma terrível ideia: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…” Todavia, a menina que pouco sabia a respeito do amor, ou talvez, não tenha lido Camões, que disse que amar é estar preso por vontade, usou aquilo que tinha para prendê-lo, não queria que o pássaro fosse infeliz, não queria lhe fazer mal, pelo contrário, queria que ficasse em lugar bonito, “ comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito”.

A doce menina queria o pássaro feliz, mas queria que fosse feliz ao seu lado, acorrentava-o na esperança de tê-lo para sempre, de ser feliz e se livrar das dores do partir. Entretanto, privado de seu direito de voar, de sentir saudades da menina, o pássaro perdeu o encanto. “— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…” O pássaro enclausurado, perde as penas, deixa de cantar.

A menina também se entristece, afinal, não era aquele o pássaro que amava. O pássaro que amava era livre, cantarolava, tinha belas penas, belas histórias. Já aquele que ali estava, era sem graça, sem cor ... não era mais o seu amor. E triste por vê-lo assim, a menina resolve libertá-lo, ao libertar o pássaro o encanto permeado pela saudade volta a existir...o pássaro readquire o encanto perdido e volta a voar pelo mundo e a menina a sonhar com reencontro.

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A bela estória de Rubem Alves, parece ter em seu cerne a difícil tarefa de expor as pequenas falhas diárias com aqueles que tomam conta de nossos pensamentos, que nos arrancam suspiros e colorem nossos dias. O conto avalia tais relações a fim de evitar os erros que aniquilam a possibilidade de se viver uma relação saudável. O grandioso Rubem Alves parecia entender bem a importância do cultivo, falava com ternura sobre seus jardins, talvez por entender que qualquer relação necessita de cuidado especial, um cuidado diário para se manter vivo, inteiro, bonito.

O amor, esse fenômeno que aparece quando quer, sem explicações, surge quando ainda somos meninos, imaturos, egoístas e não sabemos como agir diante do assombroso poder que exerce sobre nós. Passamos a dormir amedrontados com a possibilidade de perder, de deixar ir. Então, num instinto de sobrevivência, agarramo-nos a pessoa, como quem agarra uma boia, lutando com uma força descomunal para nos manter vivos, para respirar, como quem em suas orações suplica para que não lhe tirem o que tem de mais valioso, o que há de mais sagrado. Sufocamos o outro, levamo-nos conosco para o fundo das águas que outrora nos afogava, acabamos por morrer e por matar o nosso amor. Somos obrigados a seguir, a viver, numa espera angustiante, para que o outro volte a ter o sentimento de antigamente ou para que um dia o amor nos reencontre.

Finalmente, com dor e a passos curtos, começamos a seguir e entender que enquanto o amor não vem, enquanto ele não estiver aqui, precisamos criar uma base forte o suficiente para nos sustentar, para nos encontrar e viver de modo feliz, mesmo que sozinhos. Quem sabe os momentos longe do pássaro seja um momento de comunhão com nós mesmos. Momento para nos tornarmos melhores para nós e para o outro. Pois em algum momento “O para sempre, sempre acaba” e nesse momento possamos entender que, como diz Rubem Alves, “amar é como ter um pássaro pousado no dedo, quem tem um pássaro pousado no dedo, sabe que a qualquer momento ele pode voar.

E nesse momento passarmos a escutar os conselhos do pássaro encantado, quem sabe ele, lindo pássaro, só seja assim, pois um dia também foi uma menina que não sabia amar e, com aprendizado e dor passou a viajar, a descobrir um novo mundo, a se descobrir e a entender como disse Antoine de Saint-Exupéry- O amor é o processo de eu conduzi-lo gentilmente de volta a você mesmo. O conto de Rubem Alves tem a capacidade de atingir os mais profundos sentimentos, como o faz com o seu jardim, de modo meticuloso sonda os sentimentos e através da educação ensina o menino ou até mesmo ao adulto a cultivar suas flores a enxergar no cotidiano o caminho para uma vida feliz.


Brenda Freitas

Mulher com jeito de menina, determinada e inconstante, forte e frágil... Como dizia Raul Seixas “Prefiro ser essa metamorfose ambulante”. Vivo em busca de encontrar o equilíbrio pois para mim, é lá que se encontra a felicidade..
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