Clemerson Silva

Psicólogo (CRP 15/5744) graduado pelo Centro Universitário Tiradentes - Unit/AL (2017); Autor de livro; Técnico do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município de Porto de Pedras (AL); Estudioso da Tanatologia e pesquisador na área de Psicologia e Morte.
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SETEMBRO AMARELO: O Suicídio e a dimensão do problema Social e de Saúde Pública

O que leva alguém de qualquer idade decidir extinguir-se? Lidar com o suicídio requer um estudo cuidadoso dos fatores de risco e aspectos relacionados à morte e ao desespero humano. O objetivo deste artigo é oferecer a possibilidade de reflexão psicossocial sobre o suicídio, seja de prevenção ou de posvenção.


“Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe” – Machado de Assis

Lembro-me de receber uma ligação, era uma colega, aos prantos, esbravejando sua decisão de se matar. Não falei muito, espantou-me o motivo da chamada, mas conversamos suficientemente para ela repensar. Pouco mais de uma hora de conversa, ela, aparentando estar mais tranquila, falou que precisava arrumar a casa porque a família chegaria a qualquer momento. Antes do “tchau”, perguntei-lhe como estava se sentindo naquele momento. Respondeu-me: “aliviada”. No mesmo instante, ainda trêmulo com o inesperado, não nego, senti-me presente no alívio dela. Percebi que a esperança buscada foi encontrada, não em mim, mas em quem a buscou.

Com essa experiência, a primeira de outras, refleti uma frase usada pela Filosofia para definir o suicídio: é uma solução definitiva para uma questão provisória. Uma decisão imediata para uma situação transitória. É um acontecimento de morte regado de múltiplos e delicados fatores, de difícil aceitação, pois, seja por suicídio ou outra forma, segundo Raimbualt (1979, p. 169 apud FUKUMITSU, 2018, p. 2017), “aceitar a morte do outro é aceitar um nunca mais de olhar, de voz, de ternura, bases das trocas com o outro, uma ausência de futuro no projeto imaginário comum, o ponto-final na partitura de um dos instrumentos de nossa sinfonia fantasmática”. Para Mosé, “a morte é o grande não que temos que engolir” (2011).

Questões sobre o suicídio foram amplamente estudadas no século XIX pelo sociólogo mundialmente conhecido, Émile Durkheim (1858-1917), francês, autor da obra “O Suicídio” (1897), onde esmiúça o tema real a partir de análises humanistas envolvendo a sociologia, a filosofia e a antropologia, sem exclusividade à visão de natureza médica. Durkheim, partindo da indagação do que pode levar pessoas a tirarem a própria vida, buscou encontrar respostas claras que o fizessem compreender, dado que a vida é vista como acontecimento de grande valor e a morte inevitável, então por que antecipá-la? Ele conclui que a morte da pessoa determinada por ela mesma é multifatorial, não há uma causa específica ou forma de realizar e acontecer. Uma visão que agora, mais de cem anos depois, a ciência volta a atenção para o mesmo conceito tão antigo e tão atual.

Quando alguém comete suicídio, procuramos razões objetivas para o nosso entendimento e curiosidade. O ‘porquê’ e o ‘como’ aconteceu também resultam de quadros emocionais de estresse, tristeza, perdas afetivas, angústia, depressão, que, de acordo com Oliveira (2017) “é a patologia mais presente no ato suicida, apresentando maiores riscos no seu estágio inicial, visto que o paciente apresenta disposição física e psíquica para planejar e consumar o suicídio”; contribuem, ainda, transtornos e distúrbios mentais, indiferença, euforia, indignação, desesperança; outros fatores também, tais como: o materialismo severo, a solidão, enfermidades incuráveis, violência, maus-tratos, abusos de todo tipo, pobreza extrema, fanatismo religioso, negligência e abandono familiar, perdas materiais, alcoolismo, drogatização etc., que incomodam quem está nesse processo e sente sofrimento existencial, mirando no suicídio como alvo único de solução para silenciar a dor, mesmo que para isso a vida seja abreviada.

Frente ao caso consumado, não será mais possível saber e entender o nível de sofrimento psíquico que estava passando quem se matou. Para quem sofre com essa forma de perda, restam apenas indagações, pois, se por um lado, se deseja saber o que não foi feito para impedir a ação, por outro, existe a dúvida se algo foi feito para contribuir com o que aconteceu. Nesse sentido, “o suicídio acaba com sofrimentos alheios e revela o desespero supostamente sem saída. Acabou para a pessoa que se matou, porém, começou para quem fica – o sobrevivente” (FUKUMITSU, 2013, p. 70 apud FUKUMITSU, 2018, p. 217).

Amarelo caracteriza o mês atual, setembro, nos locais públicos e privados para chamar a atenção de todos, indicando preocupação e conscientização às causas de ideação, tentativa(s), consumação e implicações do suicídio; é, também, farol de alerta e de esperança para a prevenção (conjunto de medidas antecipadas que visam acautelar o ato) e posvenção (todo cuidado prestado aos sobreviventes enlutados por um suicídio). A ampla divulgação de informações visa lembrar às pessoas a realidade distante ou próxima do suicídio – desconstruindo a fantasia de que só na família do outro e/ou com o outro pode acontecer.

No Brasil, o aumento no índice de suicídio está no público jovem entre 15 e 29 anos, sendo a 3ª causa de morte no país, segundo a OMS (2020). Isso não quer dizer que seja um acontecimento restrito para os jovens, pois todos, de qualquer idade, estão suscetíveis. Uma pessoa experiente, que sabe que na vida as coisas passam, também pode ter pensamentos ou planejamento de matar a si (e há casos) apesar de, aparentemente, a julgarmos madura.

Quando um jovem rompe com a vida, a frase “tinha uma vida toda pela frente” vem à mente ou aos ouvidos pela ausência de compreensão de um motivo que o tivesse impedido de tomar tal decisão – o incômodo pela ruptura brusca do vínculo do outro-em-mim e do eu-no-outro desestabiliza pelas crescentes interrogações ecoantes no esconderijo do verso, isto é, no interior do ser. Será que o jovem não tem noção do que é a vida? Pergunto: e nós, você e eu, será que temos ou um dia teremos essa completa noção? Toda a nossa sociedade parte de uma premissa impossível: que vai haver um ser humano plenamente feliz, sem nenhuma contradição. Humanamente falando, nunca seremos inteiramente felizes nem totalmente realizados e conviver com essa incompletude pode ser tão doloroso que alguns se matam.

O suicídio na juventude pode ter ligação à fase que se está vivendo, como bem lembra o filósofo e professor Mário Sérgio Cortella (2018): “gravidez, assim como adolescência, não é doença, ela é uma circunstância. O adolescente está grávido de si mesmo, ele vai dar à luz a um novo ele. Ele tem distúrbio hormonal, oscilação de humor e desequilíbrio afetivo, ele tem algo que é a construção de uma identidade que ainda não está nítida”. Não é que ele seja mais propenso ao suicídio, mas é provável que considere irreparável um episódio temporário vivido. Adolescentes são mais suscetíveis e sensíveis à opinião de que o que está acontecendo no agora será sempre assim e nunca deixará de ser. Essa ideia de dar características eternas a acontecimentos provisórios, os problemas, pode favorecer, mas não é regra que assim seja.

Historicamente, a Igreja Católica que não rezava missa pelas pessoas que cometiam suicídio, até o Concílio Vaticano II (1965), reza hoje, acreditando que a pessoa pode não estar em pleno uso das suas faculdades, logo não pecou, porque para pecar é preciso plena consciência. Para o Judaísmo, segundo o historiador e professor Leandro Karnal (2020), quem tira a própria vida ofende o Criador e, por isso, é enterrado numa parte do cemitério afastada dos outros e de costas para Jerusalém; para o Espiritismo, a causa, além das doenças, pode ser obsessão de espíritos (IMBUZEIRO, 2015); Para o Hinduísmo, de acordo com o Bhagavad-Gîtâ, “quando se morre em uma situação tida como modo de ignorância, podendo considerar entre elas o suicídio, a alma nasce em corpo irracional como de um animal para experimentar certas privações que paulatinamente vá contornando essa ação ignorante do ser” (BG XIV. 15 apud SILVA E FERREIRA, 2020); em sua base doutrinal, o Budismo tem a crença de que quem se mata pode renascer em condições mais difíceis. O suicídio é um mistério em cada sociedade e é maior ou menor em alguns momentos: foi maior no Romantismo do que é no Realismo, ele é maior em determinadas culturas do que em outras e é muito variado.

Alguns cristãos, diante de um suicídio, exprimem que o acontecido foi “falta de Deus” por parte da pessoa. Será? Na bíblia, no livro de Mateus 27, 3-5, está a narração da morte de Judas, um dos 12 apóstolos de Jesus, que, arrependido do que fez, “retirou-se e foi-se enforcar”. Para o Cristianismo, Jesus é Deus, Deus-Filho que se fez biologicamente homem, presença carnal na terra. Judas era um dos próximos a Jesus, mas a angústia o sufocou e, posteriormente, enforcou, pois tirou dele esperança e possibilidades. Judas tinha Deus, compartilhou da sua presença física, mas o sofrimento variado, unido ao alto nível de desespero, mostra que quem comete suicídio talvez não o faz por “falta de Deus”, ou tem mente fraca, ou falta reflexão, é egoísta ou covarde, mas porque nem sempre se consegue dar conta de suportar a dor interior que inflama a existência, não conseguindo enxergar além daquilo que está vivendo. Na realidade, não dá para saber tudo e ao certo os fenômenos que envolvem o suicídio, pois quem se mata leva a verdade consigo. Eu apenas tenho uma clareza: quando uma pessoa se mata, eu sou incapaz de julgar e nem quero fazê-lo. Ela teve suas razões e isso pode ser insondável porque vai com ela o motivo da decisão que tomou.

Para quem está vivendo a dor, o sofrimento, a perturbação, a turbulência, isso tudo parece que não passará nunca; para quem não está vivendo, olhando de fora, essas questões são rapidamente passageiras. Quando alguém passa por várias situações desse tipo e nota que não perece, há possibilidade de desenvolver resiliência, entretanto, isso é extremamente relativo. Afinal, as consequências são, igualmente, multifatoriais. De muitas formas a vida pode perder sentido, gerando esvaziamento de significados de todas as coisas através do nosso niilismo contemporâneo. À vista disso, devemos ter a oportunidade de dialogar, de prevenir, de discutir esse tema, porque se trata de um acontecimento que não é inevitável.

O suicídio é um tema que precisa ser tratado nas escolas, no trabalho, nas famílias, nos hospitais, nas igrejas e tantos lugares, sem tabu, pois falar não irá propagá-lo enquanto prática a ser seguida, assim como, por exemplo, falar de prevenção ao câncer não fará com que todas as pessoas morram por causa dele, mas pode diminuir as hipóteses através da conscientização dos cuidados. É importante desmistificar o tabu para construir uma nova consciência na sociedade e oportunizar outro modo de olhar às pessoas que, em falas ou gestos diretos, ou indiretos, precisam de acolhimento e serem ouvidas, sem pressão, sem julgamento, e estimulá-las a se abrirem à ajuda profissional, imprescindível para o tratamento qualificado das causas que levam às tentativas de tirar a própria vida.

A morte por acidente, causa de doença, ou algum evento que não seja decisão própria são notícias menos impactantes à sociedade do que a de alguém que toma a decisão pela morte. O suicídio é um grave problema de saúde pública mundial, e o Brasil tem registros anuais de cerca de dez mil casos concretizados e, no Mundo, há mais de um milhão. Preocupante aumento no número de casos, cujo tema ainda é considerado proibido, interdito, seja por questões religiosas ou culturais. Segundo a OMS, nove em cada dez casos de suicídio poderiam ser prevenidos, o que justifica e respalda a necessidade desta campanha do “Setembro Amarelo: Prevenção ao Suicídio” que não é só mensal, mas anual, vivencial e coletiva. A sua vida importa! A minha vida importa! A vida de qualquer pessoa importa!

A existência é um trem que nos leva numa direção: para frente. Nas estações da vida, interruptamente o trem chega e o trem parte. Quem chega abraça longamente quem a espera; os mesmos abraços acontecem também nas partidas. Entre um momento e outro, a diferença está sempre no depois: na chegada, o abraço continua e a ansiedade sede lugar à companhia; nas despedidas, o vazio se torna espaço da saudade para quem fica e para quem vai. Quem parte não dá para ver, o trem faz o seu itinerário verbal de seguir e de sumir. Na partida, a vida entende que o tempo não se curva aos desejos alheios. Na chegada, a alegria se une ao tempo e à validade. O suicídio é resultado de processos variados de momentos específicos que desestabilizam o tempo, os abraços, a chegada, a partida; o trem da existência que não para, a vida que se esvai como fumaça ao vento; o tu, o eu, o nós: uma decisão torna tudo silêncio na estação.

Você não está sozinho. Você não está sozinha. O que você está sentindo? Deixa eu ajudar você. Pode contar comigo: [email protected]

REFERÊNCIAS

FUKUMITSU, K. O. Suicídio, luto e posvenção. In: ______. Vida, morte e luto: atualidades brasileiras. São Paulo: Summus, 2018, pp. 216-231.

IMBUZEIRO, R. As consequências espirituais do suicídio. Mundo Sustentável. Publicação em: 5 de junho de 2015. Disponível em: Acesso em: 15/Set. 2021.

OLIVEIRA, N. A. Prevenção à ideação suicida decorrente da depressão em adultos. Revista Ciência, n. 1, v. 5, pp. 106-121, 2017.

SILVA, M. M. S.; FERREIRA, R. B. A interpretação das religiões sobre o suicídio: algumas considerações. Revista Senso. Publicação em: 6 de janeiro de 2020. Disponível em: Acesso em: 15/Set. 2021.


Clemerson Silva

Psicólogo (CRP 15/5744) graduado pelo Centro Universitário Tiradentes - Unit/AL (2017); Autor de livro; Técnico do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município de Porto de Pedras (AL); Estudioso da Tanatologia e pesquisador na área de Psicologia e Morte. [email protected]
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