a poltrona

Crônicas e cápsulas

Wilame Prado

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Aos 30

Os 30 anos são cruciais: convém expulsar o moleque para deixar nascer o homem, mas, honestamente, você parece ainda não estar pronto para isso. Então vai tentando disfarçar a molecagem que há em você para todo mundo ao redor, mas, quando ninguém está vendo, numa manhã friazinha de sábado em que a insônia o despertou da cama, você chora sozinho vendo uma fina garoa cair...


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Um dia antes dos 30 a gente acorda seis horas da manhã, em pleno sábado, sem entender tamanha proeza: nunca é assim de meio de semana. Toma um anti-ácido – foi a pizza da noite de sexta – e se recorda de uma época em que o estômago aceitava tudo, sem reclamar de nada e sem lhe fazer engordar um grama sequer.

Antes dos 30 a gente fica um tanto tocado com uma leve garoa que cai lá fora, molhando os vasos de plantas dispostos na área social do prédio. Emociona-se também com um céu avermelhado, horário de verão, quase um nascer do sol, e ainda sente nostalgia com um vento frio que invade toda sua sacada.

Prestes a completar 30 anos, a gente cata um livro interminável do Dostoiévski e promete para si mesmo: já que acordou cedo, esta manhã atípica de sábado servirá para ler, no mínimo, 100 páginas de “O Idiota”. Mas o idiota é você, que já se esborracha no sofá no meio da leitura do segundo parágrafo, óculos para lá, livro para cá, e o sono retomado até umas dez horas, quando finalmente você acorda e, agora sim, estômago recuperado, delicia-se com aquele último pedaço de pizza amanhecida, já sabendo, porém, que, mais tarde, a azia vai azedar a sua vida novamente.

Aos 30 chegando, a gente sente preguiça de sair de casa num sábado chuvoso, e deixa para depois a roupa que está na costureira, o test drive que tanto você queria fazer, o mercado, a farmácia, o posto, o futebol vespertino, a cerveja com os amigos no fim de tarde ou uma visita que está devendo para os parentes.

O trinta está batendo na porta, mas ninguém abre: esse sofá tá bom demais.

Trinta anos nas costas é sentir sim dor nas costas, mas não somente nas costas: no pescoço, na costela, nas pernas e, às vezes, todo preocupado, até no peito, mas há de ser gases, há de ser.

As décadas se completam e então você se lembra de que trinta termina com “nta”, assim como quarenta, cinquenta, sessenta, setenta, oitenta e noventa. O “nte” dos vinte anos é mesmo único.

Fazer aniversário aos 30 é se recordar daqueles planos infalíveis que se fazia aos 18 e que, estranhamente, não deram muito certo: ainda não se tem o doutorado, sequer o mestrado, há no máximo uma pós bem mal feita em sábados preguiçosos cheios de slides e calor.

Aos 30 não há também o primeiro milhão, mas este certamente nunca haverá. E não há árvores plantadas, livros bem escritos, filhos saudáveis em seu colo. Nem jogar pôquer você aprendeu ainda.

Os 30 anos são cruciais: convém expulsar o moleque para deixar nascer o homem, mas, honestamente, você parece ainda não estar pronto para isso. Então vai tentando disfarçar a molecagem que há em você para todo mundo ao redor, mas, quando ninguém está vendo, numa manhã friazinha de sábado em que a insônia o despertou da cama, você chora sozinho vendo uma fina garoa cair enquanto se recorda de alguns aniversários divertidos que passou na infância, perto da família, com bolo e refrigerante e pouca preocupação na cabeça.

Feito um menino de quase 30, enxuga as lágrimas e tenta ler Dostoiévski sozinho no sofá, mas o sono não deixa. E então sonha que está caindo de um penhasco ou que está indo para o colégio pelado. Feliz aniversário.


Wilame Prado

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