a poesia que entorna

Poetas são autores e leitores da poesia... a que existe na arte da vida!

Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma

Do clássico ao samba: poesia sempre

É bastante comum a poesia ser associada ao livro e, consequentemente, a uma elite do mundo letrado. Para muitos, ainda lembra apenas nomes de escritores consagrados, considerados “clássicos da literatura”. Mas, pode-se afirmar que seja poética uma letra de música - um samba - escrita por compositores que não aparecem em livros? Sim, é possível romper com o preconceito que se situa em torno dessa visão.


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Afirmar que seja poética uma letra de música cantada por Zeca Pagodinho pode parecer estranho? E o que dizer da música "Seu balancê", letra de Toninho Geraes e Paulinho Rezende, que se utiliza de uma variação linguística que foge, e muito, ao padrão culto da língua portuguesa? Pode conter poesia?

Seu Balancê Quando o canto da sereia/ Reluziu no seu olhar/ Acertou na minha veia/ Conseguiu me enfeitiçar

Tem veneno teu perfume/ Que me faz o seu refém/ Seu sorriso tem um lume/ Que nenhuma estrela tem

Tô com medo desse doce/ Tô comendo em sua mão/ Nunca imaginei que fosse/ Mergulhar na tentação/ Essa boca que me beija/ Me enlouquece de paixão/ Te entreguei numa bandeja/ A chave do meu coração

Seu tempero me deixa bolado/ É um mel misturado com dendê/ No seu colo eu me embalo/ Eu me embolo, até numa casinha de sapê/ Como é lindo o bailado debaixo/ Dessa sua saia godê/ Quando roda no bamba-querer/ Fazendo fuzuê

Minha deusa, esse seu encanto/ Parece que vem do Ilê/ Ou será de um jogo de jongo/ Que fica no Colubandê/ Eu só sei que o som do batuque/ É um truque do seu balance/ Preta, cola comigo porquê/ Tô amando você.

Ao pensar em poesia, é natural lembrar nomes de escritores conhecidos, aqueles que compõem os clássicos da literatura. Isso porque é comum a poesia associar-se ao poema - texto escrito em versos -, ao livro e, consequentemente, a uma elite pertencente ao mundo letrado. Embora alguns estudiosos mais contemporâneos, discutam que letra de música não é literatura, estamos considerando poética a linguagem com palavras, elaborada de forma artística. Vamos tratar aqui de poesia enquanto manifestação da beleza, do sentimento estético por meio das palavras, que pode ser expresso sob a forma de versos ou até mesmo de prosa. A letra dessa música faz simplesmente uma declaração de amor, tema conhecido e manifestado pelas mais variadas formas de comunicação. Entretanto, não é isso que a faz ser poesia. Um dos aspectos que a tornam poética é a exposição desse sentimento amoroso, praticamente, sem utilizar a palavra amor. Esta só aparece como verbo no último verso, quando o declarante confirma “tô amando você”, momento em que, a quem ouve, já foram oferecidas muitas formas de compreendê-lo. Isso significa que o autor recorre a uma linguagem metafórica, recurso que permite dizer, sem dizer, pela aproximação de características e conotações. Nesse sentido, o balancê, referido no título da canção, designa um tipo de dança em que se balanceia o corpo compassadamente, sem sair do lugar. Representa, portanto o gingado, que caracteriza a cultura brasileira, muito associada ao carnaval e ao samba. Já, por aí, nota-se que esta letra se liga a um aspecto cotidiano do imaginário cultural do brasileiro, de forma que se distancia da ideia, que anteriormente citamos, de poesia como formalidade e erudição. Por outro lado, ao aludirmos a formalidade e erudição, podemos lembrar a maneira como o emblemático poema de Camões buscou descrever o sentimento amoroso. Isso antes mesmo de o europeu vir a encontrar as terras e o já existente povo daqui.

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Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;/ é um andar solitário entre a gente;/ é nunca contentar-se de contente;/ é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;/ é servir a quem vence, o vencedor;/ é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade,/ se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Camões já havia atentado para as contrariedades que envolvem o sentimento amoroso quando tenta explicá-lo como “fogo que arde sem se ver” ou “ferida que dói e não se sente”, assim como todos os demais paradoxos listados por ele. Da mesma forma, construindo uma sequência de ideias opostas, é trabalhada a letra da música citada, mas esta, em linguagem cotidiana contemporânea. "Seu balancê" vai se referir a um certo “Mel misturado com dendê”. Ou seja, uma mistura, um combinado de sabores opostos, doce e ardido. Essa imagem alude mais especificamente ao nordeste brasileiro, por ser o dendê uma planta de origem africana, muito utilizada pela culinária baiana. O referido tempero, pelos seus diferentes sabores, provoca, no eu que se declara na música, uma espécie de feitiço, caracterizado pelo termo “bolado”. Tal palavra vem expressar de forma coloquial um estado de quem se encontra surpreso ou constrangido diante de algo inesperado, ou ainda aborrecido, chateado, como também pode equivaler a alguma espécie de efeito provocado por algum tipo de entorpecente. Este eu já teria aludido ao seu estado de encantamento quando, logo no início da música, lembra a lenda da sereia, figura capaz de atrair e encantar os ouvintes com seu canto. Assim é, declara ele, o olhar da mulher por quem se diz enfeitiçado. Da mesma forma, já refletiu Camões sobre o desconcerto da mente, quando questionou nesse soneto citado: “Mas como causar pode seu favor/nos corações humanos amizade/se tão contrário a si é o mesmo Amor?” Para além disso, a estrofe da música que descreve a mistura de mel com dendê não se esgota em apontar as dualidades que caracterizam o amor. Refere-se, sobretudo, a um amor sensual, que pode até ser lido como o próprio ato sexual, dadas as imagens que denotam a beleza do bailado “debaixo dessa sua saia godê” e que prossegue com palavras despreocupadas de significados precisos, culminando em “bamba-querer” e “fuzuê”: Seu tempero me deixa bolado/ É um mel misturado com dendê/ No seu colo eu me embalo Eu me embolo/ Até numa casinha de sapê/ Como é lindo o bailado Debaixo dessa sua saia godê/ Quando roda no bamba-querer/ Fazendo um fuzuê...

Percorrendo-a mais adiante, é possível ver que a canção é tecida com vocabulário também ligado a religiosidade, mais especificamente o candomblé, representado na última palavra dos versos: “Minha deusa esse seu encanto/Parece que vem do ilê”. E prossegue buscando transformar sentimentos em palavras com “Ou será de um jogo de jongo” – jongo que constitui uma dança de roda de origem africana, realizada em sentido anti-horário – “Que fica no Colubandê” - este último, palavra de origem indígena, denomina um bairro de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Marcando ainda o coloquialismo, além das repetidas reduções de, “tô” em vez de estou, há também o “cola comigo”. É o momento em que o apaixonado concretiza o tão informal pedido de namoro, solicitando a companhia, a presença definitiva.

Por fim, é necessário pontuar que, ao longo do tempo, muda a sociedade e com ela mudam, evidentemente, também as formas de expressão. No entanto, a poesia, por existir no ser humano, pode ser construída tanto em linguagem formal, a exemplo da camoniana, da cultura europeia, quanto numa linguagem mais informal ou mais oralizada, do universo do samba, do balancê e do gingado espontâneo. Afinal, ambas as culturas estão na raiz do povo brasileiro. Além disso, o fato de os compositores dessa música dizerem tanto sem usarem a palavra chave "amor", confirma um sentimento que não necessita ser nominado, confirma também que, assim como há infinitas formas de amar, há também de demonstrá-lo. E, se os poetas nos permitem um palpite, às vezes, nem mesmo necessita de palavras.


Valda Suely

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