a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Andando pelos Jardins: as Delícias (parte 2)

E se o famoso tríptico Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymous Bosch, subitamente se tornasse material, palpável? Se pudesse ser explorado em todas as suas minúcias? Durante o terceiro relato, o leitor é convidado a conhecer um pouco da cultura nativa dos Jardins.


Ainda levemente embasbacado pela visão de meu cúmplice forasteiro desnudo à minha frente, comecei a andar de volta para o lugar de onde viera. Pretendia mudar meu caminho na volta. E aproveitar para prestar atenção àquilo, fosse o que fosse, que ele se referira quando falava em grande evento.

Quando comecei a caminhar, percebi que estava imensamente mais cansado do que imaginava que estaria a esse ponto. Sentei no chão sem cerimônia e comecei a degustar os restos de café da manhã que seriam meu almoço. Quando ergui minha cabeça, após a curta refeição, pude perceber que algumas aglomerações já estavam formando-se ao redor de uma das estranhas torres. Nem o lago que a circundava era um obstáculo àqueles ávidos nativos.

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Não sei até agora o que eles faziam. Na hora me contentei imaginando que seria algum tipo de ginástica esquisita a meus olhos. Olhei em todas as direções, buscando distrair-me daqueles corpos nus e ainda assim nada atraentes. Havia uma infinidade de caminhos que eu poderia seguir. Acabei decidindo por aquele quase oposto ao lugar por onde eu chegara até aí. Era também o que parecia mais movimentado, e eu imaginei que enxergaria belas cenas como a anterior ao longo dele.

Aparentemente, eu não tinha me enganado. Se já não bastassem os pássaros de antes, agora havia também uma ave de tamanho colossal, sem asas aparentes. Algo que parecia uma barata do tamanho de um cachorro de grande porte também movia-se freneticamente pelo lugar. Mas tudo isso poderia ter sido facilmente ignorado, dadas as circunstâncias.

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Por circunstâncias,é claro, refiro-me à relação (talvez predatória, talvez simbiótica) que estava acontecendo entre o gigante híbrido de pássaro kiwi com peixe espada e aquelas vinte pessoas socadas dentro de uma flor. Eu já devia estar acostumado, mas aquilo ainda me surpreendia tanto quanto o jóquei de peixe ao contrário, os carregadores de folha, e a coisa mais normal que havia visto até então: dois caçadores equilibrando sua caça da maneira mais difícil possível de transportá-la. Havia também um casal curtindo a vista. Sem roupas, é óbvio.

Aliás, por alguma espécie de convenção peculiar, todos aqueles nativos pareciam ter decidido que tudo, o que quer que fosse, poderia ser feito mais eficientemente sem o uso de roupas. Até mesmo posar sobre onças de um chifre só, ou alimentar coletivamente os poucos pássaros de tamanho normal do lugar com alguma fruta imensa e estranha.

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Pude testemunhar mais uma vez a engenhosidade da cadeia evolutiva do lugar: A genitália do pequeno veado combinava absurdamente bem com a cor de sua pelagem. Talvez aqueles tons de rosa e azul servissem para camuflar-se nas torres que antes eu visitara, nunca saberei. Encontrei também o unicórnio vassoura, em um momento onde ele servia confortavelmente de poleiro para uma coruja de tamanho normal.

E conforme fui andando, obviamente passei a ver como irrelevante a nudez generalizada que prosperava no lugar. O que não torna cenas como essa menos instigantes, por exemplo.

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Repare na forma de vida híbrida entre um humano e uma planta no canto esquerdo. Ela parece estar na época do ano em que dá frutos.

Continuei seguindo o fluxo no sentido inverso por algum tempo, querendo descobrir onde aquela corrente humana formada por nativos (ou pessoas que se passam muito bem por nativos) me levaria. Após uma volta sem muito sucesso, parei por alguns minutos para descansar, e finalmente entendi do que se tratava o grande evento. Ou quase.

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Não sei a quem quero enganar. Era humanamente impossível entender do que se tratava o tal grande evento. Imaginei que fosse algum tipo de dança ritualística, ou talvez uma contemplação às musas do lago (que exibiam seus corpos em uma linda atuação, diga-se de passagem).

Apreciei um pouco mais o desfile, até o que achei que fosse seu final. Quando os cavaleiros montados em bestas estranhas dispersaram-se por entre os passantes e curiosos, e quando as musas já haviam submergido no lago, voltei a andar na direção do lugar para onde me dirigia anteriormente.

Isso não me fez ser privado de minha cota diária de bizarrices. Pelo contrário, ela estava longe de ser completa. Haviam alguns pescadores, carregando um enorme troféu às costas. O fruto de sua pesca era um peixe alimentando-se de outro. Nada como uma cadeia alimentar eficiente. Enquanto isso, outros carregavam seus três amigos ou companheiros dentro do que parecia o corpo de um escorpião gigante.

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Eu achei que estivesse chegando quase ao fim de meu improvável passeio, quando percebi alguém parecendo clamar por minha atenção, assoviando de um modo muito menos que discreto. Com algum esforço, em meio ao tumulto, identifiquei de onde, ou melhor, de quem, vinha o assovio.

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Ele saudou-me de um jeito deveras cordial: "Ei cara, está se divertindo?". Demorei alguns segundos para perceber que a voz possuía os mesmos tons de estranheza que eu ouvira vindos do estranho forasteiro nu que tinha me abordado próximo às torres. Sua voz parecia estar vindo de dentro de uma coruja empoleirada sobre ele, e ainda não sei se num impecável ventriloquismo ou numa espécie de mente colmeia.

Não respondi nada, mas me aproximei do estranho par. Uma das mãos, que supus que fosse sua, me fez sinal para manter distância. "Quer ir pra um lugar onde com certeza os guias turísticos não vão te levar?", ele disse. Fiz que sim com a cabeça, e, sem perder o compasso da dança, uma de suas mãos apontou uma direção.

Naquela direção, não havia nenhum nativo, sequer plantas ou animais. Olhei de volta para ele, e ele tornou a dizer, através da coruja: "a caminhada é longa, mas garanto que valerá a pena. Agora vai!". Tentei perguntar mais algum detalhe sobre o caminho - afinal, seguir um caminho deserto não anima ninguém - mas minha única resposta foi quando ele posicionou seu dedo indicador sobre a boca. O sinal foi bem claro. Me virei para o lado que me havia sido apontado, e comecei a caminhar.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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