Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades.

10 seleções de versos de Vinícius de Moraes que não falam sobre amor

Os primeiros versos do nosso poetinha.


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“De tudo ao meu amor serei atento (...)”

“De repente, do riso fez-se o pranto(...)”

Um romântico afogado em uísque e um homem capaz de nove casamentos. É assim que conhecemos Vinícius de Moraes. Mas ele não é só isso: em seu primeiro livro, “O Caminho para a distância”, vemos uma face mística, uma espécie de religiosidade metafísica, que encontra a fé na natureza.

Lançado em 1933, quando tinha apenas 19 anos, o livro traz versos ainda imaturos, tanto que apenas o poema “A uma mulher” foi selecionado pelo próprio Vinícius para sua antologia. Mesmo com essa recusa do poetinha, são primeiros versos lindos – e aqui estão selecionados numa intenção de encontrarmos justamente essa imaturidade das nossas primeiras questões metafísicas ou filosóficas, de tão perplexos que ficamos diante da vida e da natureza.

Então vamos lá, andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar!

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1. Místico

As grandes nuvens brancas e paradas –

Suspensas e paradas

[...] Ritmam interiormente o movimento da luz

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2. Inatingível

Eu segui porque tinha que seguir

Com as mãos na boca, em concha

Gritando para o infinito a minha dúvida

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3. Revolta

De que te vale o espaço se te cansa?

Quanto mais sobes, mais o espaço avança...

Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

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4. Ânsia

No desespero das árvores paradas busquei consolação

E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio

Nos ruídos do mar senti o grito de revolta

E de pavor fugi

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5. Purificação

A ti, Senhor, gritei que estava puro

E na natureza ouvi a tua voz.

Pássaros cantaram no céu

Eu olhei para o céu e cantei e cantei.

Senti a alegria da vida

Que vivia nas flores pequenas

Senti a beleza da vida

Que morava na luz e morava no céu

E cantei e cantei.

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6. Vigília

A lágrima que brilha nos meus olhos

Possui por um segundo a estrela que briilha no céu

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7. Extensão

Prostrado na terra eu olhei para o céu

E pedi ao Senhor o caminho da fé.

Noites e noites foram-se em silêncio

E somente a extensão.

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8. O Bom-pastor

Amo andar nessas tardes...

Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo

Como um raio de luz.

Cresço, projeto-me ao infinito, agitando

Para consolar as árvores angustiadas

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9. Sonoridade

Em árvores longínquas pássaros sonâmbulos pipilam

E águas desconhecidas escorrem sussurros brancos na treva.

Na escuta meus olhos se fecham, meu lábios se oprimem

Tudo em mim é o instante de percepção de todas as vibrações

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10. Judeu errante

Hei de seguir eternamente a estrada

Que há tanto tempo venho já seguindo

Sem me importar com a noite que vem vindo

Como uma pavorosa alma penada

Sem fé na redenção, sem crença em nada

Fugitivo que a dor vem perseguindo

Busco eu também a paz onde, sorrindo

Será também minha alma um alvorada.

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E você? Conhece “O caminho para a distância” e quer falar de outros versos? Essa seleção fala realmente do misticismo natural? Deixe seu comentário!

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Joana Ferraz

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