Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades.

De Guimarães Rosa a Caetano Veloso pela terceira margem do rio

Em seu disco “Circuladô”, Caetano Veloso faz homenagens a grandes escritores, trazendo para seus acordes nomes renomados da literatura. Uma das músicas, feita em parceria com Milton Nascimento, é a “A terceira margem do rio”, inspirada em um conto de Guimarães Rosa. A modulação de gênero dos músicos nos traz um olhar diferente, focado no mistério das perguntas não respondidas – o que no conto não nos é tão visível.


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“Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer pra si uma canoa.”

Guimarães Rosa, o nosso grande mineiro cantador do sertão, escreveu “A terceira margem do rio”, um conto que narra, através da visão do filho, a história de um pai de família do interior. Sem motivo aparente e sem se dizer qualquer palavra, ele decide passar o resto de seus dias em uma canoa, no meio de um grande rio.

Diante da decisão do “nosso pai”, como era chamado pelo filho, as pessoas da família têm reações diferentes. O filho passa a se sentir responsável pelo ocorrido e acaba dedicando sua vida para cuidar do pai. A mãe fica brava, no início o ajuda, e, em determinado momento, vai embora. A filha se casa, ganha um bebê e fica ressentida por não ter o pai como avô de seu filho.

Enquanto isso, o homem se mantém distante, fiel a seu objetivo, incólume aos apelos de sua família, numa postura sertaneja de quem não arreda o pé, não desiste – sua palavra vale muito, mesmo sem a ter dado.

“Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente.”

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O que chama atenção na história é o mistério causado pela decisão desse homem que silenciosamente passa a viver na “terceira margem do rio” – o que nos coloca a pensar inclusive no que há de metafísico nessa atitude, uma vez que ela gera uma série de perguntas sem respostas: Por qual motivo ele foi? Como ele sobrevive? Está ficando velho, como suporta a força das águas desse imenso rio? Para onde ele vai quando não está à vista? Ou até mesmo:

Será esse pai a representação da nossa vontade de fuga da realidade?

Porém, todas essas perguntas que surgem são muito abertas. O leitor pode colocar nessa lista a que quiser. Pode inclusive colocar aquela pergunta que atormenta os dias e que não há resposta, ou que há, mas parece não ter solução. Ou seja, Guimarães Rosa consegue, com a simples atitude de um personagem, fisgar a nossa subjetividade de uma maneira profunda.

Durante todo o conto, vamos percebendo a angústia que essa atitude causa nas pessoas ao seu redor, a ponto de modificar o rumo de suas vidas. A palavra “doido” não pode ser nunca pronunciada em casa, a não ser que o resto do mundo seja considerado também.

Talvez doidos sejam os que continuam na mesmice dos seus dias e não partem para outras margens. Talvez o que “nosso pai” queira dizer é que devemos construir a nossa rota de fuga, construir nossas canoas de madeira forte e enfrentar a imensidão da liberdade com bravura intocável.

“Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo.”

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Juntamente com Milton Nascimento, Caetano Veloso colocou as lentes líricas em cima do conto de Guimarães Rosa para traduzi-lo em poesia – o que chamamos de modulação de gênero. Caetano, como todos sabem, não tem só o dom da poesia em verso, mas também da poesia em música. Portanto, “A terceira margem do rio” de Caetano e Milton nos traz também a poesia misteriosa dos sons do conto, lembrando água, tronco, natureza, fluidez – e assim, emerge aos ouvidos a impressão de uma floresta escura e úmida de rio.

Os versos falam essencialmente da metafísica que Guimarães Rosa nos coloca em seu texto, diante do silêncio do pai. E o silêncio é o mais trabalhado pelos compositores quando escrevem que “somente o rio viu e ouviu o que ninguém jamais ouviu”. Ou seja, só o rio sabe o mistério que essa família quer tanto desvendar, o mistério que o leitor quer desvendar. A palavra é de água. A casa da palavra é onde o silêncio mora.

Somente a água doce e silenciosa sabe o que acontece quando um homem decide viver nela em uma canoa. Lembrando Heráclito: “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio – tudo está em constante estado de fluidez.” Esse segredo está em curso, indo embora para lugares dos mais distantes, misturando-se indecifrável aos outros compostos do seu percurso, levando a mais remota possibilidade de sabermos o mistério do homem que não diz palavra.

Durante a leitura do conto, não pensamos tanto nesse mistério. Ele está ali presente, é claro, nos questionamentos da família e nas mudanças de suas rotinas, porém Caetano e Milton parecem ter encontrado o pedaço essencial, o motivador da escrita de Guimarães Rosa. E surge na música, aflorada, a angústia do silêncio sempre destacado, a ânsia das perguntas não respondidas – daquelas que todos temos desde que surgiu o pensamento humano. Ganhamos ainda muitas perguntas durante o percurso de nossas vidas, mas, no final, podemos jogá-las todas em um pacote e resumi-las a uma simples e única pergunta:

Afinal, quem é o “nosso pai” que não nos diz nada?

*Destaques em negrito retirados do conto.


Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades..
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