a poesia que entorna

Poetas são autores e leitores da poesia... a que existe na arte da vida!

Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma

A poesia de um cotidiano sem poesia

A letra da música "Cotidiano", de Chico Buarque, mostra que o poeta pode cantar até mesmo a ausência de poesia.


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A obra de Chico Buarque é, com muita frequência, interpretada pelo ponto de vista político-social, relacionada ao Brasil da ditadura militar. Por isso, antes de mais nada, é preciso concordar com um estudioso dele, Humberto Werneck, que afirmou que “como qualquer artista, Chico não tem as chaves de sua criação [...] são imponderáveis, também, as circunstâncias em que brota uma canção. Cotidiano veio debaixo do chuveiro - a ideia, por sorte, não escapou pelo ralo, como frequentemente acontece se não é anotada na hora”, conforme se confere no link. É possível ver em sua obra muito mais, além da crítica social. O fato é que poeta que é poeta canta até mesmo o amor que já não existe ou que até existe, mas carcomido pela invariabilidade do cotidiano. Esse cotidiano descrito na letra de Chico não está apenas no sentido da palavra que dá título ao texto, mas reflete-se na própria construção da letra. Um dos recursos é a repetição constante da expressão “todo dia”, retomada por quatro vezes, no início das estrofes, além da transformação “toda noite”. O título da letra já se explica no primeiro verso, quando o eu do texto menciona uma segunda pessoa no seu discurso, “ela”, que, com atitude rotineira, “sempre igual”, o faz acordar pela manhã de um jeito um tanto árido, tenaz, que em nada se parece com um despertar natural: “me sacode às seis horas da manhã”. Ao descrever os gestos dela, salienta uma convergência para atitudes mecanizadas por essa rotina, a começar pelo "sorriso pontual", ensaiado e autômato. Além disso, o dia é dividido 4 em porções matematicamente iguais, 6 da manhã, meio dia, 6 da tarde e meia noite. Quatro partes, lembrando um quadrado, quem sabe grades, o que pode até sugerir uma prisão, a rotina que aprisiona. Para além da materialização do tempo, surge também, como recurso para descrevê-la dentro dessa rotina, o paladar. O surpreendente, enquanto texto poético, é que a musa não tem sabor próprio. Configura-se moldada pelos sabores que o mundo lhe fornece. Ao acordar, a boca é de hortelã, seu sabor é dado pelo creme dental. Logo a seguir, na despedida da manhã, a boca é de café. Ao final do dia, vem o anúncio de algo original, como quem, após um período de ausência, aguarde uma novidade e, ao voltar, encontra realmente outro sabor, a boca de paixão. Essa expectativa constitui o ponto alto da narração, inclusive com alteração no ritmo da música, que se acelera. Entretanto, a promessa da paixão não se concretiza, pois, no momento da demonstração de carinho, a sensação é oposta: “aperta pra eu quase sufocar” e “morde com a boca de pavor”. Nesse misto de expectativa e frustração, carinhos e cuidados fazem parte do cotidiano, uma vez que “ela diz que é pra eu me cuidar” e “diz que está me esperando pro jantar”. Mas logo ocorre uma banalização desse mesmo carinho, quando quem o recebe acrescenta: “essas coisas que diz toda mulher”. Há também a atitude dela de esperar no portão, o que, para quem é esperado, não tem valor, nem novidade, pois já “era de se esperar”, ou seja, também lhe parece um ato mecanizado. Quanto às atitudes da noite, que poderiam ser mostras efetivas de carinho, o eu que fala não se reporta a elas como gestos, mas como algo que se limita ao nível do dizer - “ela diz” – sugerindo descrença nas emoções: “Diz que está muito louca pra beijar”, “Toda noite ela diz pra eu não me afastar”, “Meia-noite ela jura eterno amor". O eu lírico se mostra sufocado e evidencia o desejo de mudança “Todo dia eu só penso em poder parar”, “Meio dia eu só penso em dizer não”. Mas não o faz por comodismo, por dependência dessa mesma rotina que o aprisiona, pois confessa: “Depois penso na vida pra levar/E me calo com a boca de feijão”. A praticidade fala mais alto, necessita de quem lhe faça o feijão. Nessas condições, encontra-se em um círculo criado pela rotina. A narração não aborda o dia do início ao seu fim, mas do início de um dia ao reinício do próximo. A última estrofe repete exatamente a primeira, reafirmando a noção de cotidiano em que, no dia seguinte, tudo recomeça exatamente igual. Em síntese, a poesia não precisa existir apenas em função da beleza. Ela está antes na subjetividade, na forma de descrever. Daí, até mesmo o marasmo pode ser matéria poética. Link para a letra.


Valda Suely

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