a grande gruta da pretensiosidade

Verbovirilidade verminante. Pragmatismo prolífico pretenso.

Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais

(mais um) motivo para o abandono do facebook

É esperado que haja, sempre que algo na internet se populariza ao ponto de tornar-se um consenso, certo abandono desse serviço por uma parcela de seus usuários. Seja por acharem alguma opção melhor para o que tal serviço tem a oferecer, por uma suposta marginalização de seu conteúdo, ou mesmo por declínio de interesse. Recentemente, juntei-me a essa parcela.


Vou começar esse escrito saciando uma possível curiosidade do leitor sobre o título. O motivo pelo qual abandonei meu Facebook é simples: produtividade. Aquele tempo em partes recompensador no qual eu costumava observar de longe a vida cheia de sucessos e alegrias e lutos e piadinhas sagazes de meus contatos, ao fim do dia, acabava por ser totalmente inócuo. Fiz um favor a mim mesmo e comecei a investir esse tempo em atividades que me satisfizessem de formas menos inócuas. E disso, felizmente, a internet ainda está cheia.

twittering-machine-1922.jpg!Large.jpg A "Máquina Piante" de Paul Klee. Retrato da realidade das mídias sociais em 2016. Feito um século antes. Fonte da imagem: Wikiart.

Mas seria um texto paupérrimo se acabasse por aqui. Então vou praticar um exercício iconicamente chamado de masturbação mental, e escrever um pouco mais a fundo sobre o assunto.

A questão é que o Facebook estava me tornando deveras arrogante. Se a enxurrada de informações à qual se é submetido em um feed de notícias multicolorido já é suficiente para fazer qualquer leitor de manchetes sentir-se um conhecedor interdisciplinar, as condições propícias para a arrogância completam-se com a pressão constante que se sofre para que sejam expostas nossas opiniões. Porque o Facebook – mas não só ele – especificamente nos pergunta, no topo de nossas páginas: “O que você está pensando?”. Você compartilha uma notícia, mas é impelido, ao fazê-lo, a colocar sua opinião sobre ela. Você vê uma postagem, e já tem acesso a caixa de comentários, para expressar novamente sua opinião sobre o assunto. Por “você”, leia-se também “o autor desse texto”.

Agora, não estou criticando a democratização da comunicação. Que isso fique bem claro. Talvez haja uma série de problemas em sua aplicação, mas não em seu princípio. O problema, na minha opinião, nasce quando se tem muitos falantes e poucos ouvintes.

Se formos analisar os critérios de relevância para comentários (e refiro-me aqui à maioria dos sites ou fóruns da internet que se baseiam em votos para hierarquizar seu conteúdo), os mais relevantes são aqueles que angariam mais “reações” positivas em um menor espaço de tempo. Obviamente, comentários mais curtos são escritos (e lidos) mais rapidamente, e assim, recebem mais atenção do que aqueles longos e muitas vezes exaustivos.

É muito mais fácil dizer “um pássaro na mão é melhor que dois voando” do que estabelecer uma comparação entre as vantagens da caça de um pássaro ou da preservação da espécie. Se esse pássaro não servir como alimento, por exemplo, será que é vantajoso abatê-lo? E se os dois que voam formarem um casal de uma espécie ameaçada de extinção, não é melhor mantê-los vivos? Generalizações, na maioria das vezes, são burras. Ou, como enfaticamente diria uma ilustre professora de redação que tive, NUNCA se deve generalizar NADA. Comentários curtos, justamente por serem curtos, possuem uma grande chance de serem superficiais. E comentários superficiais possuem uma grandíssima chance de serem... bom, superficiais. De não levarem em consideração fatores que em qualquer outro contexto seriam cruciais para o entendimento de uma situação.

two-studies-of-a-bird-of-paradise-1630.jpg!Large.jpg Duas aves do paraíso desenhadas por Rembrandt. Será que valem menos do que um pardal em sua mão? Fonte: Wikiart.

Temos também um inignorável zeitgeist que nos pressiona a tomar partido. Parece que uma análise fria de uma situação é impossível, é inclusive desaconselhada. A menos que você queira ser um “isentão”, termo que, assim como “textão”, demonstra o quanto superlativos são malvistos nessa época. Essa frase soou surpreendentemente piegas. Não era a intenção. Particularmente, considero importante que se tenha posições bem claras. Mas que essas posições não se tornem uma cartilha que deve ser seguida passo a passo em todas as situações. Que ninguém se posicione a favor de atrocidades só porque são convergentes com a visão de seu mentor intelectual.

Recapitulando: somos constantemente pressionados a tomar partido, em um espaço que favorece interpretações curtas – contanto que sejam sagazes o suficiente para ser reproduzidas – e que não obstante nos dá a entender que todos estão muito interessados em ouvir nossas opiniões. Isso tudo compõe um terreno fértil para a arrogância, em um espaço que deveria promover justamente o oposto.

Tenho quase certeza de que meu caso não é um desvio da curva. Talvez não especificamente na rede social que citei, talvez não só pelos motivos que citei. De todo modo, as mídias sociais nos dão uma sensação de falsa grandeza que pode ser muito perigosa. Já é quase clichê falar mal dos mendigos de curtidas, sedentos por atenção ou apreciação entre os de seu meio. Não me prolongarei.

Isso pode ser uma interpretação um pouco pessimista. Afinal, com certeza existem vantagens em se usar uma rede social. Seria hipocrisia negar esse fato. Mas não me debruçarei sobre essas vantagens por enquanto. A ideia aqui era falar sobre o motivo pelo qual entrei em uma jornada de desintoxicação desse site, que finalmente culminou em seu abandono quase total. Se por acaso você, leitor, estiver contemplando a ideia de suicídio social cibernético, minha dica é que experimente. É revigorante.


Felipe Pergher

Graduando em Artes Visuais. Leva o pragmatismo a sério e a vida de um jeito pretensioso. Talvez um pouco demais.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Felipe Pergher