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15 anos de Kid A, um disco para se ouvir com a alma

Kid A, quarto disco de estúdio do Radiohead, completa 15 anos ainda sendo um marco na história do rock e nas rupturas com o que se espera do mainstream.


Imagine que você tem uma banda. Agora imagine que sua banda fez um disco que foi aclamado por público e crítica, vendeu cerca de 8 milhões de cópias no mundo todo, sendo considerado um marco no rock’n’roll, base para o que viria a ser produzido durante as próximas duas décadas. O que você faria?

Provavelmente procuraria fazer um disco maior, aproveitaria que a fama abriu espaços em rádios, emissoras de TV, jornais e na internet, rodaria o mundo mostrando sua música e sua visão de mundo. Correto? Mas Thom Yorke, Ed O’Brien, Phil Selway, Jonny e Colin Greenwood, membros do Radiohead, pensaram diferente.

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OK Computer surgiu em um momento que a chamada britpop começava a declinar. O disco era uma transição estética na música inglesa, e sua temática melancólica construía uma crítica sobre a forma em que as sociedades se organizavam. Mas incomodava Yorke e companhia que, ao escancarar a alienação social, política e emocional de sua geração, isto tenha tido um efeito contrário, jogando-os diretamente para o mainstream midiático, fazendo com que assumissem um lugar no pedestal de idolatria de uma forma que não lhes interessava – especialmente ao líder do Radiohead.

Kid A foi lançado em 2 de outubro de 2000, mais de três anos após OK Computer. Foram 15 meses dentro de quatro estúdios juntamente com Nigel Godrich, responsável pela produção do álbum. Das 20 canções gravadas, muitas seriam aproveitadas apenas no próximo disco, Amnesiac, lançado no ano seguinte.

Kid A soava diferente, lírica e musicalmente. O disco era infinitas vezes mais experimental, muito mais do que o próprio Radiohead já havia feito. Era uma resposta crítica ao sucesso do disco anterior. A banda fez questão de colocar as guitarras quase totalmente de lado, abusando da experimentação e acrescentando muitas camadas de jazz, música eletrônica e post-rock.

O uso de sintetizadores e baterias eletrônicas ditavam o disco que, mesmo com uma estratégia anticomercial, levou a banda direto para o primeiro lugar do US Billboard 200 pela primeira vez. Parecia que o tiro havia saído pela culatra. Ao tentar soar menos comercial, Thom Yorke abriu caminho para uma segunda obra-prima do Radiohead na história da música contemporânea, soando mais artístico e original do que nunca – talvez, inclusive, até mais que em OK Computer. Kid A deixou algo muito claro para o mundo da música: o Radiohead era incrível e sua antítese tanto quanto.

Sem dúvida que a intensa campanha de marketing orquestrada pela Parlophone (gravadora da banda) na Europa e pela Warner Music (responsável pela distribuição fora da Europa) nos Estados Unidos e o vazamento do disco na internet cooperaram para que o sucesso comercial de Kid A fosse quase instantâneo – mesmo que a banda tenha se recusado a lançar singles e vídeos promocionais para o lançamento do disco. Em uma entrevista dada pelos músicos para a Q Magazine, Colin Greenwood deixou claras as intenções da banda com o álbum. “Nós sentimos que devíamos mudar tudo. Existiam outras bandas por aí tentando criar coisas iguais, fazer o mesmo que havíamos feito. Era hora de seguir adiante”.

Apesar de ser um trabalho focado principalmente nas melodias – inclusive a voz de Thom Yorke foi transformada em linha melódica em várias das faixas -, Kid A trouxe canções em que seu minimalismo lírico colocado em bate-estaca nos empunham os mantras da banda. Pode parecer absurdo, mas canções como “Kid A”, “The National Anthem” e “Everything in Its Right Place” diziam muito mais do que suas poucas estrofes deixavam transparecer. Sem contar a canção mais marcante do álbum – e talvez uma das mais belas de toda obra do Radiohead, inclusive na opinião do próprio Thom Yorke – “How to Disappear Completely”.

Angustiante, a canção jogava no público, em seus quase 6 minutos de duração, todo o estresse que a pressão da fama e do sucesso, juntamente com a correria da turnê do último disco, haviam causado em Yorke. “I’m not here, this isn’t happening” era um mantra, ensinado pelo músico do R.E.M. Michael Stipe, como uma forma para que o líder do Radiohead conseguisse aliviar tudo que lhe sufocava.

Talvez uma das melhores formas de definir o álbum e sua importância venha através do eterno editor da Rolling Stone, David Fricke. Fricke chamou o disco de um tanto obsessivo, provavelmente pelo uso de tantos mantras neste disco de predominante lirismo conciso, mas afirmou que “se você permitir, se você o ouvir com a alma, ele vai te tocar”. E, mesmo após 15 anos, ele continua atingindo em cheio a alma dos que se permitem.


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