Karoline de Carvalho

Uma pessoa cada dia mais convicta de que precisa ser mestre, doutora e phd na busca por ser alguém melhor.

A sensibilidade na escrita de Clarice Lispector

A sensibilidade que Clarice Lispector manifestou em sua escrita, está diretamente relacionada com sua história de vida. Querido leitor, conceda-me um pouco de sua atenção e conheça detalhes da atmosfera que envolveu Clarice.


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Conheci Clarice Lispector nas aulas de Literatura, quando cursava o Ensino Médio. Era ano de vestibular e eu travava aquela luta de ter que estudar diversas disciplinas, mas ao mesmo tempo querendo me aprofundar na escrita de Clarice. Foi lendo A hora da estrela que me descobri na escrita, e fiquei encantada com aquela leitura que me alcançava de maneira bem introspectiva. Logo após a leitura do livro, passei a ter os meus escritos e perceber, que com as palavras eu poderia expressar sentimentos e emoções, como também tocar o coração de quem lê. Cheguei à fase adulta e o encantamento por Clarice foi aumentando, à medida que eu ia tendo contato com suas obras. Meu entendimento diante da vida foi se moldando com o passar dos anos, então passei a compreender melhor as muitas mensagens implícitas na produção da renomada autora. Clarice é sempre muito atual, porque falar de sensações e sentimentos é algo muito presente na vida humana.

A sensibilidade é o fator principal para conseguir se apropriar do conteúdo das obras de Clarice Lispector. Sua escrita perpassa as inquietações da alma, as angústias a respeito da vida e a profundidade do que há no íntimo da vida humana. É preciso uma leitura atenta, um coração aberto e uma mente conectada com a grandeza da vida para compreender Clarice. A respeito de sua relação com a escrita Lispector afirmou: “Escrevo porque encontro nisso um prazer que não sei traduzir. Não sou pretenciosa. Escrevo para mim, para que eu sinta minha alma falando e cantando e às vezes chorando”.

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A força das palavras que Clarice usava refletem seus dramas pessoais: a perda da mãe ainda criança, o assassinato do avô no período da guerra, a perda do pai vítima de um erro médico durante uma cirurgia de rotina. Lispector escrevia para externar uma luta que travava consigo mesma diante da sua vida, e dos muitos questionamentos que envolviam sua existência. Seu nascimento trazia a missão de salvar a vida de sua mãe que, na época, padecia de uma sífilis contraída por um estupro cometido por soldados em sua terra natal. Havia uma lenda entre os mais antigos que a chegada de um filho curava a mãe da enfermidade. Contudo, a mãe de Clarice viria a falecer anos depois no Brasil. A saudade da mãe esteve em muitos dos escritos pessoais de Lispector, fazendo com que a célebre escritora utilizasse a palavra como uma constante busca para amenizar o vazio que via em sua existência.

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As experiências pessoais na vida de Clarice, muitas vezes, foram colocadas em sua escrita de maneira autobiográfica. A respeito disso pode-se destacar o livro Felicidade Clandestina, com um título que traz a lembrança da alegria que Clarice sentiu ao conseguir emprestado o livro Reinações de Narizinho. A alegria da menina Clarice ao ter consigo algo inviável diante da situação financeira da família, é traduzida com o título Felicidade Clandestina anos mais tarde. Segundo o relato de sua irmã Elisa, Clarice era uma criança com talento para liderança e com forte poder de persuasão e senso de justiça. Foi na infância que a célebre autora começou a criar suas primeiras histórias, que eram encenadas para sua mãe paralisada pela doença, porém mesmo sem fala ou movimentos esboçava um sorriso diante da pureza da filha.

Quando chegou ao Brasil, Clarice Lispector tinha meses de vida e não trazia a marca da perseguição que seus familiares carregavam pelo terror da guerra. Em suas entrevistas sempre afirmou que apesar da pobreza em que a família viveu em Recife, ela sempre se sentiu feliz em sua infância. Clarice começou a enviar textos ainda menina para seleções e concursos, porém sua produção nunca era escolhida, porque diferente das outras crianças ela não seguia o molde do “era uma vez”. A escritora que seria consagrada por sua escrita intimista, iniciava desde a infância a prática de escrever sobre sensações e sentimentos.

Foram muitos os destaques que Clarice fez sobre a infância em seus escritos pessoais. A falta que sentia dos pais era sempre um fato que inspirava o instinto protetor dos amigos mais próximos. Afirmou em uma entrevista que falar para crianças era mais fácil, porque a criança era naturalmente mais solta. Sempre destacou o Recife de sua infância como o seu lugar, e com o passar dos anos sempre dizia que sentia falta da sua infância. Em sua escrita Clarice pretendeu externar o que trazia de mais íntimo, portanto seus romances, contos e crônicas tinham o compromisso de expressar a sua verdade impressa nas inquietações tão presentes em sua vida.

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Durante a leitura de um texto de sua autoria em espanhol, Clarice advertiu seus ouvintes, dizendo: Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio porque, se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento. Se uma dúzia de ouvintes sentir o meu texto, já me darei por satisfeita.” . Clarice lutou contra depressão durante muito tempo, assim sua escrita era uma ferramenta que a mantinha viva. Em seus momentos mais críticos fez da arte de escrever o seu grito diante de tudo aquilo que era escuro dentro de si. Sua amiga íntima Olga Borelli declarou que Clarice em seu processo de criação para o livro a Hora da Estrela, deu vida ao seu personagem Olímpio enquanto sorria, comia beiju e rabiscava o papel durante sua participação em uma feira nordestina. Assim, comprovava que a literatura é a vida vivendo, conforme sempre declarou.

Fortemente sedada em seu leito de morte a sensível escritora, conseguiu cumprir a sua vontade de morrer escrevendo. Em sua última declaração redigida por sua amiga Olga Borelli, Clarice expressou: “ Sou um objeto querido por Deus. E isso me faz nascerem flores no peito. Ele me criou igual ao que escrevi agora: “sou um objeto querido por Deus” e ele gostou de me ter criado como eu gostei de ter criado a frase. E quanto mais espírito tiver o objeto humano mais Deus se satisfaz.”


Karoline de Carvalho

Uma pessoa cada dia mais convicta de que precisa ser mestre, doutora e phd na busca por ser alguém melhor..
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