a poesia que entorna

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Valda Suely

A poesia anda por aí, em pessoas, bichos, coisas... enxergá-la requer algum modo de olhar com a alma

Se o machismo se justifica - Faz parte do meu show

Apesar de tantas discussões, vivemos ainda em uma sociedade que impõe valores comportamentais padronizados a homens e a mulheres como requisito para adaptação. Já viramos o século e o eu lírico, criado por Cazuza e Renato Ladeira, na década de 1980, na letra da música "Faz parte do meu show", é bastante atual.


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Há séculos, a ideologia do machismo está impregnada nas raízes culturais de muitas sociedades. Isso se reflete ainda hoje desde o sistema econômico e político mundial, até nas religiões, mídia, etc. O regime patriarcal ainda não é incomum em alguns núcleos familiares, onde a figura masculina representa liderança. Neste cenário, a mulher encontra-se, infelizmente, ainda num estado de submissão ao homem, perdendo o seu direito de livre expressão ou sendo forçada pela sociedade machista a servir e assistir às vontades do marido ou do pai, muitas vezes, sem nem ao menos ela se aperceber disso. Quando não tem consciência dessa situação, ela acaba por se sentir protegida por eles, supervalorizando, assim, os direitos dos homens, em detrimento dos seus e vestindo a carapuça do comportamento machista. Tudo isso sem falar nos casos extremos do machismo que chega a agressões físicas, bastante denunciado pela mídia na atualidade.

Vamos tratar aqui da letra de uma música que coloca em questão o machismo que ainda existe velado em algumas consciências masculinas, desvelando-o como sinal de fraqueza humana e não de fortaleza como a postura machista costuma simular. A letra de Cazuza e Renato Ladeira "Faz Parte do Meu Show", compõe o álbum Ideologia que é o terceiro solo de Cazuza, lançado em 1988, já cantada anteriormente (e não tão ouvida), pelo grupo Herva Doce em outro ritmo. Ideologia é um disco conceitual e ganhou o Prêmio Sharp de melhor álbum, no ano de seu lançamento.

A letra da música em questão concebe o ponto de vista de um eu masculino que, aparentemente, exibe exagerado senso de orgulho masculino, de virilidade, ao mesmo tempo que reconhece a sofrida e agressiva relação com uma mulher. E o que parece favorecer e enaltecer o sexo masculino sobre o feminino, exibe sua falta de coragem de assumir-se humano, frágil e incapaz de aceitar o sentimento amoroso na sua grandiosidade.

O início da letra já sugere a situação de poder em que o eu lírico tenta se colocar, situando-se como o agente das ações e à mulher como paciente: "Te pego na escola e encho a tua bola/Com todo o meu amor/Te levo pra festa e testo o teu sexo/Com ar de professor". A ação de buscar na escola, demonstra atitude de pessoa que se quer mostrar mais madura, que recolhe e que oferece amor a outro alguém que, no curso da vida, ainda se encontra em situação de aprendiz, de estudante. Não bastasse isso, coloca-se como professor na relação de parceiro sexual. E não de um professor que ensina, mas sim como quem cobra, "testa", construindo, assim, uma situação de pressão para o eu feminino da história. Esse eu lírico, excessivamente "masculinizado" pelas convenções sociais, sente a necessidade de fantasiar seu real temperamento: "Faço promessas malucas/Tão curtas quanto um sonho bom/Se eu te escondo a verdade, baby/É pra te proteger da solidão". Age em relação ao entregar-se ou mostrar-se por inteiro como conotação de fraqueza. É preciso representar, por isso, justifica sua representação de fortaleza masculina e a obrigação de "proteger" como parte do seu "show". Mas, não obstante toda essa tentativa de mostrar-se forte, ele a ama, pois repete insistentemente no refrão: "meu amor". Daí, podermos compreender o título da música não só como uma justificativa (suas ações são parte de uma simulação), mas também como um convite, um tanto imperativo (algo como: faça parte também; aceite as regras do meu jogo). Ainda, como fuga da realidade cria o seu chamado mundo da lua: "Vago na lua deserta das pedras do Arpoador/Digo 'alô' ao inimigo/Encontro um abrigo no peito do meu traidor". Em resumo, trai a si mesmo, negando seus sentimentos e, diante da falta de coragem de se mostrar, simula situações de independência, como fuga: "Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou". Reconhece que está confuso: "Vivo num clipe sem nexo/Um Pierrot retrocesso (o Pierrot é um personagem da Commedia dell'arte representado como um palhaço triste, apaixonado pela Colombina, de rosto branco e uma lágrima desenhada abaixo dos olhos cuja característica principal é a ingenuidade, além de ser um lunático, distante e inconsciente da realidade)/Meio bossa nova e rock'n roll". A metáfora empregada por ele para descrever seu estado "Meio bossa nova e rock'n roll" mostra sua situação paradoxal, pois trata-se de dois ritmos muito distintos um do outro. Ambos surgidos entre as décadas de 1940 e 1950, a Bossa Nova é um gênero musical de origem no Brasil - Rio de Janeiro, com letras que abordavam temáticas leves e descompromissadas, cuja forma de cantar baixinho, bem pronunciado e coloquial, assemelha-se ao falado. "Faz Parte do Meu Show", fez com que os brasileiros revivessem a Bossa Nova, da forma como Cazuza a cantava com a voz tranquila. Por outro lado, o Rock and roll é um estilo surgido nos Estados Unidos, cujos instrumentos mais representativos são a guitarra e a bateria, em ritmo acelerado. Assim, ritmos e estilos bastante opostos se confundem, misturam-se e formam a situação antitética de sofrimento do eu masculino que fala nessa música.

Confuso, trai, levado pelo medo de prender-se: "Confundo as tuas coxas com as de outras moças/Te mostro toda a dor". E o faz embora tenha consciência do sofrimento que provoca. Mas isso não basta. A paternidade também é necessária para confirmar a "macheza": "Te faço um filho/Te dou outra vida/ pra te mostrar quem sou".

Nos limites desta letra, não se tem acesso ao ponto de vista feminino. Entretanto, fica visível a situação de um eu masculino, infeliz e consciente da infelicidade que provoca em outro. Tudo isso em função de estereótipos, da manutenção de máscaras que atendam às convenções sociais. Nesse sentido, cabe estabelecer um diálogo com o que cantou Gonzaguinha: "Um homem também chora/Menina morena/Também deseja colo/Palavras amenas". Em resumo, qualquer mudança de comportamento e de atitude demandam uma transformação profunda na estrutura social e isso leva tempo, requer formação, disposição e respeito pelo espaço do outro além do próprio. Letra da música completa no link


Valda Suely

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