a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

Conselho de um escrevedor para si mesmo (ou como vencer crises de produtividade)

Em algumas ocasiões, nem mesmo a disciplina mais estrita é capaz de levar-nos a produzir. E antes que possamos perceber, já estamos imersos em ciclos de procrastinação. Mas não estou aqui para te ensinar a parar de procrastinar. O que vou apresentar são algumas coisas que funcionam para mim. Completamente subjetivas. Talvez para você sejam um tanto contraprodutivas. Pensando bem, não acredite em mim.


Esse texto começa como uma autocrítica, completamente pessoal, e acaba se expandindo em uma espécie de conselho (ou anticonselho, dependendo da perspectiva). Como todo conselho, há um imenso grau de subjetividade nele. Publico esse texto apenas porque gostaria que a sua leitura fosse tão útil a alguém quanto sua concepção foi a mim.

Você não é o primeiro nem o último a passar por tempos de escassez criativa. Se algum dia você já se esforçou para ser um escrevedor, sabe exatamente do que falo: Aqueles momentos (às vezes semanas ou meses) em que nada parece querer ser criado. Talvez esses momentos venham acompanhados de uma pequena crise de disciplina, seja qual for o motivo.

Death of Marat Causa mortis: "Aqueles momentos (às vezes semanas ou meses) em que nada parece querer ser criado". Eu sei, isso foi infame.

Costumo sempre defender a disciplina em contraponto à inspiração. Lampejos criativos - importantes o quanto sejam - não produzem obras primas por si só. Há um lado um pouco menos glamuroso na escrita: o investimento de tempo, as reescrituras de parágrafos ou páginas inteiras, o eventual descarte de ideias que antes pareciam geniais. Enquanto a inspiração, a centelha sobre a estopa, é o que permite que o fogo aconteça, depois da faísca é preciso combustível constante para manter a chama viva.

Mas em algumas ocasiões, nem mesmo a disciplina mais estrita é capaz de levar-nos a produzir. E antes que possamos perceber, já estamos imersos em ciclos de procrastinação. Talvez eles sejam como um poço de paredes escorregadias: quanto mais se afunda em um, mais difícil é de sair dele.

Não estou aqui para motivar você, ou te ensinar a parar de procrastinar. Disso já estamos cheios na internet. O que vou apresentar são algumas coisas que funcionam comigo, ou seja, baseiam-se num conhecimento puramente subjetivo/anedótico. Talvez para outros escritores possam ser um tanto contraprodutivas. Não acreditem em mim.

1 - Pare de ler(seus escritores favoritos)

Você gosta de Tolkien, nós concordamos sobre sua importância. Mas nunca existirá outro Tolkien. Se por um lado as influências literárias são uma parte importante na formação de qualquer escritor, por outro podemos acabar absortos demais em um certo padrão de escrita; talvez até identificar-nos com nossos ídolos. E aqui está o problema: você chega a fascinar-se por um certo autor, ao ponto de achar que esse autor já disse tudo o que você mesmo teria a dizer. Ledo engano. A maioria das coisas ainda não foi dita. Mas se a intenção for trazer novas ideias, não será apenas de velhas fontes que elas virão.

2 - Abandone rotinas de escrita (por algum tempo)

Já estamos saturados de ouvir escritores veteranos dizendo o quanto enquadrar-se em rotinas de escrita é importante. E para diversas ocasiões, de fato é. Mas estamos falando sobre baixas criativas aqui, e acredite, as rotinas são inimigas da criatividade. Sigamos um raciocínio simples: se o problema é o medo da "folha branca", quanto mais tempo passarmos frente a frente com ela, mais esse medo tende a aumentar, ascendendo em espiral. Ao invés de espremer alguma escrita mais ou menos medíocre nos prazos e horários aos quais você está acostumado, ocupe seu tempo de escrita com outra coisa e experimente escrever em horários diferentes, talvez até inusitados. Logo depois do café da manhã? Ao acordar de sonhos intranquilos? No fim de um exaustivo dia de trabalho? Na poltrona reclinável após um longo banho? Tanto faz. O importante nesse ponto é tentar ambientes de escrita diferentes. As vezes, uma noite de sono ou uma boa refeição são capazes de alterar completamente nossas condições físicas e mentais. E quando essas condições não são favoráveis, as rotinas prestam um desserviço ainda maior à criatividade.

3 - Esqueça padrões de qualidade (tradicionais)

Lembra daquelas três revisões que se costuma recomendar: no dia seguinte, em um mês e em três meses? Descarte-as. Aquele seu amigo com fortes tendências obsessivo compulsivas que trata de corrigir seus eventuais erros de ortografia e gramática? Dispense cordialmente seus atenciosos serviços. Aquela impressão de que você não está usando todo o seu potencial e que sua verborragia jamais será um best-seller? Lute contra até vencer. Eu nunca disse que seria fácil. Talvez quando você ignorar padrões e pretensões, você possa aproveitar todo o potencial da escritura. Que sempre foi - e continuará sendo - infinito. A escrita é uma das válvulas de escape do mundo - um lugar onde você não está (ou não deveria estar) sujeito a padrões além dos seus. Escreva. O pior que pode acontecer é o texto não ser lido por ninguém além de você - mas vá lá, foi divertido escrevê-lo. Por fim, lembre-se sempre de que poucos dos maiores lapsos de genialidade da história humana foram reconhecidos em sua própria época. Mas não use isso como desculpa.

4 - Desligue seu senso criativo (mas mantenha a chave na ignição)

Vendem-nos uma imagem do escritor boêmio, cosmopolita, distraído e sonhador, capaz de transformar até mesmo os sentimentos mais horríveis em arte a ser apreciada pelos meros mortais. Quando finalmente compramos essa ideia, desconsideramos que essa boemia romântica só funciona a partir ou mais desses princípios: a) é uma fase que ocorre durante um pico de criatividade; b) causada ou propelida por substâncias psicoativas; c) vem espontaneamente, ninguém decide ser boêmio de uma hora para outra. Sim, é muito importante que o escritor não resuma-se a seu próprio mundo; que tenha experiências, conheça pessoas, pratique esportes ou beba alguma coisa em algum bar obscuro de um bairro perigoso. Mas isso não tem, e em hipótese alguma devemos imaginar que tenha, a obrigação de tornar-se combustível para a escrita. O escritor deve procurar pela centelha e abastecê-la com seu combustível; mas acender seu isqueiro ininterruptamente contra o vento ou atirar seu combustível a esmo não acenderá fogo algum, e ainda deixar-lhe-á sem recursos para quando necessário for.

5 - Isole-se (apenas o suficiente)

Se o item anterior é um contraponto parcial à ideia de escritor noctívago altamente sociável, esse será um contraponto total e direto. Como diabos você pretende escrever algo se não consegue ficar em paz com uma caneta e um caderno? Ou um teclado e um monitor? Ou mesmo com seus próprios pensamentos, totalmente sozinho? Que tipo de romance é escrito totalmente dentro de um clube de cavalheiros? Quais poesias saíram de uma mesa de bar direto para uma antologia? Isso é tudo. Escolha um horário, pegue sua caneta e seu papel, e prepare-se para encarar uma pequena jornada solitária. Sem interações, sem distrações, sem nada que te distancie do que você deve fazer. Uma ideia genial não se escreve sozinha. Alan Moore, através de um de seus personagens, disse que, ideias são à prova de balas. Concordo, mas você sabe por que? só por serem imateriais. Se você quiser que sua ideia seja materializada, faça acontecer. Nisso, ninguém pode te ajudar além de você mesmo.

6 - Não olhe para o abismo (e são muitos os abismos)

Talvez esse seja o ponto para evitar as baixas criativas em primeiro lugar. Para mim, a maior parte dos surtos contraprodutivos acontecem quando começo a assumir uma postura contemplativa perante o que chega até mim. A resposta mais intuitiva para isso seria simplesmente procurar evitar essas posturas, pelo menos no que se referir à escrita em geral. Você pode e deve contemplar suas escolhas, seus problemas, seus valores, qualquer coisa. Até mesmo sua escrita, em várias ocasiões. Mas quando a contemplação torna-se um fator que bloqueia sua criatividade, ela pode e deve ser substituída por uma dose de pragmatismo, ou ócio criativo, ou ócio não criativo. Talvez a ideia de que ignorância é felicidade aqui seja verdadeira. Sejamos sinceros: remoer tristezas ou ausências nunca trouxe consequências muito positivas a ninguém. Escrever também funciona assim. Não é pensando sobre as falhas do autor que o texto se faz.

Nitch, Bitch.jpg Friedrich Nietzsche evitando olhar para o abismo durante um período de ócio não criativo com seus amigos. Prometo que essa é a última legenda infame desse artigo.

Deixemos como conclusão uma última ideia, talvez interessante, e talvez presente em todas as outras: não leve nada muito a sério, nem a escrita e nem a si mesmo. Se estiver em um período de baixa produção criativa, seja por mudar de hábitos ou por não conseguir fazê-lo, aproveite-o para direcionar sua energia para outras coisas. Escrever é uma daquelas coisas como nadar, dirigir ou andar de bicicleta. A prática causa melhorias estrondosas em sua habilidade, mas você não esquece como se faz só por passar algum tempo sem fazer. Talvez em uma noite dessas você acorde sem sono e com uma ideia brilhante; aproveite seu curto período sabático até esse dia.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
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