Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades.

Povo Wodaabe: Pequena reflexão sobre a beleza

Uma cultura onde os homens é que utilizam a pintura, com todos os seus contornos e truques, a fim de seduzir as mulheres. O poder econômico fica nas mãos delas, assim como o poder de escolher – apontando mesmo – qual dentre aqueles que estão dançando, com seus dentes brancos e olhos à mostra, é o melhor.


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Conseguir uma definição de beleza não é tarefa fácil nem pra dicionário. Sendo assim, o povo wodaabe pode não saber também essa definição, mas de uma coisa eles sabem: são os mais belos de todo o mundo.

No entanto, se um wodaabe resolvesse passear num shopping qualquer das nossas cidades, muito provavelmente seria visto com maus olhos, seria considerado feio, marginal, desprezível.

“A palavra é uma arena”, teoriza Bakhtin, e arena nessa frase tem o sentido de ringue mesmo, onde muitas ideologias lutam. Por isso é tão difícil encontrar definições ou significados crus. Veja só: em três parágrafos, há duas vertentes lutando pelo significado do que é belo. Há ainda você pensando no que é belo. Há também essa frase de Bakhtin – que também entra no que é belo.

Pois então, nessa tribo nômade que vive no meio do deserto do Saara, as mulheres têm uma única grande preocupação quando se fala em beleza: montar um enorme e afofado topete que cai pela testa.

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Quem vive agarrado ao espelho é o homem. Quem usa maquiagem e roupas bordadas é o homem. Quem tem uma festa debutante aos 15 anos é o homem. E o que os púberes aprendem na comemoração? A ser belo. Aprendem a maquiagem necessária, aprendem a dança e a cantoria de um ritual de acasalamento que dura 7 dias e é um verdadeiro campeonato de beleza masculina.

É o Festival Geerewol. O evento acontece apenas uma vez ao ano. Os homens e as mulheres da tribo esperam ansiosamente por este período e quando finalmente é chegado o encontro, os belos iniciam o ritual com uma cuidadosa sessão de maquiagem.

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A produção envolve uma base amarela ou vermelha, detalhes desenhados de branco, truques com o preto para que os olhos e os dentes pareçam mais brancos e contornos com linhas para que o nariz pareça mais alongado. Como detalhes finais da composição, uma grande pena de avestruz na cabeça e uma trespassada bolsinha de magia.

Sim, magia. Tipo a que traz a pessoa amada. E vejam o que diz uma wodaabe sobre esse costume:

“Talismãs? As mulheres não precisam. Se eu visse um homem de quem gostasse, pegaria minhas coisas e ia embora com ele. Isso é amor, não é magia, não preciso de magia.”

Mas voltando ao ritual, depois da sessão de embelezamento, os homens dançam, cantam e tentam algumas técnicas de sedução ao mesmo tempo, como arregalar e virar os olhos, mostrar os dentes num sorriso fixo ou tremer levemente os lábios. As mulheres assistem impassíveis, como se não estivessem interessadas, mostrando um dos costumes de toda a tribo – o de sempre mostrar humildade.

Quando escolhem enfim o seu parceiro, elas apontam discretamente ou somente mandam aquele olhar que diz tudo. O homem escolhido agora pode segurar sua mão e ir embora com ela “pra mata”.

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Não há entre eles qualquer questionamento sobre o que vai acontecer na mata. Pode ser uma noite ou dia de romance, pode ser um casamento, pode ser o que acontecer. Pode ser a liberdade e aconchego que a mata dá.

“Certas coisas acontecem na vida não para assustar, mas sim para mudar o entendimento sobre as coisas absolutas.” *

Tudo isso é muito novo pra quem mora aqui deste lado do mesmo oceano. Além dessa completa inversão de papéis de gênero, há ainda um costume interessantíssimo, que mostra como um povo primitivo pode ser emancipado.

No dito festival, as mulheres participam livremente, não importa se são solteiras ou casadas. Mais que isso, a presença das casadas vai além de uma mera participação, pois se estiverem infelizes, podem desistir do marido e partir mata adentro com outro homem, rumo a uma nova vida, com novas vacas, barracas e outros objetos nômades. Inclusive aquela fala lá de cima sobre magia e pegar as coisas e ir embora com o homem de quem gosta é de uma mulher casada.

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E nós aqui, mulheres, agarradas aos nossos espelhos. Não vamos à padaria sem uma base, tiramos violentamente todos os nossos pelos, arrancamos a carne das unhas com alicate afiado, passamos produtos químicos, ácidos e misteriosos nos nossos cabelos, rostos e corpos.

E nós aqui, mulheres, preocupadas com o que o aquele homem lindo, inteligente e charmoso que queremos levar “pra mata” vai pensar da gente se assim fizermos.

É claro que a cultura é muito diferente, o ambiente e os ancestrais são diferentes. Nós não temos culpa, somos produto de toda uma história que veio bem antes de pensarmos em nascer, somos só repeteco com detalhes a mais. Quando chegamos ao mundo, o contexto social já está construído há muito tempo. Mas vale a comparação.

Vale pra gente lembrar que existem outros modos de organização e por isso mesmo ninguém deve seguir determinados padrões se simplesmente não quer. Na América, na África, onde for. “A única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter.” **

E continuamos nessa tarefa imprecisa de (re)significar a beleza, não esquecendo que ela tem também um lado desprezível, que oprime. Quem a possui é oprimido pelo padrão estético imposto, quem não a possui, sofre a opressão por conquistá-la.

E mais: a beleza pode ser um deleite, mas ela também é uma forma de saudade, porque no corpo logo tudo murcha e cai, como uma fruta que não se sustenta. A beleza tem ainda um lado sombrio - ela encanta de uma forma que nos deixa incapazes de raciocínio e nos faz voltar a um estágio infantil e passivo diante de uma visão apolínea.

Tudo isso pegando somente um dos tantos traços do conceito de beleza, o traço da forma dos corpos humanos. Porque a beleza pode ser muita coisa.

Pode ser o silêncio de duas pessoas que se entendem, os pêlos de um bichinho assanhado, o gozo na ruga das sobrancelhas, as flores no chão de uma árvore grávida...

Um homem magro, alto, negro, com o rosto pintado de amarelo ovo e com os olhos arregalados.

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Links:

Fotografias lindas do festival Gerewol

Documentário sobre a tribo wodaabe

Citações do texto:

*Cidadão Instigado - https://www.youtube.com/watch?v=VXDpToZBn8g

**Belquior - https://www.youtube.com/watch?v=ehDOaBn3TKo


Joana Ferraz

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