a poltrona

Crônicas e cápsulas

Wilame Prado

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Temporada em off, triste, muito triste

Helio Flanders, frontman do Vanguart, lança "Uma Temporada Fora de Mim", seu primeiro trabalho solo, surpreendendo pela maturidade, pela sensibilidade e, principalmente, pelas letras extremamente tristes, mas belas.


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Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum "Uma Temporada Fora de Mim" ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de "Uma Temporada Fora de Mim". Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa "Cuyaba Tango"). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião. Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios. Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção "Dentro do Tempo que Eu Sou", que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis "Gaivotas" e "Como Vai Você") no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali. Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: "Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo".

Em "Uma Temporada Fora de Mim", tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em "Romeo", em letra cerebral, com um achado destes: "Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter." É triste também a milonga de "Cuyaba Tango", com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção "Um Grito": um homem ouviu um grito de "amor!" em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: "hoje a vida é olhar a janela e esperar". Para quem se identificou com "Uma Temporada Fora de Mim", a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.


Wilame Prado

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