a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Andando pelos Jardins: o Éden

E se o famoso tríptico Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymous Bosch, subitamente se tornasse material, palpável? Se pudesse ser explorado em todas as suas minúcias? Em um dinâmico diário de viagem escrito por um de seus privilegiados visitantes, várias dessas minúcias são exploradas e reveladas: detalhes esses que podem facilmente passar despercebidos pela grandeza do quadro como um todo.


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Vai ser um belo dia no Jardim das Delícias Terrenas, e posso perceber isso pelo cantar e bater de asas das revoadas que cortam freneticamente os céus. Andando pelo caminho - um pequeno bosque verdejante, cuja altura é suficiente para encobrir qualquer possível visão panorâmica - já se percebe claramente que o lugar está próximo.

Em um ponto da monótona passagem, a vegetação deixa de ser grande. Os arbustos cheios de frutas ficam gradualmente menores, até que não mais bloqueiam a visão. Finalmente foi possível ver alguma parte dos jardins. Surgia ao longe o lugar para onde os barulhentos pássaros estavam indo: uma formação rochosa um tanto peculiar.

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Seu movimento ordenado, em direção a um distante horizonte, deixava-me hipnotizado. Provavelmente as outras pessoas do grupo também eram absortas pelo céu de um peculiar azul; pela complexidade daquela formação rochosa; pelos caminhos que formavam-se ao fundo e sabe Deus que tipo de bizarrices eles escondiam.

Depois do que pareceu muito tempo, pude finalmente ouvir a voz do nosso guia. Ele vestia uma túnica de tecido leve, feita de uma só peça. Estava em pé, exatamente no ponto onde o caminho deixava de ser delimitado pelos agora baixos arbustos. "Atenção, pessoal", ele dizia, "estamos aqui em frente a um evento peculiar: um casal está sendo expulso do paraíso."

O grupo demonstrou-se bastante surpreso com essa afirmação do guia. Ele então continuou: "não é uma situação incomum, todos os dias alguém peca e é expulso daqui. Só pedimos para que vocês não interfiram nesse ritual. Ele é religiosamente importante para os nativos".

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O ritual finalmente terminou, com as três figuras desaparecendo misteriosamente (ou fugindo muito rapidamente enquanto eu observava os pássaros ao longe). Nosso guia continuou a falar, seu tom de voz era tão monótono quanto historiadores da arte discorrendo sobre suas incríveis descobertas em assuntos irrelevantes.

"Como vocês sabem, todo esse ambiente foi projetado e implementado pelo Sr. Bosch, seguindo os planos originais. Aproveitamos o relevo natural da região para finalmente colocar em prática seu projeto mais ilustre". Eu já sabia da fama daquele lugar, mas vê-lo ao vivo e em cores à minha frente era uma experiência quase surreal.

"Por favor, não usem o flash de suas câmeras fotográficas. Isso pode prejudicar a fauna e flora locais. E ao meu sinal, peço que todo mundo mantenha-se em silêncio. Queremos oferecer a melhor experiência a vocês, visitantes do Éden."

Andamos por alguns poucos metros, até chegarmos perto de um riozinho. Eu estava logo atrás do guia, então assim que ele fez sinal para que ficássemos quietos, eu já podia ver o poço. Era aparentemente normal, mas lá dentro tinham algumas das criaturas possivelmente mais estranhas do mundo.

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Não tive muito tempo para contemplar aquelas obras de humor depravado da natureza. Ouvi o guia se referir a eles por alguns nomes, talvez tão incomuns quanto os animais: um pássaro multicéfalo, unicórnio marinho, peixe-libélula e pinguiguana.

Caminhamos mais um pouco, com aquela fauna estranha chegando cada vez mais perto, até que finalmente o guia tornou a falar. "Estamos chegando agora a um dos santuários que vocês visitarão por aqui. Infelizmente o fluxo turístico tem tornado a situação ao redor dele deplorável. Por favor, não joguem lixo na fonte."

Eu conseguia ver alguns lagartos de forma estranha, besouros do tamanho de pássaros, e só para variar, um pavão e uma lebre aparentemente normais. "Essa torre", continuou o guia, "é um exemplo da arquitetura presente por aqui. Como vocês podem ver, as criaturas aqui do Éden convivem harmoniosamente com ela".

Depois de algumas outras informações que não ouvi ou não memorizei, o guia pediu que fizéssemos silêncio ao passar perto da torre. Sua base era particularmente interessante. Apenas achei lamentável que a manutenção seja tão desleixada: os escombros formam uma espécie de pedestal indecoroso para a torre.

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Seguimos a trilha contornando a estranha construção. Passamos por outra fonte, ao pé de mais um pequeno bosque de arbustos. Alguns animais pacíficos estavam por lá, pudemos chegar especialmente perto destes. Além do clássico Unicórnio, ainda existiam alguns outros exemplares de animais, um deles com um chifre ainda mais extravagante que o anterior.

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Em um ponto da caminhada, paramos bruscamente, ainda em silêncio. O guia nos mandou recuar em direção à torre, e ao subirmos em uma pequena irregularidade do terreno, pela qual não havíamos passado antes, foi possível ver o motivo pelo qual o guia tinha nos mandado parar.

"Aqui", explicou ele, sussurrando, "testemunhamos a simbiose entre as criaturas que vivem no Éden. Todas elas compõem uma cadeia alimentar equilibrada, e apesar de ter sido muito difícil trazer exatamente essas espécies até aqui, vocês podem ver que o resultado atingido é realmente fiel à natureza selvagem".

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No fim, acabamos parando em uma espécie de clareira, com algum tipo de bloqueio para que os animais não chegassem até aí. Comi os aspargos e as castanhas que tinha levado para o almoço, e aparentemente o resto do grupo também aproveitou para degustar seus próprios lanches.

O guia conversou informalmente com algumas das pessoas, e logo chamou a atenção do grupo para o último aviso. Eu estava ocupado demais para ouvir, olhando a meu redor. Sabia que provavelmente não voltaria praí tão cedo. Aproveitei para contemplar o horizonte daquele jardim enquanto todo mundo se preparava para sair dele.

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Enquanto caminhávamos para fora, o guia ainda dava algumas recomendações: "Alguns animais ainda podem aparecer, se isso acontecer, por favor não façam movimentos bruscos". Eu involuntariamente evitava ouví-lo.

"E amanhã estejam no portão de entrada pontualmente, assim teremos mais tempo para explorar o Jardim das Delícias em questão". Eu não sabia o que me aguardava no segundo jardim, mas já sabia de uma coisa: Quando pisasse nele, não teria nenhum guia à minha frente e nenhum grupo a meu redor.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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