a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Em Oslo, há mais barcos que prédios.

Registro das impressões que causa uma cidade a quem vem de sua exata contraparte. Pequeno ensaio sobre o céu da cidade de baixos prédios e horizontes longos. O que acontece quando a arquitetura torna-se a paisagem ao invés de ocultá-la.


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Em Oslo, há mais barcos que prédios. Não que na cidade existam poucos prédios - bem pelo contrário, existem ruas e avenidas atrulhadas como (imagino) em qualquer grande cidade do mundo. Essa frase não deve ser tomada literalmente.

Os prédios de Oslo poderiam muito bem não estar aí. Essa é outra frase que precisa ser retificada para evitar ambiguidades: não que seja feia, a arquitetura escandinava. Não que as cores, verdes, vermelhos e azuis, vivos se não cintilantes, não chamem a atenção de qualquer um que enxergue a seu redor mais do que o habitual cinza fumê das cidades que geralmente possuem o céu na mesma cor. A questão é que em Oslo os prédios não brigam com o horizonte, com a vista do fiorde, com as nuvens, o sol ou a lua. Os prédios de lá também não brigam com os pedestres por espaço no passeio público, nem os prédios, nem os carros (mas isso dá outro texto).

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Quando você se afasta um pouco das docas, costeando o mar através daquelas ruas onde qualquer pedra é pitoresca, apenas uma coisa separa seus olhos do oceano e das belas precipitações de terra cobertas de um verde-folha fenomenal: as centenas, arrisco dizer milhares, de barcos nos atracadouros. Densas cortinas de mastros que se alastram até onde termina cada um dos píeres, e durante um certo trecho do caminho, olhe-se para a frente ou para trás parece que não possuem um fim. Ao olhar do passante, parece que entre cada atracadouro desenvolve-se uma outra cidade por si mesma, quase mais interessante do que a própria cidade de Oslo (e novamente quero destacar que não há nenhuma conotação pejorativa no que digo).

Talvez haja alguma simbologia no que observo, talvez não; o que tenho a relatar acaba aqui. Mas desde que voltei daquela aconchegante metrópole (outro adjetivo que parece impossível de ser combinado com seu substantivo, mas não se enganem: as metrópoles aconchegantes existem), quando sopra um vento frio que já sei não ser marítimo nem tão salobro, junto com a brisa flutua minha atenção. De volta para aquela extensa avenida ladeada por barcos infinitos.

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E penso comigo mesmo, já não tenho a pretensão de convencer alguém, o quanto daquilo, do que quer que seja que a cidade de Oslo desperta logo que em seu solo se pisa não vem desse simples detalhe: do fato de se enxergarem mais barcos do que prédios, do fato de que a cidade mais estende-se aos (e estende seus) verdeazulados horizontes das águas e fiordes do que enclausura seus mirantes e passantes entre cortinas negras de concreto acinzentado.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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