a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Fábula urbana contemporânea, ou "naturalismo otimista"


Era perto do meio dia, num início de outono com seu típico frescor. Por todo o lado pululavam pessoas, o usual cenário de uma esquina movimentada. Eu estava indo almoçar com Natalia, como de costume. Algo me chama a atenção (e quando se está dessensibilizado da multiplicidade, poucas são as coisas que o fazem); um homem com um andar meio torto, vestido numa roupa listrada em azul e branco, um pouco maltrapilha demais para ser considerada bonita, além de uma máscara igualmente deteriorada pelo tempo - indumentária familiar, os Bananas de Pijama - meio anda meio manca pelas pequenas aglomerações. Busca aproximar-se de famílias, em meio às estátuas vivas e índios que tocam flautas repetitivas sobre playbacks nostálgicos, talvez para que as crianças vejam a placa que leva no pescoço, manuscrita: "Foto com o banana, 50 centavos".

Não me comovo facilmente. Na verdade, não posso dizer que fui comovido pela cena ou por seu protagonista. Na verdade, achei nobre seu gesto: ele provavelmente não estava lá por precisar daquele dinheiro, mesmo. Convenhamos, cinquenta centavos é uma quantia irrisória demais para que alguém precise dela. Talvez estivesse lá para alegrar alguma criança que ainda assista aos Bananas de Pijama, como talvez ele próprio não possa ter sido alegrado quando os assistia. Definitivamente ele não estava pedindo esmola, ou coisa assim - uma pessoa tão nobre não dependeria de esmola para viver.

Chegaria em sua casa, uma casa dessas simples com uma salinha aquecida pelo calor humano e comida caseira na mesa da cozinha, beijaria a esposa e cada um dos filhos e filhas na testa, e se sentaria para comer aquela comida, sem muita variedade, sem muitos enfeites e luxos, mas feita com todo o carinho. "Fui eu que fiz", diria um de seus filhos, enquanto a esposa sorri assertivamente e pensa em perguntar como foi o dia dele. Ele se adianta, diz que o dia foi bom: exatamente treze crianças o pararam na rua enquanto suas mães tiravam fotos dos dois em seus celulares e tablets e câmeras compactas. Em cada foto, haveriam dois sorrisos: O da criança, por estar ao lado daquele personagem, e o do senhor, que existia apesar de escondido pela máscara. E ele sorria porque era o responsável por conectar ambos os extremos: o que inspira e o que imagina.

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Ele não tinha dinheiro para comprar uma fantasia, nem poderia pensar nisso. Talvez em alguma das idas e vindas do seu emprego e para seu emprego, viu aquela estampa familiar, listras verticais em uma esquina ou jogada num contêiner de lixo. Lembrou do personagem, conhecido e querido talvez por seus filhos ou mesmo por ele, e tirou aquela fantasia com uma carga simbólica tão grande de dentro de seu infeliz destino final. A máscara veio junto.

A roupa podia estar em frangalhos, mas dentro de si imaginava como se sentiria uma criança ao ver o Banana no lixo. Ajuntou a fantasia, levou-a para casa, e ela não ficou perfeita, nem próxima disso, na verdade. Mas com uma lavagem e alguns remendos, ele já podia usá-la sem problema algum. E foi àquelas crianças, que talvez se sintam confusas demais no meio da poluição visual e sonora da avenida, e ficam mais felizes ao encontrar lá seu amigo da TV.

Suas pernas já não lhe funcionam muito bem, mas ele não se importa. Não tem pressa, mesmo. Já andou muito, e apesar de seus passos arrastados, ele sabe que não pode perder seu dia: imagine, e se passar por aquela esquina uma criança que adoraria encontrar um dos Bananas de Pijama em sua frente? Como será que ele se sentiria sabendo que deixou de fazer feliz, ao menos por alguns instantes, uma pessoa nesse mundo quando podia tê-lo feito? E além do mais, o que pode acontecer de ruim a ele, numa esquina movimentada, tomando nas costas o saudável sol de abril? Assistindo, ouvindo aos músicos e estátuas vivas que lá se apresentam, conversando, quem sabe até crie amizades com alguns deles. Afinal, todos aí estão unidos pela rua.

O que relato talvez seja uma ficção, talvez não seja. Tudo o que é mais lógico me leva a acreditar que escrevo a verdade, a hipótese mais próxima do que é sua vida de fato. Aquele homem fantasiado tornava mais feliz a vida de alguns que por aí passavam (já outros pensavam sobre ele até que sentissem a inerente necessidade de escrever). Fazia um serviço nobre, tão nobre quanto apenas quem se dedica a fazê-lo pode ser.

Talvez ele não tenha uma casa, não tenha uma família que o acolha; talvez ele nem mesmo saiba, mas possui em si algo do que se devia orgulhar. Porque ele não pedia esmola, uma opção pela qual seria fácil conseguir seu sustento. Muito menos roubava ou enganava. Logo, não o fazia pelos cinquenta centavos que cobrava. Seja por bondade, boa vontade, ou até mesmo nostalgia - não por necessidade, quero acreditar - lá estava aquele senhor, vestido como um dos Bananas de Pijama. E em algum lugar, no fundo daquilo que alguns chamam de alma, ele está feliz, e deita-se assim ao fim do dia.

Não costumo ater minha escrita a esse tipo de matérias. Mas esse texto, esse desfecho, a continuação da fagulha de vida que por alguma coincidência, por um girar de olhos atentos cruzou com a minha, precisava ser escrita. Emergiu de mim sem muita elaboração de enredo, urgia por existir, e convenço-me cada vez mais de que existe. Prefiro acreditar que exista. Talvez isso baste, para o homem e para mim.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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