a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

O mesmo céu

O texto a seguir tem caráter reflexivo mais que informativo. Embora eu seja dos primeiros a atestar a incontestabilidade de evidências, fatos e estatísticas, não recorro aqui a elas. Não trago respostas, antes mais perguntas.


Coberto - talvez formado - por mitos e magia, paira o céu sobre a terra. Atiça imaginários atemporais; as auroras e penumbras, os cirros e cúmulos, as plêiades e a pletora de corpos celestes que jamais serão vistos. Talvez os mais românticos discordem de mim, mas se há uma verdade sobre o céu diurno é que ele é o mesmo em todos os lugares do mundo. Quando fui ao norte, aliás, foi das minhas maiores frustrações. O céu do extremo norte é igual ao do meio sul na maior parte do dia.

Não o noturno. O céu noturno muda mesmo com pouca distância. O movimento da terra (veja bem, da terra) em relação às estrelas cria imagens diferentes a cada época e em cada lugar diferente. Mas não deixa de ser o mesmo céu, o céu que nos engolfa, a talvez infinitude do universo. É um tanto contraditório: o céu significa liberdade (afinal, invejamos e continuaremos invejando, enquanto humanos, a liberdade dos pássaros), mas ao mesmo tempo o céu é a gaiola maior: tudo está contido nele. Evitarei ser perfeccionista a partir de agora; tampouco abordarei assuntos metafísicos.

O céu que se contempla no sul é o mesmo que se contempla no norte, dizia eu, na maior parte do dia. Não duvido que também o céu do leste seja o mesmo do oeste. E do nordeste seja igual ao que é no sudoeste. Variam apenas as molduras dentro das quais o observamos: podem ser as torres cinzentas de São Paulo ou as colunas esbranquiçadas do Partenon; seja o azulado mar de Oslo ou uma cadeia de morros esverdeados no verão da Patagônia; que ponha-se na frente a agressiva fumaça de Pequim ou a lúcida bruma dos Andes.

DSCN3614.jpg foto por Felipe Pergher

São as molduras para o céu - mesmo não tendo sido construídas com essa função - que formam o que chamamos de mundo civilizado, constituem tudo que abraçamos por sociedade. Habitamos, vivemos, morremos em meros bastidores, diafragmas, à borda de algo maior, e talvez maior do que a imaginação humana consegue conceber. Tudo o que construímos serve apenas para emoldurar o que nos envolve, a tal liberdade que nos separa do que há depois dela mesma.

Sob o mesmo céu, apenas visto dentro de uma moldura diferente, observa a revoada de pássaros um homem do leste. Pouco importa sua nacionalidade, já que seu patriotismo foi extirpado de si. Ele via pássaros no lugar de onde vinha, podem não ser os mesmos, mas daqui de baixo, são iguais. (Talvez lá de cima, também seja ele igual aos outros que aqueles mesmos pássaros olham sem enxergar.). Sabe que trocou o eterno estio pelos ventos gelados, trocou o rebanho de montarias pelo transporte coletivo, trocou sua casa confortável por uma habitação provisória compartilhada - tudo bem, muitos dos seus ainda estão junto a ele, pelo menos; e são laços humanos que, acima de tudo, compõem uma sociedade.

Pondera consigo mesmo sobre aquela moldura sob a qual olha o céu agora. É tão diferente - algum instinto impede-lhe de dizer que é mais bonita - mas com certeza não se compara à moldura de destruição que vira pela última vez antes de fugir com seus poucos pertences. E como podem, abaixo do mesmo céu, isolarem meras molduras das outras tanto quanto isolam? Se o céu é o mesmo, por que abaixo dele criou-se um caos tão grande a ponto de causar sua expulsão da própria terra?

De minha parte, pondero observações diversas. Se fosse dom dos homens enxergar o céu em sua plenitude; se pudessem perceber o quanto a improbabilidade da existência humana torna todos os que habitam a Terra cúmplices do mesmo acaso; ainda se entendessem que toda a construção da civilização é uma fração menos que irrisória do céu em volta; continuariam a rechaçar por coisa pouca seus coembrionários?


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// //Felipe Pergher