a poltrona

Crônicas e cápsulas

Wilame Prado

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Só o amor salva, mas leve o atestado

A gente torra o cartão de crédito comendo mais, bebendo mais, nos entupindo de coisas industrializadas. E a gente engorda. E a gente quer emagrecer. Academias lotadas. Clubes de corridas lotados. Parques ecológicos entupidos. Mas, no fundo, a gente só queria mesmo é jogar mais uma partida de futebol online no videogame. No fundo, a gente só queria mesmo é ver Netflix, a novela das nove, um reality gringo...


ls-lowry-going-to-work-1959-the-lowry-collection-salford-thumb-600x439-62008.jpg Obra de 1959 de L.S Lowry, pintor modernista inglês: paisagens industriais

Eu me sinto de mãos amarradas. É a sociedade, deve ser a sociedade. O modus operandi. Consumismo não combina com amor. Quero pedir desculpas: trabalhamos tanto que não há tempo para sequer conversar. A madrugada se aproxima e é preciso jantar, lavar-se, dormir, ajeitar tudo, propiciar um mínimo de ordem para que a próxima jornada – que se inicia em menos de seis horas – seja encarada sem atropelos. Mas sempre há atropelos. Escovar os dentes, vestir a calça, colocar um iogurte na mochila, mas esquecer de por a comida do gato. A gente não ouve o som da vida. Piloto automático salva a ponto de quase sempre conseguir não desagradar o relógio-ponto. Mas e o amor? WhatsApp é ilusão d'ótica. A gente não sente o cheiro da vida. Redes sociais sem os cinco sentidos. Qual é o sentido da vida? E que sentido devo pegar neste caminho?

A idade avança, o tempo não para, mais do que isso: o tempo não gira em velocidade normal. A velocidade da roça. Da brisa do mar. Do alpendre da casa, cadeira de área. Um dia eu contei: a velocidade de um ano vivido tinha transformado 365 dias em 24 horas. Então já eram dezesseis, dezessete, século 21 se esgotando na ampulheta. O amor perdeu. Não há possibilidade alguma de amar uma cadeira, uma mesa e um computador. O amor ficou para mais tarde. Mais tarde, porém, estamos embriagados de sono e completamente estarrecidos por nos darmos conta de que, “caramba, já está tão tarde!” Eu nem queria usar essa calça-jeans quatorze horas por dia. Essas coceiras, essas feridas, é o tecido que, intermitentemente, fica colado à pele. Sinto falta de ar em meio ao ar-condicionado, luzes de LED, monitores incandescentes. Persianas de metal. “Fechem a janela para não vazar o ar”, ordena um dos seres humanos que nadam naquele marasmo das corporações. Aquários corporativos. Escritórios sempre meio amarronzados. Baias que dividem seres humanos super conectados e super idiotizados.

O sol salva, assim como o amor. Mas sinto a ausência dos dois. Sufocado, querendo amor, sedento por bermudas e com ela ao lado para não parar de falar um minuto sequer, os prazos continuam exigindo uma capacidade absurda de entregar “jobs” conforme o combinado. Funcionários exemplares. Às vezes, um elogio no ambiente de trabalho. Muitas vezes – mesmo sendo exemplares – uns socos no estômago, uns diretos bem no queixo, uma rasteira acachapante e aquela velha sombra mental: “eu não nasci pra isso”. Cadê o amor? Não existe amor em... não existe quase nada de essencial, de intenso, numa reunião às nove da manhã, cafezinhos aguados, todos com a cara inchada, chefe tentando conversar, nas entrelinhas, no diz que não diz, o quanto é importante sermos criativos, darmos o melhor em nosso trabalho, pois, quanto mais formos melhores e criativos, mais ele, o chefe, poderá ganhar dinheiro. E o salário O.

Então, a gente nem se importa tanto com a falta de grana, com a conta no vermelho, com a impossibilidade de realizar mais algum sonho consumista que as propagandas nos convencem de que trocar de carro é chegar ao paraíso. A gente torra o cartão de crédito comendo mais, bebendo mais, nos entupindo de coisas industrializadas. E a gente engorda. E a gente quer emagrecer. Academias lotadas. Clubes de corridas lotados. Parques ecológicos entupidos. Mas no fundo a gente só queria mesmo é jogar mais uma partida de futebol online no videogame. No fundo a gente só queria mesmo é ver Netflix, a novela das nove, um reality gringo, sofá, pipoca, brigadeiro, sorvete, coca, um sono, fim de semana acabando, não conseguimos ver um filme inteiro sequer, aquela série é interminável, mas o domingo não. E a segunda-feira tem uma magia: o seu ar é mais pesado, todo mundo fica daltônico, as pernas doem, a chuva molha, o sol queima, o vento rala, o trânsito, a azia, a pressão baixa, a pressão alta, o amor não está no ar. E eu sinto tanta falta de você. E para mim, em meio ao que chamo de campo de batalha do cotidiano enlouquecido vivido por todos nós nesta cidade, já não basta o beijo seco de manhã, o tchau, o WhatsApp, o pedido para comprar pão e um ligeiro cafuné na cabeça ao fim da noite. Só o amor poderia ser capaz de curar essa doença da alma, a doença de querer sempre estar em outro lugar que não aquele em que se está exatamente agora. E então eu cometo uma loucura, pelo menos sob o ângulo capitalista dos ditames corporativos da velha tradição “segunda a sexta, das 8h às 18h”: mando um Whats dizendo que é urgente, que estou em frente à sua empresa, obrigo-a a sair mais cedo no horário de almoço, levo-a – mesmo vestindo esses sujos uniformes obrigatórios do viver os dias “úteis” – ao melhor restaurante da cidade, à melhor cama dessa cidade e à banheira com hidromassagem mais dignificante da cidade.

Não tive coragem de jogar os smartphones pela janela do carro: ainda faltam quatro prestações para pagar; mas, pelo menos, desligo-os. E com um ar de insanidade aceitável, com um discurso empolgado e empolgante, consigo convencê-la de que só ali estaremos salvos desses monstros que nos obrigam a ter pouca dignidade no dia a dia e a se contentar com pouco amor. E então estou salvo, nos braços dela. Moro no sorriso dela. Eu me fortaleço é com o beijo dela. Sinto-me um homem poderoso e bonito; ela está radiante, cheia de energias e beleza única: o amor nos salvou. No outro dia, demos um jeito de conseguir um atestado para levar na empresa.


Wilame Prado

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