a letra litoral

No fog das ideias

Germana Belo

Carioca, Psicóloga, roteirista, paladina das artes e da Psicanálise. Entre um café e outro, escreve sobre os assuntos que lhe ocupam a mente e o coração.

COWSPIRACY: A verdade que não querem contar e sobre a qual não queremos saber

Diante de algumas verdades somos obrigados a nos posicionar, seja na alienação, na culpa ou na ação.


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Kip Andersen, jovem ambientalista da Califórnia, conta como viu o estilo de vida que há anos defendia com afinco ser colocado em questão ao ler o post de um amigo no Facebook. O post remetia a um relatório da ONU afirmando que a criação de gado produzia mais gases do efeito estufa do que as emissões de todo o setor de transporte. Impressionado com a informação, continuou a pesquisar sobre o assunto e descobriu que o papel da agropecuária na degradação ambiental ia muito além disso.

Assim tem início “Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade”, documentário produzido em 2014 através de uma campanha de financiamento coletivo (depois que seus financiadores desistiram de apoiar o projeto devido a natureza controversa do tema), e que graças ao apadrinhamento do ator Leonardo DiCaprio - hoje, um de seus produtores executivos - ganhou projeção e fechou um acordo de exibição com o Netflix.

“Cowspiracy” demonstra a partir de dados fundamentados e alarmantes como a indústria agropecuária é a principal fonte de destruição do planeta, sendo a causa número um do desmatamento (91% da Floresta Amazônica!), das mudanças climáticas, da escassez de água e da extinção das espécies, além de ter papel fundamental na perpetuação da fome no mundo. Nos mostra, de maneira perturbadora, a omissão por parte das organizações ambientais que optam por não falar sobre o assunto, e como esse silêncio está a serviço dos interesses de uma indústria de poder econômico e político absoluto. E, finalmente, nos coloca frente a uma verdade definitiva: não há como produzir carne e laticínios para atender a atual demanda de consumo da população mundial de maneira sustentável, ou seja, sem que o planeta sofra com isso, sem que isso gere consequências ambientais e sociais graves e, até mesmo, fatais.

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Porém, o mais inquietante sobre o documentário é, certamente, o fato de nos tirar do conforto da ignorância e nos chamar a responsabilidade, ao deixar claro que no momento em que escolhemos o que colocamos à mesa também estamos fazendo uma opção que tem um impacto no mundo. Comer é, enfim, um ato político; e ao optarmos pelo consumo animal estamos nos inserindo como parte de uma cadeia produtiva que começa com a derrubada de árvores e se perpetua no ponto onde a democracia tropeça frente a pressão do lobby agrícola que atende interesses de uma minoria.

E como culpar aqueles que lucram com essa exploração e não abrem mão de seus interesses quando nós em nosso egocentrismo também não nos dispomos a abdicar de um prazer mundano em prol de um bem futuro e maior?

O fato é que é comum ao homem colocar seu bem-estar e prazer acima de qualquer dever moral e ético; e em um mundo cada vez mais regido pelo princípio do prazer - aquele que deseja a gratificação imediata e evita a frustração - falha o princípio de realidade. Uma realidade que nos mostra que não adianta tomar banhos mais curtos porque a água que se gasta para produzir aquele hambúrguer que você come equivale a do banho de um mês; que não resolve trocar o carro pela bicicleta quando, mesmo eliminando todos os meios de transporte poluentes, a pecuária ainda seria responsável por 51% da poluição do ambiente; que seria necessário você começar a mudar seus hábitos alimentares hoje para que daqui a 15 anos os 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo também pudessem ter direito a alimentação. O princípio dessa realidade nos pede para abdicarmos de um prazer que pode ter uma função complexa em nossas vidas e nos demanda, até mesmo, que repensemos a relação que temos com a comida. É uma realidade da qual preferimos não saber. Mas a partir do momento em que ela se impõe a nós como denúncia nos vemos obrigados a nos posicionar, seja na alienação, na culpa, ou na ação.

Assim, para aqueles que escolhem a alienação, não importa, daqui a dois minutos, provavelmente, não lembrarão disso. Para os que paralisam na culpa, bem-vindos ao clube. E para os corajosos que decidem fazer algo a respeito, fica uma dica: o site oficial do filme (www.cowspiracy.com) tem o "Desafio Vegano por 30 dias". Parabéns e boa sorte!


Germana Belo

Carioca, Psicóloga, roteirista, paladina das artes e da Psicanálise. Entre um café e outro, escreve sobre os assuntos que lhe ocupam a mente e o coração..
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