a poesia que entorna

Poetas são autores e leitores da poesia... a que existe na arte da vida!

Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma

A solidão do poeta e não só

A letra da música "O ciúme", de Caetano Veloso, entre muitas outras possibilidades de leitura, vem nos alertar sobre a necessidade humana de expressão, seja em forma de poesia ou não. Isso causa sensação profunda de ciúmes no eu que fala na letra da canção, ao encontrar-se diante do rio São Francisco, portador de mistérios poéticos, o qual lhe dá inspiração para cantar, ao mesmo tempo que este eu lírico reclama a incapacidade de fazê-lo.


Rio_são_francisco.jpg

O dicionário Michaelis aborda o ciúme, entre outras acepções, como um sentimento negativo, mescla de ódio e desgosto, decorrentes da situação favorável de outrem, nesse caso, bem próximo da inveja. É neste sentido que é possível compreender a situação do poeta - um cantador, mais especificamente - que se coloca à beira do rio São Francisco, conforme nos presenteia a letra da música "O ciúme", de Caetano Veloso (Philips - Polygram, 1987), divulgada principalmente pela voz mágica e sedutora, única e inconfundível de Geraldo Azevedo. A maior parte do rio São Francisco situa-se em terras nordestinas. É diante dele que se põe o eu lírico, desse que é o mais importante rio do Nordeste brasileiro, cuja nascente se localiza na Serra da Canastra, no Centro-Sul do país, no estado de Minas Gerais. O eu que fala nesta letra de música parte, então, da natureza - o rio - para externar os seus sentimentos, mostrando, posteriormente, que não está sozinho em suas indagações sobre a existência humana, mas que tais questionamentos estendem-se, de uma forma mais ampla, aos seres sociais. Analisamos, aqui, apenas o texto em sua linguagem poética.Não temos, portanto, a pretensão de nos estendermos a relações com a melodia, arranjos, ritmo, etc, trabalho que se encontra muito bem desenvolvido, por exemplo, em uma dissertação de mestrado da UFSC, para quem possa se interessar por tais aspectos. Na letra desta canção, construída com extremo esmero poético, o que se pode, já de início, discutir é o contraste estabelecido entre entre a luz do sol e a cor escura que o poeta atribui ao ciúme: "Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia/Tudo esbarra embriagado de seu lume/Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia/Só vigia um ponto negro: o meu ciúme/O ciúme lançou sua flecha preta". Vê-se, também, a intimidade do eu lírico com o rio São Francisco, referido por ele como "Chico" e, mais adiante, "velho Chico". O cenário descrito, a margem do rio, onde tudo "dorme" ao sol preguiçoso do meio-dia, produz um clima de embriaguez, de preguiça, em função desse momento do dia. As águas do rio sob o brilho do sol refletem tudo o que se situa ao seu redor. Entretanto, no brilho dessas águas,"tudo esbarra" nada lhe penetra. Impenetrável, o rio reina, soberano, poderoso, situação semelhante a um congelamento de imagem, como numa pintura. Em meio a esse palco, apenas o ciúme do poeta sugere movimento. Apenas ele, é o único que se mantém acordado, vívido. É o ponto negro em meio a tanta luz, sem o clima de descanso que caracterizam o ambiente ao redor: "Só vigia um ponto negro: o meu ciúme/ O ciúme lançou sua flecha preta". Personificado, então, metaforizado na tal flecha, atinge, propositalmente ou não, a garganta - de onde emana a voz desse poeta-cantador. Personificação inigualável e intraduzível a não ser da forma como está construída na canção. O ciúme permanece vivo e canta à beira do rio. O poeta atribui ao rio e não a ele próprio o ato de cantar. É válido relacionar o que vem a seguir: "Que nem alegre nem triste nem poeta/Entre Petrolina e Juazeiro canta" - como referência ao poema "Motivo", de Cecília Meireles, na sua primeira estrofe: "Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta. Onde tudo acontece? Entre Petrolina e Juazeiro. Ambos os lugares, personalizados, permanecem inertes. Ambos se isentam em relação ao sentimento do poeta que reclama: "Juazeiro, nem te lembras dessa tarde/Petrolina, nem chegaste a perceber". Nada parece ser capaz de corresponder às inquietações deste poeta-cantador que, ao se ver solitário, reporta-se às origens, à nascente do rio e seus mistérios: "Velho chico vens de minas/De onde o oculto do mistério se escondeu/Sei que o levas todo em ti, não me ensinas". Para o poeta, então, o rio guarda os mistérios de Minas e não os desvenda, o que pode ser, quem sabe, compreendido como o ciclo do ouro, riquezas escondidas e buscadas por muitos, metaforizado aqui, não apenas como riquezas materiais, mas, principalmente, como conhecimento e enriquecimento da alma. Por não ter acesso a esses mistérios, sente-se só: “E eu sou só eu/ só eu só, eu”. Se nem Juazeiro nem Petrolina questionam. Se esses lugares estão em paz e em sono sereno, a voz do poeta canta e questiona tudo, buscando razões, explicações: "Mas, na voz que canta tudo ainda arde/Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê”. É notável o contraste entre as águas do rio que remetem a frescor e a voz do poeta que arde em busca de respostas. Não podendo dialogar com o rio, consola-se ao saber que não está só em seus questionamentos, pois reporta-se a outras pessoas: "Tanta gente canta, tanta gente cala/Tantas almas esticadas no curtume". Refere-se a dores psíquicas de outrem. Agora não mais apenas física: a flecha que o atinge. E continua: "Sobre toda estrada, sobre toda sala/Paira, monstruosa, a sombra do ciúme". Há mais ciumentos e questionadores como ele por toda parte. Há mais almas, manifestadas ou não, inquietas como a sua, nas salas das casas, por toda a sociedade. O ciúme, por fim, encontra identificação, por parte do poeta, como sombra monstruosa, portador de mistérios poéticos que nos transmite o eu lírico, embora os considere indizíveis. Assim, traduz a necessidade de expressão que caracteriza o homem, seja ele poeta ou não. A letra da música completa encontra-se no link


Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// //Valda Suely