a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Pequenos diários de viagem

Diários de viagem costumam soar, a menos que se domine a arte de escrevê-los, todos monótonos. Talvez haja um jeito melhor de retratar impressões de certos lugares em certas épocas. Trago alguns contos curtos concebidos durante alguma viagem, além de fotografias do lugar. Mais do que memorandos, acabam por refletir as influências do lugar sobre quem o vê.


Cidade

Mais um dia amanhecia normal. As mesmas árvores sombreavam a terra, cantavam os pássaros de ontem, passavam os passantes pelas estradas onde já cresciam pestes e gramíneas.

O dia não terminou como começara. Alguém tornara-se parte do meio, e para isso algum outro deveria desabitar. Uma árvore já não sombreava, alguns pássaros já migraram, passantes já eram residentes.

Mais um dia amanhecia normal. Fluxos fluíam, árvores frondosas e já antigas ainda sombreiam, torres e mastros e prédios impõem-se, parecendo querer tocar o céu; mastros juntam-se como se barcos fossem uma extensão flutuante dos arranha-céus, carros acendem suas luzes que alumiam a rua, ainda mais brilhantes que a iluminação pública, fluxos formam a forma, e a forma é fractal. Milhões de microcidades projetam-se dentro da amálgama urbana, do macrocosmo citadino.

Cidade

Espelho

Levanta de sua cama, esfrega os olhos e anda até a frente do espelho; o único modo pelo qual alguém pode sonhar em contemplar a própria imagem. É refém de si mesmo a vida toda, e sabe não conseguir enxergar-se, exceto pelo intermédio de espelhos, reflexos. Mesmo suas fotografias consistem numa imagem que antes passa por lentes.

Mas imagens são tão somente imagens. espelhos distorcem, clareiam, escurecem, deformam, tornam a mover. Através de reflexos, salões de beleza, lagos e poças, vidros de carro ou pratarias; nunca se vê como se é visto.

- Espelho meu - repete mentalmente enquanto golpeia a punhos nus o prato de prata que à sua frente pinta seu rosto - existe alguém mais feliz que eu?

"Agora não", responde em voz alta para si mesmo enquanto deixa o cômodo, pisando em cacos.

Espelho

Mausoléu de Musas

Havia em uma clareira num canto recluso do grande bosque, um cemitério. Não um cemitério de humanos, porém, com cruzes, lápides e urnas. Tampouco o era um cemitério de animais, ou máquinas, ou memórias e outras coisas defuntas que as pessoas insistem em guardar.

Esse cemitério é onde iam para morrer os seres da floresta. Morrer metaforicamente, não existe morte para os seres da floresta. Eles partem, renovam-se, voltam e vão quantas vezes for possível. Não há túmulos no mausoléu.

Ao invés, o cemitério emana vida. Pois as dríades e náiades, ninfas e metamorfos, assumem as formas mais esplêndidas ao fim da vida: de árvores a seres da água e do céu. Existem estátuas, mármores e bronzes, dos mais ilustres, mas mais do que estátuas existem as árvores, as flores, os rastejantes e voadores. Há um aroma, um toque, sons e imagens de vida, agitação, onde tudo ferve e nasce. E ali morrem os seres da floresta, talvez no lugar mais vivo entre todos os outros.

Mausoléu

Lugares e não-lugares

Existiam lugares que não eram por certo lugares. Não podiam ser chamados de pátrias, cidades ou continentes. Havia um certo padrão, uma diversidade cultural imensa acolhida por estruturas mundialmente padronizadas - talvez para que lembrassem de uma vez a terra-mãe de todos.

A magia desses lugares era simples: cada um que por lá passava levava consigo sua própria sabedoria, ou qualquer outra diferente do que normalmente era visto naquela região, naquele espaço. E baseando-se nesse trânsito, certos ambientes acabavam perdendo as características do lugar onde se encontravam.

Assim, quem estivesse no aeroporto internacional de uma cidade não estaria na cidade, quem trafegasse dentro de seu carro através das rodovias do pequeno país não estaria dentro do país. Aqueles que viajassem através de fusos horários dentro de trens ou aviões se encontrariam em uma dimensão à parte, fora do espaçotempo. E certos estabelecimentos seriam sempre os mesmos, seja qual fosse o lugar do mundo em que se situasse sua construção.

Lugares

Muros, cantos e caminhos

Ela andava por paredes. Não sobre as paredes, ou apoiada a elas, ou mesmo atrás delas. Movia-se pelas paredes como se fossem trilhos, calçadas, pontes, guias.

Aquilo feito para separar é sua única forma de unir, de mover-se entre dois espaços. Ninguém a via, com poucas exceções. E as poucas pessoas que a viam julgavam ver incrustes de mármore, rubi, sangue ou fogo em sua pele e em seus cabelos.

Os cantos para ela eram a parte mais difícil. Seu caminho que era sempre, de modo estrito, à frente, repentinamente se dividia em dois, três outros. E sua síncope dependia apenas de si mesma nesses cantos, e seus caminhos muros não mais uniam-lhe espaços. Voltavam a servir para impedir a passagem.

Muros


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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