Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades.

Secos & Molhados e a poesia: 4 interpretações

Interpretando poemas da banda Secos & Molhados com a ajuda de seus contextos históricos.


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Você já escutou uma música várias e várias vezes e só muito tempo depois descobriu quem escreveu a letra? Aconteceu comigo também. Mas enfim consegui descobrir a poesia de Secos & Molhados a tempo de fazer neste artigo a interpretação de 4 desses poemas musicados.

E foi assim: Estava eu em um sebo, na época em que fazia faculdade, como sempre procurando preciosidades poéticas. Foi quando me deparei com o livro "Os sobreviventes", de Cassiano Ricardo. Na dedicatória “Ao amigo Flávio, feliz ano novo – 27/12/1982."

Na contracapa um poema: Prece cósmica. Comecei a ler e fui reconhecendo aos poucos aquela sonoridade. "É uma música dos Secos & Molhados!" Uma euforia silenciosa tomou conta de mim. Secos & Molhados já fazia parte da minha vida desde a infância, quando dançava "O Vira" com meu irmão. E só ali, naquele momento de caça ao tesouro no sebo da faculdade, é que descobri a poesia musicada de uma das minhas bandas preferidas.

É claro que fui buscar saber mais disso, afinal de contas eu já sabia que o grupo havia musicado a Rosa de Hiroshima de Vinícius de Moraes – todo mundo estuda esse poema no colégio. "Então o que eles fazem é a melodia de poesias!" Levantei essa hipótese e meu coração acendeu. Quando busquei saber, era verdade. Quase morro de amor quando descobri que uma das minhas músicas preferidas de infância é uma poesia do Manuel Bandeira, o Rondó do Capitão, que veremos melhor mais adiante.

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A poesia musicada de Secos & Molhados

Tanta poesia presente nas canções têm uma razão de ser: João Ricardo, idealizador do grupo, é poeta e filho de poeta. Seu pai, João Apolinário, teve também seus poemas musicados pela banda.

O que você vai ler e escutar aqui é uma seleção de músicas do primeiro álbum "Secos & Molhados", de 1973. O único critério utilizado foi o de ser as poesias que mais me tocam. Após apreciação, farei uma pequena interpretação do poema.

Lembro-vos aqui :D que toda interpretação é repleta de subjetividade. Inclusive comentei sobre o aspecto de abertura do significado do poema para cada experiência individual neste post. Portanto, não pretendo fechar significados, e se você se sentir à vontade, pode comentar sobre o que interpretou, sobre o que tem a acrescentar ou somente sobre o que sentiu.

1. Sangue latino

Primeira música do primeiro álbum, escrita por João Ricardo e Paulinho Mendonça. Dá o play para ver o Ney rebolando na cara dos militares. Sim, rebolando mesmo em plena ditadura.

Passou pela censura dos militares incapazes de interpretação uma crítica contra a América do Norte, representada na letra por ventos do norte. Na época, logo após a revolução cubana, os Estados Unidos passavam por um medo mórbido do avanço comunista no mundo e por isso apoiaram o golpe militar de 64 no Brasil. Essa repressão se estendeu por outros países da América Latina com a operação Condor.

Resumindo: EUA + militares = amigos de ditadura.

operação condor.png Passeata dos cem mil contra a ditadura militar no Brasil, 1968.

Portanto, a poesia de Sangue Latino dentro desse contexto invoca toda a força do nosso sangue contra o que nos é imposto, chama a raiz do povo latino-americano, pede para que não sejamos vencidos. É um hino de resistência a uma ameaça de nos calar a voz. Que possamos encontrar a força pra isso no exemplo das pessoas que deram a vida (meus mortos) para que tivéssemos a liberdade que hoje temos.

2. Amor

Quarta música do primeiro álbum, com melodia de João Ricardo para um poema de seu pai, João Apolinário. A poesia está aqui não só nos versos que indicam os altos e baixos da vida amorosa, mas também na música do contrabaixo e da gaita.

Esse poema quase se pode enxergar como um desenho de ondas, um gráfico de uma vida amorosa. Há momentos de leveza e alegria, quando pousamos. E há momentos de peso e tristeza, quando coisa nenhuma é suave. No fim, o verso "que em mim amadurece" fecha o poema nos lembrando que todos esses momentos são necessários para que estejamos atentos aos aprendizados.

Após todas essas oscilações, o poema deixa então uma mensagem de otimismo: tudo e todos os momentos da nossa vida nos são de grande valor, tudo é amadurecimento - levando aqui para um sentindo mais amplo do amor.

3. Prece Cósmica

Poema de Cassiano Ricardo musicado por João Ricardo.

{Cassiano Ricardo palavras-chave}

1894 - 1974 São José dos Campos - SP Poeta modernista Tendência Nacionalista Martim Cererê - livro referência da vertente modernista verdeamarelismo.

"Os sobreviventes", livro de onde foi retirado o poema, foi escrito em 1971, época da Guerra Fria, quando o mundo todo sofria com a disputa dos dois grandes poderes mundiais - EUA e União Soviética (antiga Rússia) - principalmente por conta da corrida armamentista, que gerava o terror da iminência da bomba atômica capaz de destruir todo o planeta.

Sendo assim, interpretamos os 4 como as superpotências vencedoras da segunda guerra: Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética. E o poeta faz uma oração para o universo: Que os 4 conservem a mão sem nenhum gesto. Ou seja, que não apertem os botões das bombas. Que o amor, vinho quente do coração, lhes suba à cabeça espessa - essa última palavra trazendo um sentido de peso, claro, imaginem como é a cabeça desses homens que correm atrás de bombas e guerra.

Ao final, o poeta continua fazendo sua prece: que desse teatro de ameaças surjam apenas a paz e a luz - pombas brancas e amanheça.

O livro todo "Os sobreviventes" tem esse contexto de guerra fria e fala de uma irmandade humana planetária, unida pelo sofrimento causado pelos avanços tecnológicos. Cassiano Ricardo enxerga até mesmo a viagem à Lua como uma afronta à segurança humana. Bobagem? Talvez. Mas com um pouco de empatia, podemos compreender essa aversão à tecnologia num contexto como esse, quando praticamente todos os esforços eram voltados para a corrida armamentista e para viagens espaciais. EUA e URSS por anos guerrearam assim: quem tem mais bomba? Quem tem mais foguetes? Capitalismo ou Socialismo?

4. Rondó do capitão

Poema escrito por Manuel Bandeira, publicado em seu livro "Lira dos cinquent’anos", de 1940, e musicado por João Ricardo, em 1973.

Muita gente interpreta esse poema pelo contexto histórico, já que em 1940, quando foi escrito por Bandeira, a época era de ditadura Vargas. Do mesmo modo, principalmente por conta da palavra capitão, esse sentido de ditadura é reforçado pelo novo contexto de ditadura militar de quando foi musicado em 1973. O próprio João Ricardo assim o interpreta, olha ele falando:

Mas particularmente não gosto muito dessas interpretações, talvez porque eu tenha escutado muito essa música na minha infância. Por isso prefiro ficar com as conotações leves e imaginativas que só uma criança sabe dar. Até hoje sinto que esse capitão é o dono de um balão muito colorido que consegue carregar toda a tristeza do peso mais pesado. É um capitão de um mundo fantástico que entende muito de esperança e sabe mantê-la no coração das pessoas de um jeito leve, porque aprendeu a leveza com seu balão.

Além disso, os militares também podem ser deixados de lado quando sabemos que esse poema tem inspiração em uma brincadeira de criança, a parlenda a seguir:

Bão-ba-la-lão / Senhor capitão, / Em terra de mouro / Morreu seu irmão, / Cozido e assado / No seu caldeirão; /E foi enterrado / Na Cruz do Patrão.

Muita história vem à tona quando estudamos a fundo um poema. Mas nem sempre precisamos ficar com esses contextos. Depois de publicada, a poesia é livre para ganhar os sentidos das mentes que encontra. E que bom que Secos & Molhados libertou ainda mais esses versos, espalhando-os assim de uma maneira estrondosa como o sucesso que tiveram. A eles, a nossa reverência.

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Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades..
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