a hora e a vez

"Os espaços entre os abraços, guarda-me apenas uma fresta". Ana Carolina

Marcos Martins

Estudante de Publicidade e Propaganda (Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium - UniSALESIANO) e funcionário público da cidade de Sud Mennucci-SP (Secretaria Municipal de Educação). Gosto de escrever sobre comunicação, tecnologia, artistas e literatura. Loucamente apaixonado por livros, música e culinária. Amo estar entre amigos e familiares!

A genialidade linguística nas canções de Adoniran Barbosa

A linguagem da poesia de Adoniran é caracterizada por um vocabulário com muita informalidade, mas não é uma informalidade qualquer, é uma variação linguística sociocultural marcada pelo regionalismo, linguajar popular e pelas gírias. Muitas vezes sem nenhum prestígio social, porém é este modo errôneo, inculto e popular de ser que configurou a maneira de estar... certa e agradar a todos! Foi com essa característica que Adoniran Barbosa manifestou sua arte, quebrando paradigmas e preconceitos linguísticos.


Adoniran Barbosa 05 pa.jpg

Adoniran Barbosa (1910-1982) foi um importante cantor, compositor, humorista e ator brasileiro. É considerado o patrono do samba paulista, onde as letras de suas canções deixaram peculiaridades que caracterizam sua genialidade linguística e remete-nos à percepção do linguajar da boemia noturna, ou melhor, a linguagem popular paulistana.

A linguagem da poesia de Adoniran é caracterizada por um vocabulário com muita informalidade, mas não é uma informalidade qualquer, é uma variação linguística sociocultural marcada pelo regionalismo, linguajar popular e pelas gírias. Muitas vezes sem nenhum prestígio social, porém é este modo errôneo, inculto e popular de ser que configurou a maneira de estar... certa e agradar a todos! Foi com essa característica que Adoniran Barbosa manifestou sua arte, quebrando paradigmas e preconceitos linguísticos.

0b40b3b83a9da2c59ad99527a718e600.jpg

Em suas composições Barbosa não preocupava-se com a ausência de concordância verbal (As mariposa/As mariposas), com a alternância das palavras (muié/mulher), entre outros traços linguísticos, pois a ironia de suas letras é estar extremamente próximo ao jeito de falar dos excluídos socialmente, os subtraídos pela sociedade, que concretizaram um padrão informal com a simplificação da norma culta da língua portuguesa.

"As mariposa"

As mariposa quando chega o frio

Fica dando volta em volta da lâmpida pra se esquentar

Elas roda, roda, roda e dispois se senta

Em cima do prato da lâmpida pra descansar

Eu sou a lâmpida

E as muié é as mariposa

Que fica dando volta em volta de mim

Toda noite só pra me beijar

adoniran barbosa.jpg

O mesmo acontece com "Samba do Arnesto", com bastante dinamismo que a tríade linguística permite Adoniran escreveu:

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás

Nós fumos não encontremos ninguém

Nós voltermos com uma baita de uma reiva

Da outra vez nós num vai mais

No outro dia encontremo com o Arnesto

Que pediu desculpas mais nós não aceitemos

Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa

Mas você devia ter ponhado um recado na porta

Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá

Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,

Assinado em cruz porque não sei escrever"

adoniran.gif

Outro exemplo rico no modo de falar brasileiro está na canção "A luz da light":

Lá no morro quando a luz da light pífa

A gente apela pra vela, que alumeia também

(quando tem)

Se não tem não faz mal

A gente samba no escuro

Que é muito mais legal (e é natural)

Quando isso acontece

Há um grito de alegria

A torcida é grande pra luz voltar

Só no outro dia

Mas o dono da casa

Estranhando a demora e achando impossível

Desconfia logo que alguém passou a mão no fuzíl

No relógio da luz

maxresdefault.jpg

"Um samba no Bexiga"

Domingo nós fumo num samba no bexiga

Na rua major, na casa do nicola

A mesa não deu conta

Saiu uma baita duma briga

Era só pizza que avuava junto com as braxola

Nóis era estranho no lugar

E não quisemo se meter

Não fumos lá pra briga, nós fumo lá pra come

Na hora "h" se enfiemo de baixo da mesa

Fiquemo ali, que beleza vendo a nicola briga

Dali a pouco escutemo a patrulha chegá

E o sargento oliveira falá

Num tem importância

Foi chamada as ambulância

Carma pessoal,

A situação aqui está muito cínica

Os mais pior vai pras clínica


Marcos Martins

Estudante de Publicidade e Propaganda (Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium - UniSALESIANO) e funcionário público da cidade de Sud Mennucci-SP (Secretaria Municipal de Educação). Gosto de escrever sobre comunicação, tecnologia, artistas e literatura. Loucamente apaixonado por livros, música e culinária. Amo estar entre amigos e familiares!.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 9/s/musica// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marcos Martins