a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Notas de um falecimento

Meu pai faria cinquenta anos de idade no dia dez de novembro. Ele morreu no mês de dezembro do ano de 2012, em uma quinta feira ensolarada (que precedeu outra semana e meia de sol e calor). Nunca tirei algum tempo para escrever sobre o assunto. Leia-se esse texto como uma espécie de homenagem.


Meu pai faria cinquenta anos de idade no dia dez de novembro. Ele morreu no mês de dezembro do ano de 2012, em uma quinta feira ensolarada (que precedeu outra semana e meia de sol e calor). Foi o que me convenceu de que não há tempo - meteorológico nem cronológico - certo para se morrer. Falando em tempo: em três anos, nunca tirei algum para escrever sobre o assunto. Ei-lo.

Poucos dias antes de sua morte, foi minha formatura do ensino médio. Nessa noite, um transformador de energia elétrica do meu bairro teve uma sobrecarga, ou qualquer coisa assim. Eu não sei, não estava em casa. A geladeira queimou. Quando uma geladeira estraga, você não percebe na mesma hora. Você percebe a partir do ponto em que ela começa a esquentar - de repente não tem mais gelo, a manteiga está derretendo e a jarra de água não refresca nunca.

Tenho a impressão de que lidar com a morte causa mais medo por antecipação do que quando chega às vias de fato. Quando soube da morte de meu pai, fui completamente dessensbilizado, característica que mantenho até hoje sobre o assunto. Não me importo em pensar ou em falar sobre. Evito apenas para não ganhar aqueles olhares de pena que todos parecem saber dar instintivamente. Note-se duas coisas: primeira, quando falo em dessensibilizado, não quero dizer anestesiado, tampouco insensível. Segunda, refiro-me aqui à minha experiência.

A geladeira foi para o conserto, se não me engano, na terça-feira. Na quinta-feira, pela manhã, eu havia saído para comprar frios para o resto do dia. O tipo de coisa que não se guarda fora da geladeira. Era muito curioso como minha rotina era diferente sem uma; certas invenções parecem ridiculamente banais até você não ter acesso a elas. Quando cheguei em casa, fiquei sabendo que além da geladeira eu não tinha mais um pai.

Falo da antecipação porque (e isso é uma conclusão completamente arbitrária, a famosa "filosofia de boteco".) me parece que as pessoas são ensinadas de uma forma dicotômica em relação à vida e a morte. Como se fossem preto e branco, bem e mal. Primeiro que "bem" e "mal" são conceitos românticos, não existem na vida real. Segundo, acho que ninguém morre de uma vez. Se a vida é o preto e a morte é o branco, todo mundo, após seu nascimento, começa a acinzentar. Sim, alguns morrem antes de embranquecer, antes mesmo do grisalho. Mas não é por isso que a morte deixa de ser um processo contínuo. Inacreditável que ainda não tenhamos, como espécie, aceitado-a ao invés de tentar lutar contra ela.

DSC_0054.jpg Cemitério Memorial, na cidade de Oslo. Um dos cemitérios mais "vivos" onde já entrei.

Quando alguém, nas raras vezes em que converso com alguém fora do meu círculo imediato de amizades sobre o assunto, me fala algo parecido com "não sei o que eu teria feito se isso tivesse acontecido comigo", procuro me cuidar para não ser mal educado. A questão é que eu sei o que grande parte das pessoas fará, ou ao menos deveria fazer, quando isso acontecer consigo: respirar fundo e começar a se mexer. Porque, e talvez nisso o senso comum esteja corretíssimo, uma tragédia nunca vem só. Depois (e desde antes) do velório, ainda existe muito a ser feito.

Talvez seja um pouco fatalista de minha parte, mas acho que se deveria respeitar a morte como algo a que se está sujeito a todo o momento. Evitá-la a todo o custo, além de ser doloroso, não adianta em nada. E de quebra ainda leva ao que considero o pior pensamento possível quando se lida com a perda: "e se tivesse sido diferente?". Não foi. Ponto final. Nesse ponto dou crédito a quem diz que "aconteceu porque era para ser assim". Não que eu acredite numa escritura absoluta, onde os destinos de todo mundo já estejam traçados (que graça teria?), mas dou meu crédito pelo simples fato de que esse pensamento é um tanto quanto libertador. Pensar que tudo aconteceu da maneira que deveria ter acontecido, embora um pouco conformista, evita que se ocupe a mente com pensamentos improdutivos. O famoso "mas e se...".

Os dois últimos parágrafos podem ou não ter-me feito soar insensível. A questão não é essa. Acho que lidar com uma perda é algo extremamente pessoal, não existe um "jeito certo" - estou apenas compartilhando minha experiência. E no meu caso (que considero ameno, apesar de tudo), havia uma miríade de coisas que precisavam ser resolvidas por minha família. Enquanto lidávamos com a morte de um de seus membros. O luto e principalmente o espaço de cada pessoa deveria ser respeitado por todos, mas não é. Calendários, credores e cretinos dificilmente compartilharão dos sentimentos da família enlutada. Principalmente os cretinos, e nessa hora se percebe que não são poucos.

O ponto principal desse texto talvez seja uma pequena mensagem de conforto a quem passou, passará ou talvez ainda esteja passando por um desses processos. As coisas haverão de melhorar. É certo que elas não voltarão a ser como eram antes, porque uma perda tão próxima é sempre irreparável. O importante é não resistir a essas mudanças permanentes, deixar-se aprender possibilidades sobre o que antes já eram certezas, e resolver ao invés de reprimir a tristeza - e muito possivelmente haverá tristeza, mesmo que disfarçada de ansiedade ou insegurança.

Acho importante também não se preocupar com os mortos. Estando ou não em algum lugar, a certeza é de que eles não voltarão a estar entre nós. Pessoas não nos são inalienáveis, mas cabe aos vivos cultivarem aquilo que é.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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