a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Andando pelos Jardins: as Delícias (parte 1)

E se o famoso tríptico Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymous Bosch, subitamente se tornasse material, palpável? Se pudesse ser explorado em todas as suas minúcias? Na segunda parte da belíssima jornada, são exploradas a fauna/arquitetura do Jardim Das Delícias, parte central do Tríptico.


O sol nem tinha nascido quando eu cheguei ao segundo jardim. Nesse próximo dia, o passeio estava marcado para começar mais ou menos as nove horas da manhã. Se eu partisse logo, teria pelo menos duas horas de vantagem em relação ao resto do grupo.

Esperei os primeiros raios da aurora despontarem. Estava munido de minha câmera fotográfica, algum resto de comida que surrupiara do hotel, e um folheto que havia ganho no dia anterior, explicando alguns detalhes sobre o lugar. Aquele era o Jardim das Delícias, a atração principal.

Assim que o sol começou a bater nas grandes torres que se projetavam ao longe, decidi qual seria minha meta. Primeiro, aproveitando a bela luz e a ausência de pessoas que a manhã trazia, procuraria entender o máximo possível aquela arquitetura peculiar.

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Comecei meu caminho em direção às distantes torres; havia um tímido movimento de pessoas pelo jardim inteiro. Não eram muitas, e também não pareciam ter algum motivo em comum para estarem aí. Por enquanto, a fauna do lugar chamava mais atenção do que seus habitantes.

À primeira vista, com certeza os animais não eram mais estranhos do que aqueles que eu vira no Jardim do Éden no dia anterior. Aqueles pássaros lembravam muito os que eu costumava ver no lugar onde morava, com a diferença de que era possível que um ser humano montasse neles.

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Eu andava na direção de meu objetivo, sempre observando aqueles curiosos pássaros para ter certeza que minha mente não me enganava. Quase esbarrei em outra criatura no mínimo digna de minha atenção. Quando eu cruzava um charco, passou correndo por mim uma espécie de esfera gigante, com uma cauda propulsora.

Eu me desequilibrara com o esbarrão. Ele parou logo em seguida, provavelmente para garantir que não havia acontecido nenhum tipo de acidente comigo. Minha reação talvez tenha sido um pouco mais ofensiva do que eu pretendia quando nada menos do que um habitante local saiu de dentro do que eu imaginava ser apenas uma criatura bizarra.

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O homem que parecia pilotar a criatura despontou de dentro da cúpula com uma expressão um tanto apologética em seu rosto. Não consegui fazer nada além de observar, e assim que constatou que eu não me ferira, ele murmurou o que eu suspeitei ser um pedido de desculpas. Em uma língua que suspeitei ser holandês arcaico. O casal que pegava carona na criatura simplesmente não se manifestou, como se nada tivesse escutado.

Continuei minha jornada um pouco mais resignado: Conforme eu andava, mais nativos iam se agrupando, e eu passei a prestar um pouco mais de atenção em suas características. Não fosse isso, eu provavelmente não teria enxergado a próxima excentricidade pela qual passei, que quase sumia ao redor da crescente multidão. Tomo um certo cuidado ao caracterizá-la como arquitetura: poderia muito bem ser um ser vivo, um veículo, ou as duas ao mesmo tempo. Talvez fosse também uma raiz, ou algum tipo de composto rico em nutrientes, a julgar pelas plantas que nela brotavam.

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Eu já estava quase me acostumando, tomando por normal a estética do lugar. Mas para provar que nada ali podia ser nem remotamente normal, um outro elemento interessante começou a surgir: peixes, tão grandes quanto os pássaros anteriores. Imaginava que tinham sido pescados para uma grande refeição, afinal devia ter no mínimo cinquenta quilos de carne em cada um deles.

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Acompanhei a movimentação com os olhos, surpreso como achei que não mais ficaria, e segui meu caminho. Eu ainda estava longe das torres, que eram meu objetivo primário. Passei a andar mais rápido, e conforme o fluxo de pessoas aumentava, tornava-se mais fácil de abstrair os acontecimentos sem sentido a meu redor.

Quando já havia andado boa parte do caminho até as torres, passei em frente a um lugar onde toda a sorte de bizarrices que eu havia testemunhado antes parecia estar acontecendo ao mesmo tempo. Pássaros, peixes e as formas de vida arquitetônicas, com algumas coisas a mais. Talvez só agora eu começara a me adaptar visualmente às estranhezas do grande Jardim.

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O resto de meu percurso foi mais rápido do que havia sido até então: a movimentação de pessoas estava aumentando, e como o sol já estava alto, não quis arriscar ser visto pelo guia ou pelo resto do grupo.

Andei quase apressado até chegar à parte do jardim que era meu primeiro objetivo. Passei pouco tempo lá, observando o espaço a meu redor, e principalmente contemplando as grandes torres. De perto, muitos aspectos antes invisíveis agora saltavam aos olhos de uma vez.

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Enquanto eu estava imerso em minhas observações daquele ângulo um tanto privilegiado, percebi uma outra pessoa se aproximando de mim. De início, pensei tratar-se de um nativo, até porque ele estava nu. Mas o rapaz, não parecia muito mais velho do que eu, aproximou-se falando uma língua diferente dos nativos.

Ele falava no meu idioma. Obviamente, quando o homem nu aproximou-se de mim falando no meu idioma, minha primeira reação foi me afastar dele, em um sobressalto. Quando já estávamos a uma distância segura, ele iniciou uma conversa. Dessa conversa, pude inferir que minha ideia de burlar o guia turístico não havia sido nem um pouco original.

Antes que ele se afastasse, consegui perguntar a ele por que diabos estava sem roupas no meio daquele lugar. Ele comentou algo sobre entrar no espírito do Jardim, e imediatamente rumou em direção ao centro dele - lugar de onde eu viera - falando algo sobre se atrasar para o grande evento. Eu não sabia que tipo de evento era aquele, mas já sabia qual seria meu próximo destino.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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