a poesia que entorna

Poetas são autores e leitores da poesia... a que existe na arte da vida!

Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma

O sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada é o sol

A letra da música “Força estranha” constrói um eu lírico artista que expõe um certo momento de percepção essencial, provocada por um mergulho no tempo. Ao unir presente, passado e futuro, constitui-se como inteiro e confessa encontrar na arte a própria força motriz da vida.


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A letra da música “Força estranha” foi produzida por Caetano Veloso em 1978 e gravada pela primeira vez na voz de Roberto Carlos. Nela se constrói um eu lírico (o eu que ali se mostra como personagem) que expõe um certo momento de percepção essencial, provocada por um mergulho no tempo. Esse texto poético revela o encontro do eu lírico com a criança interior, o que alude a suas vivências passadas. Estas, confrontadas ao presente, projetam nele um futuro repleto de expectativas. Tal percepção se torna possível a partir de um percurso feito de dentro para fora. O olhar do eu lírico percorre, primeiramente a sua interioridade, onde se vê criança: "Eu vi um menino correndo". Depois, referindo-se à imagem de uma gravidez, sugere um olhar a seu redor: “a mulher preparando outra pessoa / o tempo parou pra eu olhar para aquela barriga”, constituindo a outridade em confronto consigo mesmo. Por fim, forma constatações sobre algumas verdades humanas, ou melhor, sobre a sua verdade, a que extrai das vivências mais pessoais. A repetição da construção “eu vi” concretiza em palavras o mergulho no seu interior, onde se registram as lembranças de experiências sobre o que até então vivenciou. Essas lembranças buscam todo um constructo do mundo, do seu mundo. Esse momento faz com que o eu lírico se perca em seu tempo psicológico. Henri Bergson, filósofo francês (1859-1940), influenciou muito a era moderna por seus conceitos de tempo, os quais se baseiam na consciência. É o que o filósofo chamou de durée. Pensando assim, não há como falar em tempo sem fazer referência ao aspecto “mudança”, processo no qual as pessoas, constantemente, estão envolvidas. Considerar o tempo é, então, uma forma de tentar compreender o próprio ser humano, seus pensamentos e ações. Bergson refere-se ao tempo como um entrecruzamento de passado, presente e futuro que não se dão da forma linear como usualmente se pensa. Para ele, o passado é parte integrante do presente, uma vez que é condição para passagem, para o movimento do tempo. A identidade de cada ser é, portanto, no seu presente, o resultado de suas vivências passadas, bem como de suas projeções futuras. Trata-se de uma multiplicidade qualitativa de estados psicológicos que se sucedem, interpenetrando-se em contínua mudança em relação aos fatos da consciência. Assim, imagens tais como: “Eu vi um menino correndo/Eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino” expressam, poeticamente, o tema sobre o qual discorre, em linguagem objetiva, o teórico. A personificação do tempo, nessa música – este que brinca ao redor do caminho do menino – mostra, assim, uma visão que funde o adulto e a criança presentificados. Como atitude de criança, o tempo, para esse eu lírico, marca passagem em ritmo de brincadeira. O referido menino, que corre, tanto pode representar o menino criança correndo por brincadeira, como pode ser o menino adulto no corre-corre do seu cotidiano, dos afazeres de adulto. Este que acaba de perceber que, não obstante a seriedade da vida adulta, ainda traz, latente, a sua "parte" criança. Assim, canta que o tempo brinca, passa rápido, e canta também o fato de não ter observado o caminho que teria traçado até chegar de menino a homem. Isso porque menino e homem existem ambos nele, a um só tempo, como uma simbiose entre o adulto e a criança. Sabendo que a procura permanente da verdade, assim como a reflexão crítica sobre valores, fatos e princípios gerais da existência são objetos da filosofia, nesta letra, permeada de reflexões sobre a vida, as palavras do eu lírico lembram também Heráclito, filósofo do devir, nascido por volta de 540AC. Para este, tudo flui e permanece em constante movimento. Sua conhecida reflexão, a de que ninguém toma banho no mesmo rio duas vezes, pois as águas já fluíram e, assim como as pessoas, já se modificaram, pode ser encontrada de forma poética em: “Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei”. Entretanto, o que se vê aqui é uma recriação dessa ideia, em que o eu lírico, em vez de tornar ao rio em um outro momento, sugere um continuum, por jamais ter se afastado dessas águas. O que se pode depreender desta transformação é justamente uma mudança, que, de tão rápida, mal pode ser percebida. Como a expressão popular “piscar de olhos”, empregada em situações semelhantes. Veja-se a incerteza do eu lírico, que, na hesitação da rapidez, apenas supõe: “acho que nunca os tirei”. Ao lançar o olhar ao redor, afirma esse poeta: “O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei”. Nesse momento, enxerga um presente repleto de vida, que pode ser compreendido se consideramos que a “estrada” representa o curso da vida, o “sol” sendo a luz e o “passar” simbolizando a caminhada, o próprio viver. Também é possível ainda ler esse "passar" em analogia com o sentido de passamento, morte. Então, há vida, há esperança, e é disso que ele se dá conta. Quanto ao olhar para o outro, o feminino, a “mulher preparando outra pessoa”, faz perceber a vida também do lado de fora, em outro ser. Aborda, então, o sentido mais objetivo da vida, o nascimento do homem físico, em sua concretude e não mais o renascer da alma, como anteriormente. Esses três olhares culminam em uma conclusão, expressa pelos verbos no presente: “A vida é amiga da arte/É a parte que o sol me ensinou”. Trata-se de uma constatação, pode-se dizer, em tom proverbial, o que o leva a arriscar uma continuidade: “O sol que atravessa essa estrada que nunca passou”. Conclui, então, pela presença do sol, cuja existência independe da sua percepção ou atenção, assim como a estrada, que requerem tão somente a predisposição a enxergar. Olhar para dentro, ao redor a para o outro, levam-no a estabelecer a ligação entre vida e arte, esta última, símbolo de fantasia, percebida à luz do sol, só pode resultar em vida. Em se tratando do trivial, do cotidiano, que sempre se fez presente, ora modificado apenas pelo seu modo de ver, o eu lírico entoa o refrão: “Por isso uma força me leva a cantar / Por isso essa força estranha / Por isso é que eu canto, não posso parar / Por isso essa voz tamanha”. O cantar pode, aqui, ser compreendido no seu sentido literal, de emitir sons musicais, mas não só. Também pode-se compreender como cantar a vida, poetizar, etc, atitude que se justifica por algum tipo de força “estranha” – estranha porque desconhecida, não esquisita - pela qual o eu lírico se sente impulsionado. Essa tal força estranha pode ser identificada com o que a psicanálise chama de energia, a religião denomina fé, o senso comum, mais amplamente, chama de esperança, ou, quem sabe, o que os poetas chamam de amor. Nesse ponto da letra, o eu lírico sugere um olhar para a figura do artista. Tendo percebido a função da arte, apreende também uma condição de vida do artista: “O tempo não para e, no entanto ele nunca envelhece”. Define-o como quem conhece “o jogo do fogo das coisas que são”, como quem é, ao mesmo tempo “sol”, “tempo”, “estrada”, “pé” e “chão”. Percebe que a ligação do homem com a arte leva-o a um tempo diverso das demais pessoas, motivo da sua juventude permanente. Trata-se de um conhecedor do jogo da vida e de todas as partes que constituem esse jogo: fogo, sol, tempo, estrada, pé e chão. Esse eu, amadurecido, ao reconhecer-se artista – ainda que um artista da arte de viver – disso infere dois valores: “a coisa mais certa de todas as coisas / Não vale um caminho sob o sol / E o sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada é o sol”. Eis o que lhe importa, um caminho à luz do sol e o que é a luz do sol. A viagem por seu tempo interior faz com que se veja assim maduro. Confessa ter presenciado batalhas declaradas ou não, externadas por aqueles que gritaram vontades, com “homens brigando", "seus gritos", assim como também o que não foi expresso, que permaneceu como "cada vontade encoberta". Daí, suas noções de verdade, de certo e errado, sua verdade essencial: “um caminho sob o sol”. E o que seria isso? Ele próprio confessa a impossibilidade de transpor em palavras, quando só consegue a repetição: “O sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada, é o sol”. Ofício do poeta, transpor sentimentos em palavras, as quais nem todos os leitores conseguem apreender. Chega ao inefável, fica, então, para o leitor/ouvinte da música o papel de completar esse sentido, e ser também um pouco poeta, estado em que se encontra o eu lírico, ao compreender o artista, identificar-se como tal. O conhecimento intuitivo do leitor opera-se diretamente, como uma sondagem no real para coincidir com aquilo que ele tem de concreto, de único, e indizível por consequência. A compreensão da arte é, portanto, identificação com o próprio objeto contemplado, que culmina em uma forma fundamental de compreensão do ser. Constituir-se como inteiro é, a exemplo desse eu lírico, unir presente, passado e futuro e não fragmentos de pessoa. É uma das lições que podem ser extraídas dessa letra de música, elaborada a partir do mais delicado esmero da criação estética.


Valda Suely

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